* Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

 

Encontrámo-nos num fim de tarde de Outono, quando a luz torrada já não é quente, mas entra pelos gomos de tangerina que Ederval vai separando, enquanto escuta Abbey Road, dos Beatles, para me esperar melhor. Mas foi no fim do Verão, há três anos, que o conheci, numa mesa de faculdade, quando estudávamos Estudos Portugueses.

Primeiro foi o amigo, depois o poeta. Foi o amigo que me levou ao poeta quando, antes de uma aula, me ofereceu o seu primeiro livro, O Livro Conta Corrente (2015). Mais tarde, as nossas conversas abriram minha língua, misturou-se a terceira pessoa e deixei alguns artigos definidos. É pela poesia, também, que criamos a casa partilhada, a “língua geral”, e coabitamos nos livros uns dos outros. Apareceu uma dedicatória para mim no seu segundo livro, Novas Ofertas de Emprego para Ederval Fernandes (2018), que, agora, no jardim do Centro Cultural de Belém, interrogo para escutarmos o bafo das palavras.

 

Ederval Fernandes é um poeta brasileiro. Nasceu em Feira de Santana, na Bahia, em 1985. Estudou economia, foi secretário parlamentar da assembleia legislativa do estado da Bahia e, com a literatura, trocou as letras ao destino. Formou-se em Letras Vernáculas e foi professor. Chegou a Lisboa, que se tornou uma morada dos seus poemas, em 2015.

 

Gerador – Caetano Veloso canta um verso em “Língua”: “Gosto de sentir minha língua roçar a língua de Luís de Camões”. O tema da língua aparece em muitos dos seus poemas. Em “Língua geral” escreve “ofício de lábios”. A sua poesia é oral, destina-se a ser lida em voz alta. Quando escreve, escuta-a?

Ederval Fernandes Escuto. Para mim, a parte principal do poema, o que mais me emociona, é o som das palavras. O meu exercício maior de escrita é um exercício de escuta.

 

 G – O que é a “língua geral”? Agostinho da Silva defendia que não havia uma cultura geral, que esta tem que ver com o cânone, o modelo, logo uma hegemonia, mas sim uma cultura singular, a de cada um. Existe uma “língua geral”?

EF – Eu não sei se existe uma língua geral. A minha tese no poema, o que busquei expressar no poema, foi uma vontade que a poesia seja uma língua geral. Essa expressão “língua geral” denomina um período histórico de uma fala no Brasil, em que a língua portuguesa teve contacto com as línguas dos nativos brasileiros, antes do Brasil. Naquele período, as pessoas dali conversavam neste caldo de línguas, que envolvia uma série de palavras de língua portuguesa e outras palavras das línguas nativas. Convencionou-se chamar, no estudo da história da língua, e mesmo da história brasileira, dos livros didácticos, etc., como um período em que se falava uma língua geral. Eu acho bonita essa expressão. Até tendo a concordar com Agostinho, que realmente a ideia de cultura geral, que é imposta e colocada hoje em dia, tem que ver com uma ideia muito fixa de cultura que é imposta sobre os outros. Neste sentido, dá para pensar nesta cultura geral que ele fala como uma cultura de massas. Aquilo é imposto às pessoas em diferentes lugares e com as suas diferentes culturas. Não foi isso que eu quis dizer no poema. Foi mais uma espécie de crença, uma vontade de crença, um exercício de vontade e de crença em atribuir à poesia uma espécie de língua geral, abaixo, ou entre ou dentro das outras línguas, que eu acho que é um pouco o que ocorre. Não é à toa que se diz que é impossível traduzir um poema de uma língua para a outra. Mas essa busca é incansável. Todas as culturas tendem a tentar traduzir um poema de uma língua para a outra. Existe uma busca e um anseio dos diferentes povos, das diferentes línguas em que os poemas se comuniquem, e isso, para mim, é um traço desta língua geral que é o poema. Há muita coisa que se perde na tradução, mas há qualquer coisa que se mantém. Isso é a língua geral, os seres humanos buscando contacto e conseguindo, de uma forma, ou de outra, essa coisa geral do poema, da poesia.

 

G – É um projecto para o ser humano ou algo que já se dá?

EF – É algo que já ocorre, algo que, sim, é vivo. Não é de hoje que as pessoas traduzem poemas. Também não é de hoje que as pessoas dizem que é impossível traduzir os poemas. Mas esta vontade continua. Só estou tomando o lado da batalha entre o que é traduzível e intraduzível e dizendo que muita coisa se perde, mas que muita coisa se mantém na tradução. O exercício da escrita é a tradução de algum sentimento para um poema, e, mesmo lá, de um poema de uma língua para a outra, qualquer coisa resiste. Eu acho que essa resistência é a língua geral, a coisa geral da língua, uma espécie de raiz.

 

G – O que é esse “qualquer coisa”?

EF – Esse “qualquer coisa” é um grande mistério. Eu escrevo um pouco sobre isso, de ser isto um mistério. Acho que nos meus poemas, mesmo aqueles que defendem alguma tese, eu não consigo precisar o que é isso. Eu gosto e fico feliz de nunca conseguir precisar. Só o exercício disso é um exercício de resistência. Não admitindo que não há algo, também admito que esse algo que existe, porque eu sinto, ele não é claro. Então, a busca é, por si só, muito importante. A ideia da partilha. No poema, com as palavras, você esta partilhando aquela busca, que é uma busca qualquer, que é essa raiz, que, para mim, é um mistério, e sempre vai ser um mistério, porque as pessoas estão sempre lendo e escrevendo poemas, sentindo, e as palavras comovendo, sensibilizando, partilhando sentimentos.

