Dum passado que não conhecia o conceito de lusofonia até à reconstrução desta noção enquanto partilha igualitária de conhecimento, propusemo-nos a viajar através dos testemunhos e experiências de académicos, artistas e entidades dos países de língua oficial portuguesa. Numa altura em que muito se discute os prós e contras da existência da noção de lusofonia, quisemos perceber o que esta representa hoje.

Por que eu escrevo?
Porque tenho de escrever.
Porque a minha voz,
em todos os seus dialectos,
há muito está calada
Jacob Sam-La Rose (2002)

É com este poema que Grada Kilomba, artista interdisciplinar, escritora e teórica com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, inicia a introdução do seu livro Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Quotidiano, publicado em Portugal em maio de 2019, embora já tivesse sido editado em inglês em 2008. Para falar sobre o conceito de lusofonia, é necessário incitar um olhar atento sobre a história dos países de língua portuguesa. Isabela Figueiredo, jornalista, professora e escritora, começa por nos dizer que «a lusofonia é um conceito recente. Quando eu era pequena, não existia lusofonia, existia Portugal». Nascida na cidade de Lourenço Marques, em Moçambique, aponta que se lembra «duma cidade europeia, onde os africanos estavam para trabalhar» e que, por isso, «a relação de poder que estabelecemos com os africanos não permite essa ideia de lusofonia» quando descreve as suas memórias.

A primeira história relatada por Grada no seu livro faz referência a Anastácia, nascida em Angola e levada para o Brasil, escravizada por uma família portuguesa. Relatos históricos indicam que teria sido obrigada a envergar uma «pesada coleira de ferro e uma máscara que a impedia de falar», surgindo, desde logo, a boca enquanto símbolo oprimido do poder do discurso e da enunciação. Este exemplo reflete a importância de pensar numa comunidade que fala português, nas suas diversas variantes, enquanto espaço fragmentado e disperso por diversos territórios.

mapa-territorios-lingua-oficial-portuguesa

Hoje, Isabela afirma pensar que o conceito de lusofonia faz sentido por, cada vez mais, ser tido como uma ideia «plural» e «de liberdade». Como podemos, então, definir o conceito de lusofonia?

Lusofonia como um princípio e não como um fim

lusofonia

nome feminino

  1. comunidade formada pelos países que têm o português como língua materna ou oficial
  2. difusão da língua portuguesa e da cultura dos que falam português no mundo
  3. qualidade de quem fala língua portuguesa; condição de lusófono

in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa (extraído de https://volp-acl.pt/, 3/2/2020)

Ao longo das últimas décadas, o conceito de lusofonia tem promovido o debate em torno do seu significado. Na perspetiva de André Amálio, ator e encenador que tem trabalhado em torno das questões coloniais, a proliferação da língua portuguesa «levada a outros continentes e povos» concretiza «um sinal de opressão». «Foram obrigados a aprender esta língua e a ter contacto com esta cultura portuguesa e europeia», acrescenta.

Marcado por este lado histórico da narrativa colonial, a lusofonia tem sido discutida em contextos artísticos, mas também académicos. Em estudos recentes, muito se tem debatido sobre o risco de lusocentrismo e camuflagem de um pensamento imperial. No livro Lusofonia e Interculturalidade – Promessa e Travessia, coordenado por Moisés Lemos Martins, Lurdes Macedo, académica do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, escreve um capítulo sobre a «necessidade de desconstrução do equívoco lusocêntrico». No seguimento do raciocínio de Amálio, também a autora aponta como perspetiva dominante acerca deste conceito a ideia de «prolongamento simbólico do período colonial». Essa visão põe «Portugal no epicentro de uma construção que deve ser, acima de tudo, descentralizada e descentralizadora», defende.

A construção de um projeto da lusofonia «parece ameaçar», de acordo com a autora, «o desenvolvimento de uma ideia coletivamente partilhada, enquanto comunidade de múltiplas culturas». Sem descurar este risco, por reconhecer uma tendência de criações culturais próprias nos diversos territórios, Isabela Figueiredo afirma que «hoje a lusofonia faz sentido», desde que seja materializada numa «rede de neurónios» que implica uma «troca de valências e capacidades» entre povos que se exprimem em português.

