A palavra escrita e o universo envolvente fizeram de Óbidos uma Vila Literária que continua em transformação. Aquilo que começou com uma requalificação de edificado culminou num projeto abrangente e estruturante que acabou por ter impacto ao nível social, económico e, claro, cultural.

Tudo teve início em 2011. Nessa altura, a Igreja de São Tiago, em Óbidos, estava a necessitar de intervenção. Os programas de apoio monetário para reabilitar património exigiam que as obras resultassem na criação de uma atividade económica. “Isto representou um problema: que tipo de empresa é que podemos colocar dentro de uma Igreja para podermos restaurar e recuperar este edifício?”, conta Paula Ganhão, técnica da autarquia responsável pela coordenação da área cultural.

A resposta surgiria na forma de uma livraria. O processo foi lento no arranque, mas daria origem a um rápido desenvolvimento. “Demorou ainda cerca de dois, três anos a poder concretizar-se, porque houve depois todo aquele trabalho de conseguir convencer o patriarcado a deixar colocar dentro de uma igreja – que já não prestava o culto desde os anos 80 – uma livraria”, relata a responsável que esteve envolvida no processo desde a sua génese.

Livraria de Santiago, a cargo da Ler Devagar

Celeste Afonso, que naquela altura cumpria o mandato como vereadora da cultura na autarquia local, explica ao Gerador que a ideia surgiu um pouco pela vontade de dar um novo fôlego à vila. A intenção não era propriamente acabar com eventos como o Festival Internacional do Chocolate ou o Mercado Medieval, mas sim poder alavancar Óbidos através de uma identidade mais ligada à cultura e menos aos “eventos de massas”. “Uma livraria icónica pareceu-nos, na altura, que seria uma estratégia vencedora e foram convidadas algumas pessoas a ver e a tentar perceber o que era possível fazer.”

Uma dessas pessoas foi José Pinho, fundador da livraria Ler Devagar, que na sequência de uma visita a Óbidos viu no vasto conjunto de edifícios municipais uma oportunidade para criar algo maior. “No concurso público para a exploração comercial da livraria de Santiago [estabelecida dentro da igreja], apresentei uma proposta de instalação, em Óbidos, de uma cidade do livro com 11 livrarias (tantas quantos os espaços livres identificados) e cinco festivais literários (a juntar às restantes manifestações já existentes na programação cultural da vila)”, conta.

Assim, aos poucos foram proliferando livrarias temáticas na rede municipal de museus e galerias, que deram corpo ao que Paula Ganhão chama “primeira fase do projeto Óbidos Vila Literária”. “Era, no fundo, um repensar de todo este sistema urbano e olhar para o nosso património e dar uma nova funcionalidade a edifícios que já não tinham funções e que estavam abandonados ou a necessitar de serem repensados de alguma forma”, explica.

Vendo o potencial do que estava a ser criado, a literatura começa, então, a ser pensada enquanto estratégia efetiva de desenvolvimento, sendo estruturado um projeto que ia muito além da simples venda de livros. Foi submetida a candidatura de Óbidos a Cidade Criativa da Literatura da UNESCO, projeto delineado com uma forte ligação à educação e à criatividade, além de estar assente numa narrativa completa em torno do livro, do escritor e dos seus processos criativos.

“Finalmente havia aqui um projeto que posicionava Óbidos culturalmente, que chamava outro tipo de visitante e que acabou por ter uma aceitação generalizada interna e externa”, comenta Paula Ganhão.

Alexandre Quintanilla e Joana Lobo Antunes no Festival Folio

Tudo isto acontecia em simultâneo com a preparação da primeira edição do Festival Folio, o evento-charneira que corporizava todo o imaginário literário da vila. Poder-se-ia dizer que todo este processo de transformação profunda da vila de Óbidos envolveria muito tempo para se desenvolver e executar, mas a realidade conta outra história.

De facto, tudo aconteceu de forma bastante célere, num intervalo de tempo relativamente curto pois, conforme explica Celeste Afonso, havia a consciência de que o tempo cada vez mais é medido de forma diferente”. “Hoje em dia não há tempo para construir grandes projetos a longo prazo e nós costumávamos dizer isso relativamente ao Folio, por exemplo. O Folio é um Festival Literário que nasce já adulto. Isso quer dizer que houve um conjunto de etapas que foram queimadas porque já não há tempo para isso”, relata a ex-vereadora. “Em dois anos há a afirmação de Óbidos Vila Literária, Óbidos Cidade Criativa da Literatura, o Fólio e logo a seguir veio depois o Latitudes também (e havia um conjunto de outros festivais)”.

O desenvolvimento económico e social trazido pela literatura

A par com a estruturação da Vila Literária e da classificação de Cidade Criativa da Literatura pela UNESCO, Óbidos conheceu uma transformação económica e turística, materializada no envolvimento do setor privado. Aproveitando a narrativa em torno da palavra escrita, nasceu na vila o “primeiro hotel com temática literária da Europa”, o The Literary Man – que tem também uma livraria – além de outras empresas relacionadas, como uma tipografia. Às livrarias “fundadoras” (a Ler Devagar e a Bichinho de Conto) juntaram-se a livraria Artes e Letras, o restaurante History Man e o Hotel Rio do Prado (Bibliotecas), a Albergaria Josefa d’Óbidos e os Silver Coast Volunteers (bookcrossing). Também os negócios locais já existentes se reformularam, transformando-se para “abraçar” o projeto municipal.