 

G- Há o português do brasil ou o brasileiro?

EF – Essa é uma pergunta que eu não consigo responder. De acordo com essa coisa do mistério, também acho que há alguma coisa brasileira dentro desta língua, que não é, a rigor, nossa (digo “nossa”, de alguém que não nasceu no Brasil), mas que a gente conseguiu meter a mão naquilo e ter algo nosso dentro daquilo. É como quando você tem uma roupa que foi feita por alguém, mas aquilo tem um pouco da sua característica quando a veste, ganha uma forma sua. O sapato. Se o seu pé é um pouco mais gordo, o sapato tende a elastecer. Tem um pouco disso, de uso, de usar e, neste “usar”, criar alguma sequela identitária ali. Então, não sei se há uma língua portuguesa brasileira, não sei se existe o brasileiro como língua, mas existe uma brasilidade dentro da língua. Mas não é uma resposta que eu dê com muita firmeza. Também faz parte do mistério da língua, isso.

 

G – Pensamos de maneira diferente consoante as línguas que habitamos. Considera que isso se passa entre os falantes de português de Portugal e os de português do Brasil?

EF – Sim e não. Sim, porque as palavras quase todas são de uso comum, fora uma ou outra que vai ter uma particularidade maior do que outra lá, etc., e, nesse sentido, a identificação e a compreensão é fácil, porque é um campo de vocabulário partilhado. Mas, por outro lado, é aquilo que a gente falava das especificidades. Há coisas que lá são ditas e que lá têm uma força específica que aqui não vai ter, por uma série de coisas. Por exemplo, em “Língua geral”, uso a palavra “febra”. Aqui ela tem uma força, um contexto, uma familiaridade. No Brasil, alguém que leia esse poema, cria um estranhamento no som e no significado. A resposta exacta é essa: sim e não. É a mesma língua, mas não é, às vezes, a mesma língua.

 

G – “Há sempre/ duas/ ou três.// e furtam/ meu olhar,/ minha fome.// às vezes,/ dez ou seis/ ou cem -// (e)além/ do alvo/ acertam/ algo”. Quais são essas “duas ou três”, “às vezes dez ou seis/ ou cem”? Que alvo? Que algo além?

EF – Ele é o primeiro poema que escrevo aqui, em Portugal, deste livro. Quando me mudei para cá no início de 2015, eu vivi em Entroncamento, que é uma cidade próxima de Coimbra (não sei se é próximo de Coimbra, talvez). Eu não conhecia, não fazia ideia, mas minha tia morava lá. Tinha uma biblioteca municipal, e eu ia para lá. Estava livre, esperando as aulas começarem. É um poema que sintetiza como eu escrevo, pelo menos o primeiro estágio. Não sou uma pessoa que escreva constantemente, mas sou uma pessoa que presta atenção nas palavras. Quando duas ou três, dez ou cem, me tocam, saem do seu uso quotidiano e ganham qualquer contorno mágico, é assim que começo um poema. É a coisa da escuta, voltando à primeira pergunta. Então, em algum momento, ou sempre na minha vida, vou ter sempre duas ou três que vão sempre brilhando fora do uso ordinário delas. Não sei quais são, não há propriamente exactas duas ou três recorrentes, elas sempre mudam, mas estão sempre presentes. No geral, são em português, mas às vezes não. É um processo de escuta, porque é na escuta que eu consigo captar esta primeira nuance que sai do estado do uso habitual da palavra para um pré-estado da poesia. Depois, ali com aquelas palavras, vou tentar costurá-las, fazer algo com elas. Elas estão sempre saindo dos seus lugares habituais. Qual alvo e para quem se dirigem? Quando escrevo, dirijo-me a mim mesmo, tentando entender qual esse fenómeno de algumas saírem do seu lugar. Porque isso propriamente me interessa? Isso me interessa ao ponto de dizer que, por vezes, isso furta meu olhar, minha fome. Isso ganha contornos misteriosos para mim. Não sei dizer porque isso me ocorre.

 

G – Que palavras Portugal lhe trouxe?

EF – Muitas. Como te falei, a palavra “febra”. Foi usada de maneira consciente. Queria usar essa palavra. Mas muitas expressões e sonoridades também. Acho que muita coisa está por vir no sentido de produção minha de poemas, que palavras que Portugal me trouxe vão estar presentes. Já há uma ou outra, duas ou três nos poemas deste livro Novas Ofertas de Emprego. Mas “febra” é mais forte. É diferente do que se fala no Brasil e parece “fibra”. Eu gosto disso. Ainda vou escrever alguma coisa com “chávena”, embora se use no Brasil. As pessoas mais velhas, nos livros mais antigos, usam chávena, mas não com o uso corriqueiro e quotidiano que há aqui.

 

G -Usa-se xícara, não é?

EF – Sim, xícara. Xícara de café.

 

G – A “língua do gelo” é a língua da norma?

EF – Sim, porque isto vai contrário a essa ideia de que a palavra usual ela sai da norma. Se o que me cativa é quando a palavra sai da norma, eu criei essa expressão para dizer que, quando ela não sai, não me cativa, está aprisionada, gelada, sem o seu calor habitual que faz florescer, dar outros sentidos assim.