O foco numa rede de partilha não anula a preocupação com a correção do olhar sobre o passado colonial. Assim, a definição de lusofonia terá sempre de contemplar as várias vozes que a compõem. Samantha Muleca, rapper brasileira mais conhecida como Muleca XIII, defende ainda que «a lusofonia é fruto de muitas e longas histórias que precisam de ser recontadas de modo a dar voz às plurais partes envolvidas como forma de resgate, preservação e respeito às suas, ou nossas, origens».

Para que seja possível cumprir este ideal de comunidade, imaginada em torno de uma língua comum, foi fulcral a mudança do paradigma político após a Revolução do 25 de Abril, e assim iniciar-se a viagem da descolonização do pensamento, que implica a integração de mais vozes aquando da transmissão de conhecimento acerca do período colonialista, mas também o reconhecimento artístico dos autores não portugueses.

A violência exercida aquando do colonialismo inibiu a possibilidade de aprendizagem com os povos com que os portugueses se cruzaram. A consciencialização da possibilidade desta rede vem potencializar a valorização e imposição de artistas não portugueses no nosso mercado cultural, um campo ainda em défice. Isabela partilha que é convidada para todos os festivais literários no Brasil e que o seu livro, Caderno de Memórias Coloniais, foi adotado pelo Governo brasileiro como leitura obrigatória.

No entanto, ao olhar para a realidade portuguesa, reconhece que existe um «problema de privilégio» em que «é difícil eles (artistas não portugueses, mas lusófonos) serem conhecidos no mercado português». Embora a autora defenda a crítica dos artistas que dizem sentir que Portugal continua a ser visto enquanto satélite quando se fala em lusofonia, considera que «eles têm de trabalhar lá (no seu território) para se imporem em Portugal». Também Grada Kilomba, em Memórias da Plantação, diz que «não podemos simplesmente opormo-nos ao racismo porque, nesse espaço vazio que surge depois de nos opormos e resistirmos, “ainda é necessário devirmos para nos refazermos” (hooks, 1990, p. 15). Isto é, ainda é preciso tornarmo-nos sujeitos».

Entidades e festivais de mãos dadas ao conceito de lusofonia

Em democracia e com a independência dos diversos países e das ex-colónias, foi criada uma série de organismos com vista a promover uma «memória coletiva» enquanto «lugar de encontro, diálogo e permanente enriquecimento», como esclarece Francisco Ribeiro Telles, Secretário Executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), uma das mais representativas entidades criadas neste âmbito.

A língua portuguesa assume, desde logo, um papel central no trabalho desenvolvido por estas entidades. No caso da CPLP, criada em 1996, a língua portuguesa é vista como um «património comum», que «testemunha e reflete os laços culturais entre os nossos países», sustenta Ribeiro Telles. Composta por diversos estados-membros – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste –, esta organização tem sedimentado a sua ação através de diversas iniciativas como o Plano Estratégico de Cooperação Cultural Multilateral da CPLP, a Comissão do Património Cultural da CPLP, o Programa CPLP Audiovisual e o apoio à elaboração de Vocabulários Ortográficos Nacionais (VONs).

Precedora da CPLP, foi fundada, em 1985, a União das Cidades Capitais Luso-Afro-Américo-Asiáticas (UCCLA), que contempla, hoje, 23 estados membros divididos por nove países. Concentra a sua ação no âmbito da «prevenção, saúde e educação, cultura, infraestruturas, saneamento e ambiente, reabilitação e património, formação empresarial e autárquica e institucional», como disponibilizado em uccla.pt. Vitor Ramalho, secretário-geral da UCCLA, sublinha a atividade multidisciplinar desta estrutura, «onde a cultura é a porta de abertura para o reforço das relações entre países». Defende ainda que «o facto de nos exprimirmos numa das línguas mais faladas do mundo, e desta ser hoje um instrumento económico, é uma riqueza imensa com potencialidades inesgotáveis».

