“Funny, they made this new genre called Speculative Fiction, I thought all fiction had always been speculative.”

Teri Louise Kelly, Bent

“A fantasia cresce e a ficção especulativa despenhou.” Quem o afirma é Pedro Galvão, filósofo e escritor de ficção especulativa.

Atualmente, a ficção especulativa, para Marek Oziewicz, no artigo Speculative Fiction, refere-se a um domínio de atividade que existe não apenas através dos textos, mas através da sua produção e receção em múltiplos contextos. O campo da ficção especulativa reúne formas diversas de ficção não mimética, operando em diferentes suportes com o objetivo de refletir acerca do seu papel cultural.

A ficção especulativa acolhe subgéneros que lidam com essa motivação de diferentes formas. Há a ficção científica, cujas bases se prendem a eventos científicos; o terror e o horror, que se diferenciam pelo aspeto macabro e o objetivo de chocar o leitor; e a fantasia, que se desliga do que é considerado real, mas sem ter uma base científica ou um elemento macabro, e, muitas vezes, remonta às histórias orais.

É um género que, de certa forma, desafia ainda mais a “normalidade” das histórias, muitas vezes com o objetivo de nos retirar da nossa zona de conforto e de nos alertar para um perigo, para algo que corrói o nosso mundo aos poucos.

De acordo com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, estima-se que há três anos as vendas de livros na Europa tenham chegado aos 22,2 mil milhões de euros. De todas as vendas europeias, em 2017, 47,4% foram de livros de ficção e não ficção, 21,2% de manuais escolares, 18,5% de livros académicos e profissionais, e 12,9% de livros destinados a crianças.

Apesar do panorama satisfatório pela Europa no que diz respeito à venda de ficção, o mesmo parece não se aplicar em Portugal. De acordo com Sandra Carvalho e Pedro Galvão, escritores de ficção especulativa, são cada vez menos as editoras que tendem a apostar no género da ficção. Tal, como são cada vez menos os leitores a comprar livros deste género, especificamente de autores portugueses.

Atualmente, a publicação de autores nacionais é feita, sobretudo, por pequenas editoras. Destacam-se as edições de autor, a Imaginauta e a Editorial Divergência. A Editorial Divergência, que surgiu em 2013, atualmente é encabeçada por Pedro Cipriano, e a Imaginauta, criada em 2014, pelo diretor Carlos Silva. Estas funcionam como a maioria das editoras sem gráfica própria. Pagam um serviço a uma gráfica profissional para que lhes produzam esses livros.

Fotografias disponíveis via facebook "Imaginauta" e "Editorial Divergência"

Apesar de serem editoras distintas, o objetivo é comum: apoiar e promover os escritores nacionais de ficção especulativa. Tendem a não apostar em obras internacionais, exceto quando são fruto de produtos de troca. “Nós publicamos x autor internacional, e eles outro x português”, salienta Pedro Cipriano.

Para Carlos Silva, a ficção especulativa permite fazer perguntas mais elevadas tal como o “e se”, ou seja, permite-nos expressar mais livremente. “É como se nos afastássemos dos problemas ou das questões que queremos analisar, e estamos numa posição melhor.” Salienta, ainda, que as obras de ficção são escritas de acordo com a realidade à nossa volta, em que o escritor passa por um processo de interrogação. As conclusões acabam, muitas vezes, por se espelhar no mundo real. “Há essa ilusão de que os escritores têm poderes divinatórios, o que não é verdade.”

Fotografia disponível via facebook "Imaginauta"

Pedro Cipriano exemplifica, também, o poder da ficção: “Por exemplo, pegando no grupo LGBT, noutra editora que não a nossa, existe uma antologia que tem super-heróis LGBT e acabam por estar a falar sobre o tema de uma maneira mais suave.” Ou seja, procura chamar a atenção para uma realidade que as pessoas têm de aceitar. “Eu acho que isso é fantástico, porque conseguem passar essas mensagens de uma maneira mais ligeira”, finaliza.

 A verdade é que quando se compara o género da ficção especulativa a outros géneros literários, a quantidade de livros de ficção publicados encontra-se em decadência. Para o diretor da Imaginauta, tal caraterística deriva da “falta de uma ação de educação dos leitores para lhes mostrar que existe ficção, que ela é boa e que pode ser comprada e consumida cá.”

A isto, Pedro Cipriano acrescenta a realidade visível dos países estrangeiros. “Por exemplo, outros países, como a Finlândia, apoiam muito mais os autores independentemente do género. Houve, por exemplo, uma antologia que nós lançamos cá e na Finlândia, e lá vendeu quase 400 cópias, enquanto cá vendemos 40. E a Finlândia tem metade da população de Portugal.”