 

G – Há um poema intitulado “Gramática normativa”, no qual conta uma situação que existiu factualmente. Quer contar-nos?

EF – Foi uma aula de língua portuguesa, como está no poema. Foi uma história bastante triste. Não sei se a professora quis usar a história como ilustração, ou se ela… não sei… Mas o que me chamou a atenção ali foi o uso da situação, por si só, trágica. Um aluno dela se suicidou, segundo ela, porque passava por uma série de problemas emocionais, pessoais, etc. Uma coisa que a chamou a atenção nesse processo, que culminou no suicídio, foi que ele não dominava bem a língua, ou, pelo menos, essa língua gelada da norma. Isso era uma coisa que estranhava ela, uma professora que, por ironia, se chamava Norma Soeli. Isso é extremamente irónico e condizente, completamente condizente. Este aluno não se enquadrava naquela ideia de língua, naquela ideia de gramática. Isso foi um ponto que chamou a atenção dela. Só que, no meio desta história, ela usou essa expressão “se suicidou” para exemplificar este uso do pronome fossilizado. Não se pode dizer “o aluno suicidou”, tem que ter ali um pronome para ter sentido. Usar isto como um exemplo naquele contexto, naquela aula, naquela universidade, naquele curso de Letras, me pareceu bastante cruel e muito sintomático de uma forma de ensinar a língua. Eu sou contrário a isso. Então, o poema é um pouco um manifesto. Acho que é recorrente, em alguns poemas meus, me manifestar contra a rigidez da língua. É exactamente essa não rigidez, essa capacidade de a língua sair do lugar, de fugir, ter outra fala, ter outra coisa, outro mistério, que me cativa, é o que cativa as pessoas, essa coisa do novo. Mesmo sendo as palavras muito gastas, elas são sempre novas, têm essa capacidade de expressar algo novo do mundo.

 

G – É por isso que a poesia é política?

EF – Exactamente. É assim que eu respondo a algumas preocupações minhas relativas ao mundo político: para que serve o meu poema? Como posso agir politicamente na vida ou ter alguma responsabilidade política? Então, eu tento mostrar, pelos meus poemas, que as palavras, por si só, já têm esse componente político, elas podem transformar o mundo. Têm sempre qualquer coisa nova que se dita de forma correcta (quando digo “forma correcta” digo de forma nova). Estar-se sintonizado com algo novo, que está por ser dito, acho que isso tem perfeitamente um componente político, porque pode desconstruir grandes verdades, desmontar grandes narrativas rígidas da vida social, mas também da cultural, da ideia de cultura como uma coisa massificada, geral, no sentido que falávamos. Então, tendo a palavra essa capacidade de dizer o novo, é nesse sentido que eu uso ela como coisa política ou, pelo menos, que respondo aos meus anseios de tentar entender como ajo politicamente.

 

G – Regressando a “Língua geral”, lê-se “um corte cego/ seco/ no cerne da gramática”. Sendo a gramática a norma, a poesia é esse corte, emergindo, então, a dimensão política que falamos?

EF – O corte é essa diminuição. Para mim, o corte é achar algo novo. Quando você diz algo novo, você quebra a ordem. As narrativas são feitas de tijolos a tijolos, são palavras. Uma coisa interessante, que me lembrei de repente, tem a ver com isso. É o prefácio do Prado Coelho para uma edição de Barthes, que é lançada pós-25 de Abril, um ano depois talvez, ou nem sequer, dentro daquele livro específico, O Prazer do Texto. Ele disse que, uma das coisas que a revolução fez, foi libertar algumas palavras, que estavam presas, não eram ditas. Elas estavam presas mesmo, como “comunista”, “trabalhador”, “direitos trabalhistas”, “liberdade” … outras palavras neste campo. Foi regozijante para ele, para a sociedade, poder ouvir essas palavras pelo rádio, pela música, nas conversas. Essas palavras foram componentes para dinamitar a ordem, a narrativa, o grande muro do silêncio, da violência, da imposição da força de outras palavras, do “anticomunismo”, do “anti-direitos dos trabalhadores”. Enfim, há um discurso do fascismo. Essas palavras vieram dinamitar. Essas narrativas e o poema são pequenas dinamites que vão desestabilizando. Parece que não, mas sim, porque essas palavras, quando ditas familiarmente, criam um ambiente de familiaridade. No Brasil, hoje em dia, se vive um pouco o inverso. Se você falar “comunismo”, “comunista” no Brasil, está muito ligado a algo pejorativo, geralmente ligado a uma posição de violência, mas tudo isso amparado num grande muro do fascismo da direita. Então, é curioso isso que o Eduardo Prado Coelho falou, e tem tudo a ver com essas palavras dinamitarem os grandes muros narrativos dessas ideias fixas e pesadas.

 

G – “Avanço com o bafo”. Que “bafo” é esse?

 EF – O bafo seria este uso pessoal da palavra, quando ela passa pela sua boca. Voltando à metáfora do sapato, a palavra sendo sapato, o bafo seria aquela forma que o seu pé vai dar ao sapato. Então, é a forma de criar calor para aquela palavra, dela ter um cheiro próprio, um sabor próprio. Tirar a palavra da gramática, do gelo.