No caso português, o Instituto Camões centra a sua ação numa política de cooperação e promoção da língua portuguesa no mundo. Neste âmbito, tem vindo a desenvolver atividades como o ensino da língua portuguesa em diversos países e dando apoio a atividades de divulgação da língua e da cultura, desenvolvidas pelos seus Centros Culturais Portugueses, Cátedras de Língua e Cultura Portuguesas, Centros de Língua Portuguesa, Leitorados de Português e Coordenações de Ensino Português no Estrangeiro.

Com medidas mais ou menos consensuais, todas estas entidades reconhecem a importância do debate em torno de problemáticas como a descolonização, racismo e migrações. Vitor Ramalho afirma que «nós devemos considerar essas matérias sem tabus. O racismo existe, é uma realidade, mas os seus fundamentos são sobretudo de natureza económica. Ou seja, a diferenciação que os cidadãos fazem em relação à raça, tem muito que ver com o poder económico». Porém, Lurdes Macedo refere que os «movimentos migratórios no espaço lusófono» têm sido marcados por «tensões como as desencadeadas pelo tratamento discriminatório».

Outra das formas de promover o contacto e partilha de conhecimento entre os diversos países lusófonos é através de eventos, entre os quais os festivais de música têm desempenhado um papel ativo. Um exemplo destes festivais é o MIL, Lisbon International Music Network, que procura «fazer de Lisboa o ponto de encontro entre os mercados de música europeu e dos países de língua portuguesa», explica Gonçalo Riscado, diretor do festival. Embora este não seja um festival representativo da lusofonia, é promovido enquanto «ponto de encontro, na Europa, com os mercados lusófonos». Porém a temática da lusofonia não é ignorada, admitindo que «ainda há muito para fazer» e que «não há como negar que, fruto do colonialismo, se forçaram e desenvolveram novas expressões culturais que resultaram em produções artísticas com muito valor e potencial para serem divulgadas».

Um museu para a lusofonia?

Em 2017, foi pensada a criação de um espaço museológico dedicado aos Descobrimentos que fazia parte do programa eleitoral do Partido Socialista para as eleições autárquicas desse ano. Desde logo, a ideia desencadeou um debate em torno do nome – Museu das Descobertas ou Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa – e da carga ideológica que estaria envolvida neste projeto. Esta discussão reavivou a crítica em torno da forma de retratar o passado colonial português receando um predomínio de uma visão lusocêntrica. Em 2018, a Assembleia Municipal de Lisboa defendeu que a criação deste museu deveria integrar vários polos, nomeadamente um dedicado à temática da escravatura, onde se pudessem incluir aspetos negativos desse passado. Ainda hoje este projeto não encontra consenso político na esfera pública.

Embora reconheça não ter informações suficientes acerca do projeto, André Amálio frisa que «era importante conhecer o que vai estar no museu, qual o seu conceito e os materiais que iriam estar expostos. Se o museu for capaz de conter todos estes lados, como o de opressão de identidades múltiplas e problemáticas pode ser um espaço interessante». No entanto, deixa a reserva de que o nome poderia não ser o mais indicado, mesmo que se optasse por denominá-lo de Museu da Lusofonia, por não saber se isso seria «voltar a uma posição inicial do que era a lusofonia, ou se é um continuar dessa coisa nova em que se tornou».

Outras iniciativas que almejam a difusão de um conhecimento mais justo sobre a factualidade histórica têm surgido, como é o caso do projeto do Museu Virtual da Lusofonia. Recentemente, em 2017, a Universidade do Minho lançou formalmente este projeto, em que a ideia, descrita como «plataforma de cooperação académica», partiu do docente Moisés de Lemos Martins que visava «criar uma estrutura que permitisse a partilha de conhecimento e de produtos culturais entre países de língua oficial portuguesa».

