“A Insustentável Leveza do Ser” foi publicado pela primeira vez em 1984 pelo escritor checo Milan Kundera (n.1929). É adaptado para cinema em 1988 pelo realizador Philip Kaufman (n.1936) e é, eventualmente, um dos livros da minha vida. Por estes dias voltei a lê-lo para tentar perceber que eco, nesta altura da minha vida, faria em mim. Tinha uma noção de que o que primeiro me tinha intrigado era aquele título pois, para mim, a leveza do meu próprio ser havia sido sempre uma prática totalmente insustentável. Nunca soube ser leve e nunca soube viver, pura e simplesmente, em paz, conformada com o que a vida me ia trazendo, sem aquele meu ímpeto de correr atrás do meu destino.

O livro passa-se na década de 1960, em Praga e o personagem principal, Tomas, é um médico que se afirma como totalmente apolítico, que tem sexo com diversas parceiras sexuais como passatempo favorito, fugindo sempre de envolvimentos emocionais. Contudo, duas dessas mulheres — Sabina, artista plástica, e Tereza, uma empregada de mesa que sonha ser fotógrafa — marcarão presença mais assídua na vida dele. Tudo flui até os acontecimentos do impressionante ano de 1968, conhecidos como “A Primavera de Praga”, afetarem a vida deste triângulo amoroso que vê os seus sonhos destruídos e as suas vidas mudarem para sempre. Num período que habitualmente se compreende entre 5 de janeiro e 21 de agosto de 1968, há uma tentativa de implementar reformas na, então, Tchescoslováquia, dominada pela União Soviética desde a Segunda Guerra Mundial. Alexander Dubček (1921-1992), líder desta tentativa de liberalização política, havia de ver os seus intentos interrompidos pela chegada dos tanques da União Soviética e pelos membros do Pacto de Varsóvia, no tal 21 de agosto de 1968.

Neste exercício narrativo em redor de um triângulo amoroso, repleto de sexualidade literária explícita, como se de um apelo à liberdade plena se tratasse (ou não fossem as liberdades sexuais umas das lutas das décadas de 1960 e 70 no Ocidente), Milan Kundera expressa o seu olhar muitas vezes melancólico e conformado, outras vezes amargo e revoltado com o destino do seu país e da civilização de uma forma geral. No correr da pena, não me lembro de outro autor que tenha conseguido cruzar universos e aventuras individuais com as coletivas, fazendo-nos viajar pelos lugares e obrigando-nos a um mergulho em reflexões que vão muito para lá do quotidiano comum de quem quer ficar sempre na mesma. Não é por acaso que o livro é considerado um dos melhores romances do século XX e ainda foi menos por acaso que a sua releitura tanto sono me tirou.

Nos últimos tempos, temos ouvido falar tanto das consequências do confinamento, e do medo generalizado causado pela pandemia, para a saúde mental. Daqui a uns tempos vamos começar a conhecer os números dos divórcios, das relações que acabaram, da quantidade de pessoas que deixaram de se suportar ao confrontarem-se com a verdade quotidiana sobre si mesmas e sobre o outro. Confinar retira-nos as distrações, o ócio que nos distrai e alimenta. Quantos de nós, que vivemos uma vida inteira da adrenalina que só o contacto direto com a criação artística dá, não sentem as suas vidas ceifadas, as suas possibilidades evolutivas castradas? Quantos de nós não sentem falta dos palcos, dos aplausos, dos encontros e das partilhas? Não é possível ser-se leve quando a guerra nos corta os caminhos, nos reduz as estradas, nos retira a essência e o modo de estar em que fazíamos acontecer aquela utopia bonita chamada “mudar o mundo” acreditando no poder do conhecimento e da literacia atrás das artes e da cultura. É insustentável. Nem para amar, na loucura de cada um, somos livres e este livre é sobre isto: sobre a forma como o contexto nos leva à loucura, ao excesso, à inércia e à desilusão.

No decorrer de tudo isto de 1968, nomeadamente na França da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, em que houve um famoso maio, saímos com o famoso 1% num orçamento para a Cultura, no governo que tinha como presidente Charles de Gaulle (1890-1970) e primeiro-ministro Georges Pompidou (1911-1974). Outras gentes e outros tempos. Mas será que nesta crise não podíamos fazer melhor e perceber o poder da Cultura, o poder curativo da Arte e dar semáforo verde aos públicos? Ou será melhor que a indústria farmacêutica faça o seu caminho e se esgotem os ansiolíticos? Que país queremos ser? E que mundo? Valha-nos a loucura e a Liberdade de Tomas, Sabina e Tereza para nos libertar a alma.

Vivemos tempos de uma insustentável leveza e, no dito setor cultural, estamos mesmo todos a esgotar a nossa capacidade de aceitação desta estabalhoada forma de ver o país sem ser a Cultura como o essencial das suas opções políticas e, mais ainda, o essencial da resposta ao restauro mental de que todos, mais cedo ou mais tarde, vamos precisar.

-Sobre Helena Mendes Pereira-

Helena Mendes Pereira (n.1985) é curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e Doutora em Ciências da Comunicação (ICS-UMinho), com uma tese sobre a Curadoria enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea. Atualmente, é diretora geral e curadora da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. No âmbito da educação e mediação cultural orienta, regularmente, visitas a exposições e museus de Arte Contemporânea, tendo já lecionado o tema em várias instituições de ensino. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho como assistente convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Publica regularmente em jornais e revistas da especialidade, tais como o quinzenário As Artes entre as Letras, nas revistas RUA e MINHA. Com mais de 13 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d’Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), João Louro (n.1963), entre tantos outros. Tem larga experiência em estudos de coleções, produzido e publicado extenso trabalho crítico sobre arte e artistas contemporâneos, onde se incluem catálogos e outros resultados de investigações mais profundas sobre artistas e contextos de curadoria. É membro fundador da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães. Tem publicados dois livros de prosa poética: “Pequenos Delitos do Coração” e “apenas literatura e não outra coisa qualquer”.

Texto de Helena Mendes Pereira
Fotografia de Lauren Maganete
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