 

G – O verbo utilizado por Caetano é “roçar”, um verbo muito físico. A sua poesia é vivida como encarnação da língua, na medida em que lhe traz “hálito”, “saliva”, “ranço”, “sabor”, “Tabasco”, “humidade”?

EF – Eu gosto muito dessa música do Caetano, dessa expressão. Gosto porque ela tira a criação do poema de uma ideia mais espiritual, menos inorgânica, e a põe mais no campo orgânico, nesse processo mais humano, nesse sentido da coisa com algum organismo. Eu busco nos poemas exactamente isso, dar o bafo, o tom pessoal, a construção da organicidade. É uma preocupação minha ter este norte, este roçar.

 

G – Depois de lhe dar vida pelo seu sopro, retorna ao motivo do artesão. A poesia é um artesanato?

EF – A poesia é um artesanato, pelo menos, para mim. Claro que o fenómeno é muito fragmentado, cada um tem a sua forma de fazer. Mas, para mim, é um artesanato, no sentido de que não é completamente espontâneo, não é o primeiro momento do poema, não é o poema já pronto, como acontece com muitas pessoas. Mas, para mim, é uma palavra depois da outra, o processo de artesanato mesmo, de construir, demolir, tirar dali, botar ali. Gosto dessa ideia de trabalho, da coisa do processo.

 

G – O artesanato está muito ligado à mão… .

EF – Sim, curioso. Não sei se é curioso, mas eu escrevo à mão. Eventualmente escrevo uma coisa ou outra no celular ou no computador, mas é outro processo. Os estágios iniciais são feitos à mão. Tirar as palavras desse uso solto do quotidiano, capturá-las quando se apresentam de outra forma e pôr a mão na página. Esse é o início. Eu começo com uma ideia, com, exactamente, isso, registar à mão as palavras que me saem, aparecem, soam para mim mágicas, misteriosas.

 

G – A mão está relacionada com o poder…

EF – Na forma de elas se apresentarem de outra forma que não seja quotidiana, existe ali algum poder, delas, mais do que meu. Acho que o meu poder vem da minha vontade. É vontade que eu tenho. Poderia não ter vontade. Acho que esse fenómeno é para todo o mundo, não é uma coisa pessoal. Há aqueles que têm vontade de tocar ali, trazer para o papel, mas há aqueles que não têm porque têm outras prioridades na vida. Há qualquer poder aí, que é o poder posterior àquele poder próprio da palavra, que é insinuar qualquer coisa nova. Há poder em poder tirar essas palavras, colocá-las no papel e criar ou reproduzir a partir delas outra coisa qualquer no poema. Há ali poder no sentido de manipulação, estou manipulando um material, que é o das palavras, e o que está nelas, o som e o sentido. Mas não sei até que ponto vai esse poder, pelo menos, no campo da criação. Há outros poderes relativos a isso. Por exemplo, em alguns períodos da História, o poeta tem uma relevância mais política, outros não. Se diz, hoje em dia, que o poeta não tem relevância quase nenhuma como figura política, mas, em outros momentos, teve muita relevância. Isso são questões de poder mais social. Mas eu digo que há qualquer poder no acto da recriação, na manipulação da palavra, mas também é um mistério.

 

G – O verbo que utilizou foi “tocar”. Quando pensamos em tocar, pensamos nalgo físico… .

EF – Mas é tocar. Não é criar do nada. Elas estão por aí.

 

G – É uma relação?

EF – Completamente. Drummond de Andrade tem um poema intitulado “Procura da Poesia”, onde é dito: “Convive com teus poemas, antes de escrevê-los”. É uma relação. Tem o seu próprio tempo. Às vezes, algumas pessoas perguntam: “tem um poema inédito para publicar?” Eu não sei quando vou escrever. Preciso de ter uma relação. Essa relação tem um tempo próprio. Não sou eu que decido. Elas também têm mais poder do que eu nessa relação. A relação que eu digo é ter um tempo próprio para essa relação. Há poetas que escrevem com uma relação muito mais rápida da criação com o produto final dessa criação. Eu tenho um espaço para o erro muito maior. Para o erro e para o certo. Para errar, de “errância”, ali dentro desse fenómeno. Ter paciência é a chave, para mim.

 

G – Numa entrevista a Como eu escrevo, quando questionado sobre o seu processo de escrita, responde: “O meu trabalho de escrita não se diferencia do trabalho de minha mãe, por exemplo, que modela e costura roupas. Assim, como ela, sigo alinhavando as palavras até chegar a um estágio em que eu possa vesti-las para me proteger do frio ou para ficar bonito para sair”. Reconhece uma herança, um prolongamento desse gesto, embora com uma forma transformada?