«O que nos propomos é, de alguma forma, recolher estes produtos – obras visuais, coleções fotográficas, programas de rádio, filmes, entre outros –, no sentido de promover o conhecimento entre países», refere Isabel Moreira Macedo, docente da Universidade do Minho que integra a equipa do projeto. Quanto ao papel do conceito de lusofonia na sua matriz, a investigadora sublinha que o mesmo surge «apenas como um ponto de partida na discussão», destacando que o conceito é muitas vezes «usado de forma acrítica, modelizada por políticos». «Para nós, é um conceito que serve para pensar as relações entre países, mas também o passado colonial, os conflitos e a violência», realça.

Partindo deste olhar crítico, o Museu Virtual da Lusofonia pretende, acima de tudo, trabalhar pela via da divulgação: «Existem imensos trabalhos, artísticos e científicos que desconhecemos, produzidos nos diversos países de língua oficial portuguesa e que são necessários de divulgar.»

Entre as atividades que têm dinamizado, a investigadora destaca a relação com os públicos escolares, através da iniciativa Museu na Escola. Este é, aliás, uma das ações essenciais deste projeto na «promoção do diálogo intercultural» ao confrontarem jovens estudantes com conteúdos ligados a temas presentes na nossa sociedade atualmente, como são exemplo o racismo, a violência ou o passado colonial.

Assim, a problemática das múltiplas vozes que foram caladas ou apagadas da história, inclusive nos programas educativos nacionais, é uma das questões mais comummente abordadas pelos artistas. Para que todos tenhamos um acesso desde cedo e de forma facilitada a autores diversos da lusofonia, que não sejam de nacionalidade portuguesa, a cantora e compositora moçambicana Selma Uamusse afirma que «tudo deve começar na mudança dos manuais escolares, desde logo a partir da escola primária. Acho que esse é, sem dúvida, um ponto de partida fundamental». No seu livro, Grada Kilomba reflete sobre quem, no contexto académico, pode falar, reconhecendo na detenção e produção de conhecimento uma arma de poder. A autora constata uma ainda predominância da descredibilização da objetividade dos estudos conduzidos por académicos negros, muitas vezes tornados invisíveis para uma boa parte do meio científico.

«Pode descolonizar-se um país. Mas é impossível descolonizar-se a alma»*: o início da discussão artística

Mais do que falar da lusofonia num enquadramento político, podemos hoje notar uma crescente discussão artística em torno da mesma, embora os dois polos não vivam dissociados. Tal facto, advém igualmente do aprofundamento das relações interculturais entre artistas dos diversos territórios lusófonos.

A rapper Mynda Guevara corrobora esta perspetiva realçando que «tem havido colaborações entre artistas lusófonos» e que, «quando existe esta fusão cultural, existe também uma partilha de conhecimento e visão». É com o desejo de aprofundamento destas relações que o cantor e compositor Toty Sa’med almeja «que a arte seja utilizada cada vez mais como veículo de entendimento e como ponto de interseção», por ver neste domínio a possibilidade de se marcar «o compasso do diálogo através das cada vez mais constantes interações, entre artistas primeiro, depois entre artistas e públicos e, por último, entre disciplinas artísticas».

Por todas as questões levantadas pelo conceito de lusofonia e a sua desconstrução ou pleno entendimento, importa frisar que «não se faz arte fora da política», como avança o cantor, compositor e poeta Luca Argel. Muleca XIII destaca ainda que «a política é uma arte e que a arte, em suas diversas formas», tem tido «uma maior valorização da projeção internacional que as manifestações culturais lusófonas conferem à língua portuguesa e aos povos e nações lusófonos».

Para além de uma discussão política ou artística, falar sobre lusofonia, cada vez mais, implica contemplar a discussão académica e social, como refere Amálio, e a discussão humana em que «o ponto de partida tem de ser as pessoas, a natureza, o planeta», reforça o artista multidisciplinar Pedro Coquenão, mais conhecido por Batida. Porém, Isabela Figueiredo constata que «existe uma relação de artistas mais ao nível pessoal do que institucional».

