Eu sou a máscara.

Tenho estado, literalmente, nas vossas bocas nos últimos tempos. Dificilmente poderia ser mais popular neste momento, quer pela minha omnipresença, quer pelos que me contestam. Pareceu-me que este seria o momento oportuno para me pronunciar.

Começo por falar um pouco de mim, sobre as minhas origens. Há milhares de anos que faço parte das vossas vidas, na proteção, entretenimento, disfarce ou mesmo na religião. Sempre precisaram de mim para se expressarem e para se servirem e posso até afirmar, com algum grau de certeza, que sou um uma das vossas melhores e mais diversificadas criações.

Nasci para corporizar a maior invenção dos seres humanos: a capacidade de contar histórias. Comigo, qualquer pessoa pode assumir outra identidade, de homens ou mulheres, de animais ou até de deuses. Por isso, quiseram-me sempre por perto, mesmo nas tribos mais antigas disseminadas por diferentes pontos do globo.

Descobriram, depois, as minhas utilidades práticas. Apoderaram-se de mim para se protegerem do frio, do calor e de outras intempéries meteorológicas. Envergaram-me em milhares de guerras e combates, do lado dos inimigos e do lado dos amigos.

A cultura também tem sido uma das minhas casas preferidas. Participo assiduamente nas artes populares, emprestando o meu cunho a todos os carnavais e derivados existentes, sou grande fã de rituais, desde os africanos, passando pelos aztecas até aos caretos de Podence, e adoro todos os super-heróis que precisam de mim para passarem incólumes na sociedade.

Não evito a minha aparição frequente nas artes mais elevadas. Gosto de ser sofisticada e represento, até, vejam bem, o símbolo do teatro. Mas, também, as óperas têm requisitado os meus serviços rotineiramente e até a arte plástica contemporânea tem precisado de mim para preencher os seus museus.

Apesar na minha presença habitual na vossa história, desde o início desde século tenho sido avistada com maior regularidade pelo oriente. São muitas as pessoas comuns que me usam para se protegerem da poluição e das transformações climáticas. Algo que foi surpreendendo quem se estabeleceu mais pelo ocidente.

E, claro, tudo mudou em 2020. Sou mais utilizada que nunca, provavelmente mais útil do que alguma vez fui, mas também contestada e odiada. Por vezes sinto-me até um pouco ofendida quando ouço que sou um atentado à liberdade. Mas eu percebo. Por vos acompanhar há tanto tempo, desenvolvi esta capacidade de ser paciente, de vos entender. Por mais que vos traga proteção, a ideia de imposição é traumática.

Mas depois da obrigação, chega a libertação. A minha libertação. A partir de 2022, espero eu, já não vão precisar de me usar por dever. Todos aqueles que têm dúvidas sobre mim podem, simplesmente, afastar-se. E isso, curiosamente, liberta-me. Fico apenas próxima de quem me deseja.

Mas não se enganem. Serão, ainda, a maioria de vocês. Sei que vou passar a ser uma das peças habituais dos vossos armários, tal como um casaco, uns sapatos ou um gancho para o cabelo. Só que desta vez, livres da obrigação, vão apreciar-me com outros olhos.

Vão chamar os vossos melhores artistas e artesãos, os vossos melhores ilustradores e costureiros, os vossos melhores influenciadores e designers de moda, para me darem mais vida. Vou deixar de ser simplesmente azul baço para ganhar todas as cores que existem.

Em 2022 vou voltar à tranquilidade de saber que continuarei a ser imprescindível no vosso futuro.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 para criar o Gerador.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo
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