EF – No primeiro livro tenho um poema dedicado à minha mãe, outro ao meu pai. Na minha casa, na minha família, o acto de ler e escrever sempre foi uma coisa apartada. Não é um hábito da minha família, dos meus pais. Talvez há um hábito que pode chegar a isso, ler e escrever, estar envolvido no mundo das letras, e que eu acho que é importante, é o facto de meu pai ouvir sempre música. Foi uma pessoa sempre ligada à música, comprar vinis, ouvir, ter um cuidado com a música, separar um momento importante da vida dele para essa dedicação. Então, talvez essa coisa de escutar, que a gente falou desde a primeira pergunta, tem um pouco a ver com isso, porque eu aprendi a ouvir música a partir dele e ele me incentivou muito. Comprava discos para mim, CD, etc. Hoje em dia, eu colecciono vinis, em parte, por um sentimento de nostalgia daquele período da minha vida, mas também por esse hábito de ouvir música. Mas, fora disso, o acto de ler e escrever não é propriamente uma coisa familiar na minha vida quotidiana, entre os meus pais, os meus tios. Então, eu tento criar alguma proximidade entre as coisas que eu faço com a realidade da qual eu venho. Tento sempre criar ou entender (talvez seja até uma melhor palavra), os processos, as linhas que tocam o fazer da minha mãe, o seu trabalho, o que ela fez para viver, o que eu faço, também, e o que o meu pai faz, que partem disso, da ideia de um trabalho artesanal. A minha mãe é costureira, embora manipule máquinas, mas a origem da sua criação é manual, é artesã, são roupas, que não faz em série. O meu pai é electricista e trabalha, basicamente, com as mãos. Eu tenho esse cuidado, essa vontade, de aliar o que eu faço, o que eu trabalho, uma coisa que eu tenho prioridade na minha vida, que é a literatura, escrever, e não me afastar muito disso, com isso, a partir disso, do que os meus pais fazem. Então, essa resposta, como espelho no meu primeiro livro, são essas tentativas de entender de onde eu venho e não achar que o que eu faço com a literatura é uma coisa apartada, mas, na realidade, é uma continuidade do que eles fazem. Eu também trabalho com as mãos.

 

G – No princípio era o verbo ou o som?

EF – É o som. Completamente. Foi sempre o som. Tem sido sempre o som. Tem um poema meu ou outro que é mais narrativo, ou seja, é o verbo ou a acção que está em primeiro plano. Mas vai ser sempre o som. Acho que o som das palavras é uma forma muito precisa de comunicação e, ao mesmo tempo, libertária. Ela não diz só uma coisa, diz outras muitas coisas. E o som também. O som é mais libertário porque não tem só um significado, vai ter a ver com o seu estado de espirito. Não sei… eu tenho mais fé no som no que no verbo. A verdade é essa.

 

G – Vem de uma família humilde, onde não há o culto da leitura. No seu ofício de poeta, reconhece uma herança, comparando-o com o trabalho de costureira, da sua mãe, e de electricista, do seu pai. É muito claro o enraizamento e o compromisso com uma classe social. No poema “A cabeça do preto”, está presente uma denúncia da violência policial, que nos conduz imediatamente ao contexto do seu país, sinalizando a morte que circunda os mais pobres, acusando uma injustiça estrutural. Considera-se um poeta comprometido? Ou o compromisso é algo anterior a ser poeta?

EF – Esse compromisso é anterior a ser poeta. É um compromisso de tentar entender de onde eu venho, de que parte da sociedade eu vim e compreender as injustiças e as desigualdades que há nesta forma de dividir a sociedade em classes. Tendo eu tido a oportunidade de continuar os meus estudos, em perspectiva dos meus pais que tiveram, por contingências maiores do que eles, no sentido de ter que se sustentar, ter outras prioridades na vida que encaminharam eles para trabalhar logo em detrimento de estudar, há uma espécie de auto-obrigação minha de tentar entender esses fenómenos e dizer algo. Aí volta ao que a gente falava do poema, como coisa de dizer algo, dizer novo, dinamitar as grandes narrativas, e há uma narrativa óbvia que é “você é pobre porque você quer, mundo é rico, você pode ser rico”. Não é bem assim. Essa é uma narrativa falsa, e há toda uma estrutura de desigualdade, injustiça, violência, como coloco no poema, que é invisível, mas é muito forte e é preciso que se diga algo. O meu compromisso vem daí. Como eu tive uma chance maior de estudar, eu sinto-me na obrigação de dizer algo, em virtude de ter conseguido ter acesso a mais informações, outros pontos de vista, ver o mundo de formas mais novas ou de outras formas, que meus pais, por uma questão material ou social, não tiveram oportunidade nesse sentido. Isso não é um lugar melhor do que os deles. É só um lugar diferente e um lugar que me permite falar com outras pessoas, porque o poema dá mais plataforma de falar com outras pessoas, que o convívio dos meus pais não tem porque têm o convívio do trabalho, que é do seu círculo social. O poema é mais transversal toca leitores de classes sociais distintas. Parece-me mais ampla essa abordagem.

 

G – Num post de Instagram, datado de 5 de Abril de 2018, escreveu: “A primeira vez que votei em Lula eu tinha 9 anos. Eu estava na terceira ou quarta série da primária, e a escola na qual eu estudava simulou uma eleição do segundo turno, entre Lula e FHC (Fernando Henrique Cardoso). 94 era o ano. A escola era uma escola de playboy, e eu só estudava lá porque uma professora influente arranjou uma bolsa de estudo para o filho da sua costureira. Deu FHC na escola e no Brasil também (uma escola de playboy gigante, onde os filhos das costureiras das suas professoras influentes não têm lá grandes chances de ter bolsas de estudo). No primeiro ano que votei de verdade, votei em Lula. E continuarei votando nele até quando for necessário. Não sou fã de canalha”. Esta última expressão é de Sabotage, seu artista favorito. Está em Lisboa há quatro anos. Está longe de casa. Que percepção tem do Brasil, visto fora dele?