Olhando para as manifestações artísticas que se têm vindo a desenvolver em torno de temas como o colonialismo, Selma Uamusse nomeia o teatro como uma das áreas mais interventivas a este respeito, tendo inclusive participado em alguns espetáculos da companhia Hotel Europa. Outra das companhias cuja ação se tem diferenciado é o Teatro Griot.

*mote usado para Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo.

Teatro Griot: o questionamento sobre o ser-se negro dentro da Europa

O Teatro Griot, que fará 11 anos em setembro, é formado por um grupo de atores negros que se propõem a explorar as temáticas relacionadas com «o que é isto de se ser negro vivendo na Europa», sintetiza Zia Soares, atriz e produtora da companhia.

No cerne do seu trabalho, a artista reflete acerca da importância da língua nos espetáculos que criam. Atente-se que esta dúvida não contempla apenas a «língua portuguesa, mas também as línguas dos países de onde somos oriundos» e por «nos depararmos com determinados textos que não traduzem aquilo que, por vezes, estamos a sentir». Assim, defende que a lusofonia não se concretiza numa fonia, mas sim numa natureza «multifónica»: «O que acontece é que a língua é dinâmica e, portanto, o português que aqui falamos se formos para Bissau ou Luanda iremos encontrar um outro, sendo que podemos nem sequer entendermo-nos.»

Olhar para a lusofonia como ponte para a igualdade ainda é erróneo, pois esta não deixa de ser uma imposição enraizada numa «situação traumática que é profundíssima», explica. No mesmo sentido, Zia salienta ainda que nos diversos projetos em que «os protagonistas são pessoas negras, se calhar a estrutura que as lança, que as produz e que as comunica não tem sequer uma pessoa negra», e isso acarreta dificuldades na produção dos espetáculos: «Eu não posso ter uma maquilhadora que está habituada a peles brancas ou trabalhar com um iluminador que não saiba iluminar uma pele negra.» 

Da mesma forma, pensar na questão do acesso à arte, continua a ser «um privilégio apenas de alguns», sustenta Zia destacando, por exemplo, que o Teatro Griot nunca teve palco no Teatro Nacional D. Maria II. Isabela Figueiredo aponta igualmente a urgência de «trazer as culturas marginais para o centro, para dentro dos sítios canónicos».

Como veem os artistas a lusofonia hoje?

Toty Sa’med, Angola

 «Lusofonia é um veículo de interação e trocas culturais baseados na língua portuguesa e na ligação histórica (colonial) de Portugal com as ex-colónias. Serve para unir os pontos culturais e artísticos deixados desconectados após as independências e também como plataforma de trocas e criação de uma comunidade de pessoas que partilham idioma, hábitos alimentares, ritmos musicais e costumes.»

Luca Argel, Brasil 

«É uma palavra objetivamente útil para nos referirmos ao conjunto de comunidades que têm a língua portuguesa como idioma, incluídas todas as suas variantes locais. No entanto, o uso dessa palavra ao longo da história ainda carrega o peso da herança colonial portuguesa, e da violência com que se impôs essa unificação linguística, por sua vez indissociável a uma ambição imperial pela qual não tenho qualquer simpatia. Os traumas desse colonialismo e as suas feridas, ainda hoje abertas, ainda não foram pauta de uma reflexão coletiva séria, nem no Brasil, e menos ainda em Portugal.» 

Batida, Angola

«A dificuldade em convergir na própria língua é o assumir de um centralismo já ultrapassado e de uma dinâmica conservadora e pouco ligada à vida real da língua e das pessoas que a usam. Infelizmente, a corda quebra para o mais fraco. A língua vive, mas as pessoas sobrevivem distantes e ainda separadas por critérios de circulação assentes em interesses puramente financeiros, de poder e nada comprometidos com responsabilidade social ou histórica. Apesar de tudo, podemos sempre focar na função de nos aproximar. Mas o lado funcional não basta. O que de bom acontece é mérito de cada pessoa que se dispõe ao diálogo, à partilha como iguais, à paixão e ao amor.»