Fotografia disponível via facebook "Pedro Cipriano"

Para o fundador da Editorial Divergência, em Portugal, as pessoas não levam a sério o poder da ficção científica e da produção científica para ajudar a retratar coisas que estão a ocorrer agora.

Para fazer frente às dificuldades e de forma a promoverem o género, ambas as editoras apostam num conjunto de atividades. Realcemos as principais. No que toca à Imaginauta tomemos o exemplo do Festival Contacto, um festival generalista com várias atividades, desde apresentações a jogos de tabuleiro. Depois, há ainda um evento anual chamado “It´s Alive”, que convida escritores, em celebração de Mary Shelley, a escrever durante uma noite, um conto de terror.

Fotografia disponível via facebook "Imaginauta"

No que toca à Editorial Divergência destaca-se o Prémio António Macedo. “Todos os anos premiamos um manuscrito inédito para ser publicado e é uma homenagem quase ao pai da ficção especulativa nacional que é o António de Macedo, que infelizmente já não está entre nós”, explica Pedro.

Apesar da promoção destas atividades, os fundadores anseiam ver a ficção especulativa em outros festivais literários. “Por exemplo, no ano passado, em Óbidos, o tema era o medo, e realmente não houve nenhuma mesa sobre o terror, o que é uma coisa estranha quando o tema é o medo”, acrescenta Carlos Silva.

Em ambas as editoras, o processo de inscrição para novos escritores portugueses funciona de forma similar. Há um processo de seleção. Pede-se a todos os candidatos para enviarem através de um email, ou da página web, os primeiros capítulos, e uma sinopse que conte a história. Aí, existe uma votação e, se a obra se adequar, é requerido o resto do manuscrito para se fazer uma leitura na íntegra e, posteriormente, sofrer possíveis alterações. Posteriormente, o livro segue para a produção e é publicado. Pedro Galvão e Sandra Carvalho são dois dos frutos destas editoras.

Pedro Galvão escreve histórias desde a infância, ainda assim só há pouco tempo conseguiu lançar o seu primeiro livro de ficção, A Última Vida de Sir David, com a editora Imaginauta. Na altura chegou a enviar o manuscrito para grandes editoras, mas sem resposta, acabou por desistir. Para ele, a justificação é óbvia: “está fora do mainstream e há um preço a pagar por isso, que é inevitável”.

Fotografia disponível via facebook "Pedro Galvão"

Acrescenta, ainda, que, atualmente, o termo “Ficção Especulativa” é usado para caraterizar uma baixa cultura, sendo só um rótulo para agregar géneros literários.

Começa por numerar as dificuldades “enormes” para divulgar o seu primeiro manuscrito. “Algumas editoras julgam que, por terem títulos de ficção especulativa, isso representa uma nódoa no seu catálogo.”

 Aponta, ainda, o pedantismo do mainstream literário em relação à ficção. “Esse pedantismo não é universal, mas é muito frequente. Há muitas editoras, e estão no seu direito, que rejeitam tudo aquilo que seja identificável como alguns dos géneros da ficção especulativa, porque isso é considerado automaticamente lixo literário.”

A maioria das editoras tende ainda a atribuir uma faixa etária aos manuscritos, quando tal critério não se aplica. Outro problema passa por “não quererem publicar autores que não sejam conhecidos”, e por haver editoras que, de uma forma amadora, não acusam a receção de originais.

No meio das dificuldades acabou por encontrar duas pequenas editoras: a Imaginauta e a Divergência. “São editoras que estão dispostas a arriscar, e que estão dispostas a publicar dentro do setor da ficção especulativa a obra de autores portugueses. Editoras maiores, viradas para a ficção especulativa, não estão para correr esse risco.” Ainda assim, refere que não consegue viver economicamente deste ofício.

Apesar da paixão incondicional pela ficção, Pedro mostra-se desanimado. Preocupa-lhe no futuro não ter leitores. Acredita que o livro físico continuará, ainda assim não sabe se o leitor físico “continuará de boa saúde”.

Em igual pé encontra-se Sandra Carvalho, escritora de romance fantástico apaixonada pelas palavras, pelos cenários, pelas personagens, e por emoções que preenchem os seus dias. “Do meu pai, herdei o gosto pela aventura e o fascínio pelo mar. Da minha mãe, herdei o amor pelas artes e pelos livros. Sempre tive uma imaginação efervescente, e, por volta dos doze anos, comecei a criar as minhas histórias.”