 EF – É engraçado porque os protestos de 2013, que culminaram na eleição do Bolsonaro, no embrião disso, estava aqui e vi daqui. Ainda uma coisa muito aleatória, era um protesto de rua. Começaram com as questões do aumento da passagem de São Paulo por conta de vinte cêntimos. Mas depois foi ganhando um contorno mais conservador, essas manifestações que culminaram com o impeachment da Dilma, em 2015, e, desde então, houve um processo de marginalização e criminalização das esquerdas, do PT, que errou bastante, que errou muito, mas houve uma captura destes erros em nome de um projecto político de direita, contra os direitos trabalhistas, para que destituísse a esquerda do poder e foi o que ocorreu. Mesmo a direita não achava que esse fenómeno do Bolsonaro teria força suficiente, que já é um fenómeno de extrema-direita. Não foi conduzido pela media conservadora brasileira, que é de direita, mas centro direita, e que não esperava um fenómeno como esse, que se criou nos porões das redes sociais, das amarguras, dos ataques sistemáticos a figuras populares como Lula, que foi um óptimo presidente. É uma figura popular, é o primeiro cidadão comum que virou Presidente da República, filho de uma mãe analfabeta, com traços, na sua biografia, muito parecidos com uma série de pessoas que emigraram do norte para o sudeste à procura de melhores condições. Ele foi uma pessoa preocupada com isso, com melhoria das condições de trabalho, de vida das classes mais pobres brasileiras. Houve ali uma série de avanços dos direitos civis e sociais e houve uma ofensiva contra esses avanços. Eu tenho acompanhado, acompanho com muito cuidado daqui, estes desdobramentos desde 2013, que eu vi, em 2014, se cerrarem muito nas eleições presidenciais, quando Dilma venceu para o segundo mandato. Quando chego aqui, em Maio de 2015, vi se acelerar e vi a criação deste monstro que é Bolsonaro. Monstro no sentido, primeiro das pautas a que ele se agarra, e, depois, por ser esta criatura sem limites. O que tem posto limites é a Constituição Brasileira, que tem refreado uma série de avanços perigosos. Ainda bem que as instituições brasileiras têm funcionado a rigor e não tem exercido um poder tão danoso como se alardeava. Claro que é danoso, mas há registros de alguma resistência. Votei em Lula e acho que ainda é necessário um voto nele ou em alguém que defenda as suas bandeiras. O Brasil ainda continua sendo um país extremamente desigual, e é preciso uma igualdade de condições para que as vidas floresçam.

 

G – Feira e Lisboa convivem na sua obra. Está lá nos versos, está cá, escrevendo. Escreve, por vezes, sobre cá, com a língua de lá. Como é esse espaço intermédio? Como o habita?

EF – Isso é uma pergunta curiosa porque, embora um ou outro aspecto possa ser criado de forma consciente, como o uso de febra, é, basicamente, na realidade, uma expressão natural da minha vida. Feira é a minha cidade natal, onde tive os meus primeiros amores, os meus grandes amigos, a minha família é de la, embora a família da minha mãe seja de outra cidade, mas viveu muitos anos lá. A minha avó materna faleceu em Feira. A minha avó paterna sempre viveu em Feira. Curioso que ela vive há mais de sessenta anos na mesma casa, o que, para mim, é um desafio porque nunca passei mais de três anos numa casa. É completamente diferente do meu espírito. Feira é essa coisa presente que nunca vai deixar de ser. No entanto, eu estou sempre noutro lugar e, actualmente, estou aqui, em Lisboa. Talvez não esteja em algum outro momento próximo. É natural e espontâneo, porque falo das coisas que eu vivo e, se eu vivo aqui, em Lisboa, eu falo das coisas daqui também, mas sempre com este pé, este coração, esta raiz em Feira, porque é de lá que eu vim, tive o contacto com tudo o que a vida pode proporcionar a uma pessoa viva.

 

G – Poeta esiliato?

EF – Poeta esiliato, si. Feira tem uma coisa muito curiosa. É uma cidade que é um entroncamento rodoviário, um lugar de passagem. Então, as pessoas que estão em Feira vieram de outras cidades, porque ela é a segunda maior cidade da Bahia, agrega muitos estudantes de outras cidades menores, mas, ao mesmo tempo, outras pessoas, que nasceram lá, vão estudar para Salvador, que é a capital. Ela cria esse ciclo de idas e vindas muito forte. Durante o dia, a população oficial de Feira é muito maior do que é na contagem. Durante o dia, as pessoas trabalham em Feira, transitam em Feira. Depois, vão para as suas cidades. Tem essa rotatividade, de modo que a identidade de Feira é muito fragmentada. Pertenço a uma geração em que todos se sentiam um pouco exilados, meio diferentes, não se sentiam completamente à vontade, tanto que muitos amigos meus não vivem em Feira mais. Cada um está numa parte do mundo. Um amigo meu, nessa semana, mudou-se da Finlândia para Inglaterra, outro, mora em São Paulo, outro, em Salvador, estão aí… meu irmão viveu muitos anos aqui, depois voltou para Feira. Feira compõe grande parte do que penso sobre mim mesmo, mas há outra lacuna igual, em termos de importância, que é preenchida por essa inquietude de que Feira nunca me entregou tudo o que eu queria. É uma lacuna e um vazio, que eu tento ir ver o que acontece no mundo para além de Feira e, nesse caso especifico, é por aqui que estou agora, por um acaso qualquer.

