Tudo se ganha,

Tudo se perde,

Reza o pacote de açúcar

Rasgado espoliado do desejado

Vertido mexido deglutido

No remoinho quente da boca matinal.

A primeira página do jornal

Suja-me os dedos de tinta e de ruído.

O que fica da impressão

É: Não.

Não aos políticos indecentes,

Aos economistas quase inteligentes.

Não aos gráficos bizantinos da Grécia

E notícias luteranas da Suécia.

Não às infografias de moléculas,

Gráficos de abéculas,

Relatos mentidos,

Crónicas de cromos vendidos.

Não à propaganda vermelha, laranja, rosa,

Engana tão inteiramente,

Qualquer intoxicação criminosa

Se transforma em pasta de dente.

Não aos códigos de barras,

Códigos de acesso, códigos civis,

Códigos militares, códigos códigos.

Não.

Não se ganha nem se perde quando se diz não.

Não há negacionistas dentistas baptistas

Suficientes a dizer não.

Motivos razões folhas de cálculo…renal.

Soporíferos, semáforos, sussurros,

Casmurros, pastéis, anéis.

Não.

Na polida cidade, bairro, quarteirão,

Dizer não é dizer sim.

O não não está só.

Fica sempre-em-pé

Sim-não-não-sim-sim-sim-não-não-sim.

Parado na parada da esplanada,

Faço continência e recuso-me a fazê-la,

Folheio o pequeno-almoço,

Engulo entrevistas, reportagens, palavras, imagens,

Não me levem a mal.

Tudo é grave e alimentar no círculo terrestre afinal,

Sem gravidade anda-se no ar,

Seria outra coisa a última página do jornal,

E as curvas descendentes, intestinais

Como se portam ao comer jornais?

Assim é assim assim sim sim sim não não sim não.

Melhor que o Afeganistão o Cazaquistão o Sudão

O Azerbaijão o Turquemenistão o Irão

e outras geografias azias malvasias

Digeridas em vão… de escada.

Tranquilamente, termino o café.

Tenho os dedos pretos retintos,

Letras, palavras, frases,

Que se descolam e penetram a pele.

Acabo de comer o jornal.

Ritual de cada dia semana mês.

As mãos transformam-se em parágrafos,

Os braços em capítulos,

Ainda não eram onze horas

E todo o meu corpo se traduz em inglês.

Levanto-me e soletro sonetos sonantes

Com as minhas palavras ambulantes.

A cada passo deixo, heroicamente, atrás de mim, digeridas,

Quadras e tercetos de incompletos decassílabos,

Até que toda a rua se transforma no meu reino de palavras perdidas.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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