No passado dia 2 de agosto de 2020, dia em que, se fosse vivo, José Afonso (1929-1987) celebraria 91 anos, o Município de Belmonte integrou na sua homenagem mais larga a este nome maior da cultura portuguesa, a inauguração de uma estátua sua, em tamanho natural, da autoria do escultor Pedro Figueiredo (n.1974). José Afonso frequentou, no final da década de 1930, a escola em Belmonte, juntamente com os seus irmãos, João e Maria, e sobre tutela do tio Filomeno (presidente da Câmara à época), vivendo sob o pesado ambiente salazarista e tendo sido obrigado a envergar o traje da Mocidade Portuguesa. Para o bem ou para o mal, José Afonso correu pelas ruas de Belmonte até ir para o, então, Liceu Nacional D. João III, em Coimbra, podendo imaginar-se que ali terá vivido algumas importantes aventuras da meninice e adolescência. Esta homenagem a José Afonso, em formato de arte em espaço público, era uma promessa eleitoral antiga do Câmara Municipal de Belmonte que agora tomou forma.

A sessão, no dia 2 de agosto, em que, lamentavelmente, não foi dada palavra ao artista e autor da obra, contou com intervenções do presidente da edilidade local, António Rocha e da Ministra da Cultura, Graça Fonseca que, no seu discurso, não fez qualquer referência à referida obra e ao seu autor, Pedro Figueiredo. Facto.

A obra de arte em espaço público e, muito em particular, a escultura, nunca estabelecem, num primeiro momento, uma relação pacífica com os públicos sendo sempre alvo de polémicas. Poderia referir um sem fim de episódios em que isto aconteceu. Recentemente, uma obra de Pedro Cabrita Reis (n.1956) para Leça da Palmeira, Matosinhos, foi alvo de um processo difamatório e de vandalismo sem precedentes e, não estivéssemos nós a falar do que é considerado por muitos como o mais singular, o melhor, artista contemporâneo português da atualidade, e seria expetável que uma linguagem mais conceptual causasse tanta polémica. Mas, no caso de Cabrita Reis, até a dita elite se insurgiu. A dada altura, o argumento já não era a qualidade da obra mas o preço e, se nada justifica o vandalismo, há muitos motivos para justificar a inveja: Pedro Cabrita Reis é um génio e o que faz não está ao alcance de todos, de quase nenhum outro. O “Afonso Henriques”, da autoria de João Cutileiro (n.1937) que se ergueu em Guimarães, em 2001, no Largo João Franco, e sobre o qual ainda hoje se diz, que o seu autor “afiambrou o rei” e que não se tolere que a espada não esteja em riste, como um guerreiro que era ainda que, conceptualmente, não faça qualquer sentido tal iconografia às portas da cidade antiga. Os vimaranenses, de uma forma geral, continuam a preferir a estátua da autoria de Soares dos Reis (1847-1889), em frente ao Paço dos Duques, alegando que, não só tem mais dignidade como está “mais parecido”. Isto, claro, porque a malta foi ao Facebook de Afonso Henriques e tem a certeza de como eram as feições do primeiro rei de Portugal. Evidente. Ou seja, as dificuldades de obter expressões naturais no bronze aqui não se fazem sentir. Da mesma forma que achamos perfeitos os muitos bustos e a estatuária equestre, desde o Império Romano até ao tempo em que a fotografia passa a ser rotina e passamos a dispor de uma proliferação da imagem e a saber como é cada um.

Sabemos, muitos de nós, que Portugal é um país de treinadores de bancada e de ativistas de sofá e muitas têm sido as vozes que se erguem para desdizer e maldizer a obra de Pedro Figueiredo. Sabia, à partida, o artista, que a representação de uma personalidade como a de José Afonso nunca seria consensual, assim como a de Amália Rodrigues (1920-1999) não o será se alguém lhe decidir erguer uma estátua. São personalidades muito queridas, cujas imagens estão amplamente proliferadas e das quais, cada um de nós, acha que é proprietário e tem uma palavra dizer. Pedro Figueiredo tem, na escultura, uma linguagem inconfundível que bebe da plasticidade do surrealismo e explora as possibilidades da relação da obra com a sua envolvente, num jogo de cheios e vazios em que o corpo é geometria, mas também simbolismo. Trabalha a manipulação da proporção do corpo e aplica a cor em elementos não naturais. Acredita, o artista, que a obra de arte tem uma aura e que fixa em si sentidos múltiplos. Nesta estátua a José Afonso, atendendo à encomenda que lhe foi feita, Pedro Figueiredo procurou a tal escala natural e a aproximação a uma espécie de realismo ainda que não tenha prescindido de atribuir significâncias a algumas das suas opções plásticas. Daí a importância de o artista poder ter tido a oportunidade de discursar e explicar a obra. Pedro Figueiredo escolheu uma imagem icónica de José Afonso no seu último concerto no Coliseu de Lisboa em 1983, altura em que estaria já doente e em que Portugal estava, pela segunda vez (a primeira foi em 1977), sob domínio do FMI. Um país sonhado pelo seu cantor maior que definhava. Terá sido por estes dois motivos que Pedro Figueiredo opta por colocar José Afonso mais magro, encolhido, do que as fotografias da época denunciam e, depois, sendo a manipulação das proporções do corpo uma das marcas do seu trabalho, a cabeça parece-nos numa escala ligeiramente superior o que, aliás, valoriza José Afonso como um homem “maior que o pensamento”. Agora, se está parecido ou não, se parece ou Nilton ou o Rogério Samora como já li por aí, parece-me bastante indiferente e apenas maldoso. Mas é tão fácil maldizer. Só maldiz assim quem nada faz, quem é inerte e incapaz, da mesma forma que só é maldito quem se arrisca a fazer, a concretizar, a ir em frente. A vida faz-nos habituar a isto mesmo: seremos sempre malditos os que ousarmos concretizar. Sempre. Faz parte.

Este meu contributo escrito é apenas isso mesmo: um contributo para que possa haver uma possibilidade de leitura da obra. Em nenhum momento fiz considerações de gosto ou do seu contrário. O que importa é a coragem dos homens para que a memória não se esgote e os lugares possam contar o tempo e o espaço dos imortais. Para a História, tendo-lhe sido dada a palavra ou não, merecendo ou não, a sua estética, o carinho e apreço da dita elite cultural portuguesa, fica o facto de Pedro Figueiredo ter tido a coragem de congelar em bronze a imagem de José Afonso, não fugindo à figuração e assumindo, mesmo assim, um conceito para a criação. Há muito que José Afonso era imortal e, goste-se ou não, com ele imortaliza-se um escultor externo ao lobismo, externo ao grupo dos eleitos, que faz da sua vida persistência e trabalho, sem nunca se vergar e sem a presunção de querer agradar a todos. Parabéns Pedro Figueiredo e um bem haja ao Município de Belmonte por continuar a investir em programação cultural e criação artística.

-Sobre Helena Mendes Pereira-

É curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e doutoranda em Ciências da Comunicação, com uma tese sobre a Curadoria enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea. Atualmente, é diretora geral e curadora da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho como assistente convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Com mais de 12 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d’Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), entre tantos outros. É membro fundados da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães e em 2019 publicou o seu primeiro livro de prosa poética, intitulado “Pequenos Delitos do Coração”.

Texto de Helena Mendes Pereira
Fotografia de Lauren Maganete
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