 

G – A “vó” Justa, uma figura muito forte no seu caminho, o que lhe deixou?

EF – Talvez a capacidade de acreditar em mim mesmo, não ceder muito às pressões externas. No caso específico dela, nunca pôs em questão a sua religiosidade. Ela sempre acreditou que o candomblé era aquilo que respondia melhor a ela, independentemente das pressões que sofria. Ela sempre se manteve muito firme naquilo que respondia a ela e ao mesmo tempo não era combativa, não combatia absolutamente nada. Estava amigável e disponível para conhecer o outro, não de forma diplomática, mas sentimental. Não era uma forma de respeito. Não é respeito, mas de “a vida é isso, eu sou aquilo e a gente vai viver”. A relação dela com o cristianismo era completamente espontânea, não havia problema nenhum. Um pouco de fé em mim mesmo, talvez seja isso que eu tenho de herança de minha avó.

 

G – Qual a memória mais bonita que guarda dela?

 EF- Quando eu escrevi um poema para ela, chamado “Manhã”. É o meu primeiro poema do primeiro livro, e ela chorou. Não sei se ela entendeu ou não, isso é indiferente. Era isso que a gente falava, aquela coisa de sentir o poema por outras formas. Não sei se foi o gesto de eu ter escrito um poema para ela, ou as palavras do poema, não sei o que houve, mas houve ali qualquer coisa que a tocou muito. É a grande lembrança da minha avó. Era em Feira, era em casa dela, quando eu fui morar com ela. Foi um período em que a gente se aproximou mais e em que estava a pôr mais da minha vida nos poemas, um dos primeiros exercícios mais profundos de achar algo ali, escrever algo, tornar aquilo mais pessoal ao dar o bafo, ter o seu próprio calor. Foi um poema muito importante. Foi uma reacção muito importante para mim e para o meu exercício de escrita. Foi quando comecei a publicar os poemas. Foi um poema bem lido. Teve reacções bem diferentes. Minha avó teve essa reacção. Professores da faculdade tiveram outras. Foi ali que compreendi que cada um vai ter uma reacção e tudo vai falar sobre o poema, mas nada disso vai ter uma influência tão grande se eu não depositar naquilo o verdadeiro. Entendi que a minha forma de criar tinha que passar pela verdade. A verdade da escuta era o mais importante.

 

G – Que verdade?

EF – Isso eu não sei. Tem a ver com mistério. É a verdade do poema, no sentido de desbastar as questões mais sociais da criação, de escrever por ego ou outras necessidades, mas se concentrar mais naquilo que é o essencial, de dizer algo. Talvez isso eu entenda como verdade, ou, naquele período, foi a verdade que me abriu as portas para ter esse acesso com as palavras de forma que hoje percebo mais verdadeiras, mais substanciais.

 

G – No poema “Novas Ofertas de Emprego para Ederval Fernandes” vai enumerando os empregos que, geralmente, aparecem nos sites de emprego. Termina com “professor de português em Oeiras”, a sua área profissional e geográfica. Não a escolheu. Há aqui uma espécie de despiste. Porque se desvia?

EF – Esse poema é muito curioso porque era o que falávamos na conversa anterior à entrevista, essa coisa de cada um ter a capacidade de mudar. Eu acredito que a mudança pode ser realmente de uma hora para outra. Eu nunca me vi a trabalhar em outras áreas tão diferentes do que eu pensava que era a minha identidade, como por exemplo vendas, ou todos aqueles tópicos que há no poema. Aquilo é como se eu estivesse meio que descobrindo a minha identidade ali, isto e aquilo, posso ser trolha na França, etc. Posso ser todas as opções e gostar disso. Pela necessidade, aprender a entender isso, que esses desvios às vezes são necessários para ressignificar sua identidade, testar limites. Há aquela coisa de “eu não nasci para isso, não vou fazer isso, aquilo”. Porque não? Ou deixar pistas, dúvidas, entender que tem uma identidade única, que não dialoga com determinados aspectos ou com outros, mas ao mesmo tempo entender que isso é problemático, não é assim “eu quero ser isso e vou ser”. Tudo leva o seu tempo. A mudança é processual, embora possa haver uma faísca que faça você mudar. O poema diz isso. Mas também tem a ver com a minha necessidade aqui. Se eu fosse trabalhar como professor de português em Oeiras, não ia ganhar o suficiente para viver aqui. Esse despiste tem a ver com uma leitura das condições de trabalho para viver aqui, que não me permitia pensar que me vou dedicar a ensinar porque é isso que eu fiz. Vou dedicar-me a outras variantes porque ser professor de português em Oeiras não me vai dar o que eu preciso para continuar com outros projectos, como o mestrado. O poema nasceu disso. É uma colagem de anúncios daquele site Net-Empregos. O que eu fiz foi costurar, tendo o som como unidade na ideia de poema. Depois, os lugares de trabalho são os mais variados, os mais estranhos, um efeito que eu queria causar para chegar a esse destino final, que é um destino impossível, porque não tem como eu ser professor de português em Oeiras.

 

G – É o único poema político sobre Portugal?

EF – Acho que é o primeiro poema mais incisivamente político sobre aqui.

 

G – Porque lhe quis dar tanto relevo, escolhendo-o para título, para conter todos os outros?