Fotografia da cortesia da autora

Ao início eram tão-somente pequenos contos, parágrafos incompletos, devaneios inspirados em tudo o que assimilava no dia a dia. Porém, a curiosidade pelas civilizações Celta e Viquingue levou-a pesquisar acerca da vivência desses povos e, assim, nasceu A Saga das Pedras Mágicas, “uma história que acabou por crescer e amadurecer comigo”.

Admite que sempre teve receio de submeter as suas histórias à apreciação de um profissional, até porque não aguentaria uma resposta negativa. Na altura, “foi o meu marido que, após ler o manuscrito que deu origem aos dois primeiros livros d’A Saga das Pedras Mágicas, insistiu para que eu o enviasse para uma editora. Quando me recusei a fazê-lo, ele pesquisou em segredo qual seria a editora que eventualmente poderia interessar-se pela história.”

A Editorial Presença foi a escolhida, por estar a publicar a coleção Via Láctea, dedicada ao fantástico, e a apostar em autores portugueses.

Fotografia da cortesia da autora

Carateriza a ficção como um permanente desafio à imaginação e um convite ao sonho. “Penso que aquilo que os leitores mais procuram é a diversão de uma grande aventura, que os leve por caminhos inusitados, com o imprevisto à espreita em cada curva, recheada com batalhas de tirar o fôlego e intrigas que tanto os façam rir como chorar”.

Sandra Carvalho admite que em Portugal, durante muitos anos, a literatura fantástica foi encarada como um género menor, por se acreditar que se tratava de histórias infantis, que em nada serviriam o intelecto adulto. “Inclusive, conheço pessoas que tinham vergonha de admitir que as liam com gosto.”

Face a isto, revela que tem feito um trabalho de apelo nas redes sociais para que,” cada vez mais, os leitores se aventurem a descobrir as obras dos autores portugueses, e os prefiram aos autores estrangeiros sempre que forem comprar um livro para ler ou para oferecer.”

Para a escritora, a lógica do mercado é simples. As editoras só irão apostar na publicação de novos talentos se reconhecerem o interesse crescente dos leitores pelos autores nacionais. “É muito triste pensar que jovens autores portugueses de grande talento podem nunca vir a publicar, por não existir mercado para os acolher”, lamenta.

Tal como Pedro Galvão, não vive exclusivamente desta vocação. “Eu não escrevo pelo proveito que retiro dos livros, ou rapidamente passaria fome. Escrevo pelo prazer imenso que a escrita me dá e pelo gosto de partilhar as emoções das minhas histórias com os meus leitores, que tanto me acarinham.”

Ainda assim, deixa uma mensagem de esperança aos jovens escritores que se queiram aventurar pelo mundo do fantástico. “Escrevam com sinceridade e emoção, viajando para os vossos cenários e colocando-se na pele das personagens, para que a história se torne real aos olhos do leitor. É fundamental que não terminem o vosso trabalho “à pressa”, levados pela ânsia de o enviarem para uma editora. Corrijam e voltem a corrigir, até sentirem, em consciência, que não existe mais nada que possam aperfeiçoar.”

Pedro Galvão deixa também alguns conselhos: “Procurem fontes de inspiração fora da literatura de fantasia ou da ficção especulativa. Cultivem o interesse por outras áreas de estudo como a filosofia e a história. Leiam literatura mainstream que não seja bem-comportada do plano formal. Não publiquem em edições de autor, o papel do editor é muito importante para se conseguir fazer alguma coisa em qualidade.”

Chegados a este ponto, caso a decisão seja avançar para a publicação, resta entrar em contacto com as várias editoras para saberem o que cada uma tem para oferecer, pois nem todas trabalham com os mesmos mecanismos.

“Quando guardamos o nosso trabalho numa gaveta, com receio de receber uma resposta negativa, estamos a dar a nós próprios o ‘não’ que tememos ouvir. Se não conseguirem à primeira, voltem a tentar, porque não têm nada a perder”, acrescenta Sandra.

A verdade nua e crua: não é fácil. “Vivemos num país pequeno, com poucos hábitos de leitura, onde a cultura nunca é uma prioridade. Além disso, estamos a atravessar um período extremamente difícil… Mas não deixem nunca de lutar pelos vossos sonhos, e sejam felizes com as escolhas que fazem”, reforça a escritora.

Nesta lógica, Pedro Galvão deixa uma pergunta em suspenso: “será que no futuro ainda vamos ter leitores”?

Texto de Isabel Marques
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