Sim, ficarei já, ficarei em Almograve,
E aí uma pequena barraca levantarei, uma barraca de angústia e medo:
Colherei dezoito memórias de dor e haverá um buraco de fel,
E solitário entre o rumor das suspeitas  morrerei.

E antes algum ciúme desfrutarei, porque como lenta gota é o ciúme,
Desprendendo-se dos véus da noite até ao lugar onde o morcego soa;
Eis aí o meio-dia da dor, a meia-noite de fulminante escuridão,
E algumas onças de corpos derrubados o amanhecer.

Deito-me e fico, resto com o dia, paro com a noite, Ouço as águas do charco, o seu gorgolejar junto à estação;
Seja pela cama, seja pela soturna cadeira,
Ouço esse ruído no mais fundo de mim.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier


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