Cada vez mais entrar no mercado de trabalho depois dos estudos é mais difícil, elitista e frustrante, pois o mercado de trabalho que nos espera é baseado em exploração e num conceito de desenvolvimento refém da crença de que o desenvolvimento dos países só se consegue através de crescimento económico e que, as restantes esferas o seguem. Continua-se a perpetuar a ideia de que as intervenções de primeira ordem devem ser de natureza económica e as restantes dimensões da vida, como a social, cultural, política e a ambiental são subordinadas à economia e utilizadas como níveis de reparação e complementaridade.

Neste contexto, importa destacar os desafios que enfrentamos na entrada para o mercado de trabalho enquanto juventude residente em Portugal: a precariedade dos estágios não remunerados, os trabalhos a recibos verdes e o próprio desemprego. Por um lado, já sabemos, mais ou menos, o que esperar, pois vamos ouvindo exemplos de amigos e vemos anúncios de estágios durante e após o nosso curso. Por outro lado, ninguém nos consegue preparar para o que vamos enfrentar.

Os estágios não remunerados claramente atentam contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos e contra a Constituição da República Portuguesa, no entanto, existe um incentivo feito por um sistema de ensino profissional e universitário que exige estágios, mesmo que não remunerados, para a conclusão do curso. O nosso sistema de ensino também não é gratuito, logo já exclui uma parte da população e, uma parte das pessoas que não são excluídas de estudar, enfrentam após a conclusão do curso a necessidade de trabalhar numa área na qual não pretendem construir a sua carreira profissional. Este tem sido o cíclo vicioso que traz consigo consequências profundas na nossa qualidade de vida, mas que também pressiona e promove, numa fase posterior, a discriminação de género no mercado de trabalho. 

O fim desta cultura de exploração e, em específico dos estágios não remunerados, tem que acontecer a um nível governamental, pois um Governo que considera aceitável e ainda promove estágios de três meses sem qualquer compensação financeira apresenta o convite a que todas as empresas e instituições façam o mesmo. Acabar com este tipo de estágios pode ser tão simples como efectivamente os proibir, mas se conhecermos o exemplo de França conseguimos perceber quais os danos de o fazer junto de empresas que estão somente focadas no lucro. Assim, neste país, algumas pessoas não conseguem terminar os seus cursos, pois não são permitidos estágios não remunerados com uma duração superior a dois meses, logo as empresas não têm oportunidades, mas, ainda assim, os cursos exigem a frequência num estágio com uma duração superior.

Através da ação de ativismo #PayYourIntern a equipa da Associação Youth Cluster percebeu que muitas das pessoas que apoiaram esta iniciativa tiveram, elas próprias, de fazer estágios não remunerados, o que nos fez também compreender que precisam de alguém que lute contra isso para que se possam juntar a esta causa.

A caminhada para acabar com os estágios não remunerados ainda será longa e um primeiro passo consiste em não contribuir para esta prática. Uma vez que precisamos de adquirir experiência profissional, um caminho possível consiste em descobrir e escolher  alternativas, pois elas existem. As alternativas não são ideais ou o que se espera de um mercado de trabalho que se deve pautar por um respeito intrínseco pelos Direitos Humanos, mas são isso mesmo, uma alternativa que não deixa de trazer consigo alguma instabilidade financeira, habitacional e social. 

No meu caso, quando terminei a licenciatura sabia que não seria muito fácil encontrar estágios para desenvolver competências na minha área de estudo, uma vez que todas as propostas que tinha recebido até à data eram não remuneradas. Esta era uma realidade que não me era acessível, mas tinha outros planos, pois desde que entrei para a universidade que me tornei activa no contexto internacional e, especialmente no ramo associativo e, por isso, conhecia uma multiplicidade de programas internacionais financiados para estagiar, fazer voluntariado, intercâmbios, formações, entre outros. 

Em Portugal não ia encontrar o que procurava, por isso, adoptei uma visão de que iria estar num ano sabático permanente até saber bem o caminho que queria seguir. Nestes anos após o curso tive experiências de voluntariado, estágios e empreendedorismo em Malta e na Grécia. Estas foram cobrindo os meus sonhos, objectivos e todos os custos de sobrevivência. Em 2020 a pandemia chegava à Europa, por isso, recusei um Service Civique em Roma e regressei a Portugal. Estive um mês a procurar estágios e empregos em Portugal. Um mês que me fez perceber que rapidamente poderia passar um ano ou mais. Desisti, juntei amigos e decidi investir 12 meses do meu tempo a criar ferramentas para que todas as pessoas jovens pudessem também elas beneficiar dos programas dos quais eu beneficiei. Em plena pandemia surgiu a nossa associação juvenil, uma plataforma de oportunidade e muitos planos para mudar a realidade em que vivemos. 

Eu nunca estive sozinha nesta caminhada, pois quando entramos no mundo do Erasmus+, Corpo Europeu de Solidariedade, Erasmus para Jovens Empreendedores, entre muitos outros programas, vamos conhecemos tantas pessoas que nos inspiram e partilham o seu conhecimento. Na nossa associação todos nós nos conhecemos enquanto estávamos a fazer os nossos anos sabáticos que nos colocaram em contextos tão diferentes e especiais que nunca teríamos em casa. Ainda assim, deram-nos ferramentas para também trazer para casa o que fomos aprendendo e assim ajudar tantas outras pessoas que nos contactam.

As oportunidades nacionais e internacionais são várias e, com estes artigos, vamos trazê-las aos poucos para que se tornem conhecidas, acessíveis e uma primeira opção no momento de entrar no mercado de trabalho.

-Sobre a Margarida Freitas-

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, queria mudar o mundo pela diplomacia, mas depressa percebeu que o seu caminho era junto das pessoas a fazer voluntariado nos mais variados contextos, logo adoptou o lema do ano sabático para a sua vida e já andou um bocadinho pelo mundo. Com um desejo de trabalhar em intervenção humanitária, mas com um grande cepticismo sobre as práticas das grandes organizações no Sul Global está a concluir o Mestrado em Estudos de Desenvolvimento no ISCTE. 
Em 2020, juntou 9 amigos e fundou a Associação Youth Cluster com o objetivo de dar as mesmas oportunidades que já teve a outras pessoas jovens residentes em Portugal. Através do seu trabalho na Youth Cluster e, em cooperação com outras organizações, tem reivindicado por igualdade de oportunidades e melhores políticas para a juventude. 
Nos tempos livres adora googlar sobre coisas improváveis.

Texto de Margarida Freitas
Fotografia de Rita Almeida
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