“Os impactos são bastante interessantes”, diz Paula Ganhão. Baseando-se nos dados relevados por um estudo do município feito em 2019, após a última edição do Festival Folio, a responsável fala numa mudança “bastante interessante” no perfil de visitante que agora procura Óbidos. Segundo a coordenadora da vertente cultural, o turista que aqui chega para conhecer a Vila Literária fica, em média, três a quatro noites alojado, enquanto quem se desloca para conhecer a parte histórica apenas fica (em média) uma noite. “Depois tem que ver também com a formação académica do tipo de visitante, em que 80% dos visitantes de Óbidos Vila Literária têm ensino superior - licenciatura, mestrado ou doutoramento”, sublinha. Também a capacidade financeira dos novos turistas é mais elevada, com 60 % dos mesmos a auferir mais de 1500 euros mensais.

“O facto de termos um posicionamento cultural mais interessante acaba por nos posicionar e atrair o tipo de visitante que não [embarca] na visita de massas, mas é um visitante com uma capacidade financeira maior, o que acaba por, de forma indireta, beneficiar toda a população através da criação de emprego”, explica Paula Ganhão.

Vila de Óbidos

Celeste Afonso, por sua vez, afirma que as iniciativas que têm vindo a ser desenvolvidas no âmbito de Óbidos Cidade Criativa da Literatura foram “a grande revolução a todos os níveis”. Mesmo não estando já ligada ao projeto, a ex-vereadora da cultura continua a residir em Óbidos, motivo pelo qual afirma ser testemunha do desenvolvimento turístico e económico do local. “Deixámos de ter apenas os eventos de massas, em que as pessoas vinham durante aquele tempo e iam [embora], para passar a ser um destino turístico onde se vai para se embrenhar no ambiente dos livros, onde acontecem coisas ligadas à literatura. Inclusive a vila também se transformou nesse sentido. Muitos espaços passaram a acolher a literatura, escritores e atividades literárias. Portanto, podemos dizer que essa foi a grande transformação”, explica.

Além disso, o facto de a vila ter conseguido ser integrada na rede Cidades Criativas da UNESCO abriu novas portas a nível internacional. “Há, neste tipo de redes – que tem pelo menos dois encontros anuais – muita troca de experiências, muita partilha mas também muita vontade de conhecer cada uma das outras cidades. Então o facto de estarmos na rede foi muito importante também para dar a conhecer Óbidos noutros países e fazer com que outros visitantes que possivelmente não passariam por aqui, passassem a ter Óbidos no seu horizonte de férias”, acrescenta.

Além da dinamização económica e turística, há ainda que destacar o impacto social das iniciativas. A par com a recuperação do património e o desenvolvimento de empresas, existe uma vertente respeitante aos residentes e comunidade envolvente que não é descurada. “Uma das principais estratégias para Óbidos Vila Literária é conseguir também a formação de públicos, a envolvência da nossa população local nas próprias iniciativas”, diz Paula Ganhão.

“Como é que nós conseguimos um equilíbrio entre o conceito que parece um pouco elitista e o trabalhamos na nossa comunidade local? A resposta é através da escola”, diz a responsável, explicando que o projeto envolve vários programas educativos e pedagógicos nas instituições envolvidas que pretendem “ajudar e fazer com que a população tenha orgulho” na classificação UNESCO.

Um exemplo desta preocupação social e educativa é o espaço que agora alberga a biblioteca municipal. Antes sediada num edifício que se tornara demasiado pequeno para os cerca de 30 mil títulos da coleção, o acervo está agora disponível na Casa José Saramago. Este local, presente numa área mais central da vila, permite aliar as visitas turísticas à dinamização comunitária, já que artistas e autores locais são convidados a mostrar o seu trabalho no espaço.

'Poeta Rendeira', com Natália Santos, na Casa José Saramago

 “Para nós tem sido muito interessante ir descobrindo estes novos artistas, estas pessoas de Óbidos que têm estes talentos e que possam partilhar na Casa Saramago”, diz Ana Godinho, chefe da divisão de educação e responsável pela biblioteca. “Nós queremos que os obidenses tenham aqui o seu palco e que possam criar a sua memória, também neste espaço”, afirma.

A programação cultural é, desta forma, aliada à participação comunitária, sendo definida em quatro eixos: o som, a palavra, a imagem e o objeto. Também as crianças do concelho são convidadas a participar, através da exposição de projetos desenvolvidos em meio escolar. “Num curto espaço de tempo temos criado aqui umas sinergias muito interessantes”, diz Ana Godinho.

Além da Casa Saramago, que foi recentemente inaugurada como biblioteca municipal, está prevista para as próximas semanas a abertura da Residência Literária Ruy Belo. O espaço, cujas obras já foram concluídas, foi desenvolvido em parceria com a família do poeta e irá permitir disponibilizar mais de duas mil obras da sua biblioteca pessoal. O local será um pretexto para reiniciar as residências literárias na vila, que têm estado suspensas devido à pandemia. A previsão é que possam ter início por altura do próximo festival Fólio, agendado entre os dias 14 e 24 de outubro de 2021.

Iniciativa 'Ilustra', no âmbito do Festival Folio

Os projetos são muitos, mas os objetivos ainda não se esgotaram. José Pinho, o livreiro que em primeira instância idealizou o conceito, tem ainda ambições a cumprir. Ao Gerador diz ter ainda querer chegar “à realização dos cinco festivais literários, transformar todos os espaços disponíveis em livrarias ou lugares de literatos e envolver ainda mais as escolas e o comércio local com a literatura, os livros e a leitura”.

O projeto Óbidos Vila Literária está, assim, longe de ser concluído. Conforme a vontade dos envolvidos, a iniciativa irá continuar a evoluir e gerar transformações no concelho que o acolhe.

Texto por Sofia Craveiro
Fotografias cedidas pelo Município de Óbidos/Óbidos Vila Literária

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