EF – Acho que o título do poema funciona de uma forma, a forma do despiste e do aleatório. Não é muito mais geral. Tem a ver com o que a gente disse no início, ter a coisa nova através das palavras. Eu gosto que as palavras sempre me ofertem coisas novas, novos empregos através delas mesmas, ou mim ou a ambos. No contexto geral do livro, tem a ver com essa pronúncia de novidade. Promessa de novidade. Pronúncia e promessa de sempre haver novas ofertas de emprego para as palavras que são sempre empregadas quotidianamente.

 

G – Em “Três tristes tópicos”, enumeras três tipos de tristeza. A última é a “tristeza portuguesa”. Que tristeza é essa?

EF – Os três tópicos tristes do poema dizem respeito a mim mesmo. A minha tristeza portuguesa é o Inverno, que me traz um estado de melancolia, que eu percebo que também é geral. Mais do que a luz, a ausência do calor aqui cria, no ânimo geral, mas no meu em particular, um estado de tristeza, que não é particularmente negativa, mas também natural. As pessoas não são só felizes ou alegres. A tristeza faz parte do seu estado de espírito. Em Feira, tinha muitos estados de tristeza, mas a minha tristeza em Portugal tem a ver com ausência de calor. Também isso é muito complexo, mas consigo resumir nesse sentido, da tristeza como ausência de calor.

 

G – Terminas a obra com o poema “Sobre a inspiração”. É curioso este final, porque, geralmente, pensamos a inspiração como um início. “Sobre” pode significar “acima” ou “acerca”. A inspiração é sobre o quê?

EF – É esse algo misterioso, que eu sei às vezes como alcançá-lo. Quando me forço a conviver mais com coisas criativas, mais solares, tendo a ser mais criativo, inspirado. No entanto, há algo que eu tenho pensando e que faz parte do estado de inspiração, que é o estado de não-inspiração, que é quando eu renego essas coisas, vou-me afastando, leio menos poemas, tenho menos contacto com o cinema, por exemplo, menos cuidado em ouvir as palavras. Talvez seja um estado necessário de esvaziamento para depois poder me voltar a encher. É ainda muito complicado para mim. É pensoso porque não gosto de estar nesse estado da recusa, mas isso ocorre. É difícil manter-me sempre nesse tipo de contacto solar, que me leva à inspiração. Mas eu entendo que essa recolha é necessária. Porque é necessária? Não sei. É como se me estivesse preparando para estar inspirado. Sei como consigo me tornar inspirado, mas nem sempre quero essa vontade de me tornar inspirado. Mas porquê, se estar inspirado é bom? Aí é quando eu entendo que, talvez, como estar inspirado requer uma força, uma manipulação de energia grande, é necessário se recolher para se recompor. Eu até falo nisso num poema no livro, essa coisa de dormir, estar acordado, sentir vivo ou não. Requer muita energia estar inspirado, estar nesse estado de latência. É como quando você é criança e brincou o dia inteiro e a sua mãe o obriga a ir dormir. Você nem está com vontade de dormir. Você tem que dormir, tem que descansar. Agora, é desafiador, quando dormir vira uma espécie de reclusão de prisão, quando não é só recolha. Há ali uma nuance…Sobretudo quando entra o Inverno e o estado de reclusão é grande. Cheguei à conclusão de que estar inspirado com frequência requer muita energia e, para ser recarregar, é preciso estar livre do contacto com coisas que podem engatilhar uma inspiração. Para se criar uma inspiração para um poema, é preciso não estar com os poemas, largar os poemas. A inspiração não é estática. Falava da coisa da verdade… É isso, entender essas nuances. A parte mais social da criação, que é publicar livros, ter poemas, ter convites que você vai ter que recusar porque não tem quantidade de poemas. Isso tudo, que, aparentemente, é superficial, dialoga com o outro tempo, o interior, que está ali em baixo, de raiz. Como você dá conta disso? Isso para mim é um embate grande. Hoje em dia, aprendi que o que tem que cair é o lado mais externo. Se você mexer muito vai cair a qualidade. É como se você come uma fruta antes de madura… não vai ter o seu apogeu de sabor. Por vezes, as palavras se apresentaram, você recolheu elas e colocou elas para o mundo rapidamente e elas ainda não têm a energia própria para se sustentar.

 

G – O que é o vacilo?

EF – É essa não-compreensão do tempo de maturação. As palavras tendem a apodrecer quando o corte é tardio ou, às vezes, quando ele é muito inicial e ainda não tem essas vitaminas que elas podiam criar ou ter a sua força. O vacilo é isto “qual é o tempo certo?”. Não existe. É um tempo sentido. É um tempo de acordo com a junção, é um desafio, um mistério. Embora eu compreenda que há esse fenómeno das duas ou três, esse acto de captar, trazer, nunca é igual. O processo de escrita varia muito, é processo do tempo, do sentido do tempo, dessa recolha. É misterioso, isso, ainda para mim. Achei curioso essa palavra “vacilo” porque é vacilante, não é estático. Se você vacilou demais, você jazz. É uma expressão de Feira. Diz-se “deu o vacilo” e, aí, já era. Então, vacilo é isso. Nesse contexto consegui usar a dimensão de captar o poema. Não vacilar, vacilando. É uma espécie de depoimento sobre como é difícil sentir a inspiração, meditando sobre esse fenómeno.

 

Entrevista por Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia de Igor Fernandes e de Raquel Botelho Rodrigues

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