Selma Uamusse, Moçambique

 «Definiria lusofonia como a língua através da qual povos com identidades tão diferentes se unem e não apenas a língua, mas também a ponte para uma série de países e povos que são tão diferentes, mas que através desta língua lusa ficam mais perto. Em termos de função, o que a lusofonia é e faz é, de facto, esta ligação. Deita abaixo barreiras que não passam apenas pela língua, mas também pela história, seja ela do colonialismo, seja a história das migrações.»

O que carateriza um artista lusófono hoje?

Quando desafiados a caraterizar um artista lusófono, os entrevistados convergem na ideia de que este deve ser versátil e múltiplo. Aquando da criação dos seus objetos artísticos, confessam que o seu mote não passa por trabalhar sobre o conceito de lusofonia, mas que indiretamente os resultados acabam por encontrar pontes de ligação por existir uma língua que é partilhada e não deixa de constituir uma «oportunidade de trabalhar com artistas de outros países», como avança Mynda Guevara. Constitui ainda a oportunidade de que «artistas e escritores de campos artísticos menos estruturados procurem reconhecimento (e mercado) junto dos mais estruturados, que, no caso específico da lusofonia, são o brasileiro e, sobretudo, o português», aponta José Carlos Venâncio no ensaio «A lusofonia enquanto experiência estética», presente no livro de Moisés de Lemos Martins. Mas afinal o que faz com que a obra de um artista possa ser integrada num contexto intercultural assente no novo conceito de lusofonia?

Para André Amálio, essa integração passa «obviamente pelo passado das memórias coloniais, das identidades pós-coloniais», assim como «as línguas nacionais de todos os países lusófonos, não apenas a língua portuguesa». Neste seguimento, Toty carateriza a figura do artista lusófono como aquele que tem «a capacidade de incorporar genuinamente diferentes narrativas de vários países criando um diálogo cultural com naturalidade e legitimidade. É também uma necessidade de dar e receber por meio da sua língua, dobrar as regras e aceitar as influências».

Ainda assim, artistas como o Batida afirmam não se sentir vinculados a uma língua e que mais importante do que nomear uma é reconhecer a importância de todas as línguas nascidas no contexto da lusofonia, pois isso «contextualiza e permite-nos avançar com mais consistência, perdão e menos perdas históricas. Devemos estar tão abertos ao mundo, quanto cuidadosos com as línguas e contextos particulares de cada povo. Poderá ser esse o papel essencial de cada cidadão e de cada artista, quando pensa em matéria e sentido para o que faz e cria».

Luca Argel afirma que, «quanto mais circula a arte produzida nos países de língua portuguesa, mais as trocas acontecem de forma natural, sem que a questão da língua se torne sequer numa discussão». É aí que Selma acredita residir o verdadeiro artista da lusofonia: aquele que «nem sequer está preocupado com o termo. É um artista que valoriza as suas raízes, mas também o facto de ser universal».

Neste exercício construído a múltiplas vozes, pedimos que estes artistas nomeassem outros cujo trabalho os inspirasse à luz desta reflexão. Surgiram nomes como Binhan, Nástio Mosquito, Francisco Vidal, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Halloween, José Eduardo Agualusa, Nigga Fox, Sara Tavares, Dino D’Santiago ou Ondjaki. Selma Uamusse destaca ainda Vinicius Terra como um poeta brasileiro que tem «tentado mudar essa perspectiva da lusofonia enquanto um lugar de encontro e em que se fala da música enquanto um lugar em que se pode criar uma plataforma mais universal».

Em entrevista ao Rimas e Batidas, a propósito do seu novo álbum Eles Não Sabem a Minha Língua, Vinicius afirma acreditar «que hoje os países, outrora colónias, influenciam muito mais a cultura portuguesa do que Portugal em si, daí a urgência em descolonizar o termo lusofonia como algo ditado pela “descobridora”». A própria CPLP aponta que, quanto ao futuro da língua portuguesa, o seu centro demográfico poderá passar «do Brasil para África, com um crescimento populacional exponencial previsto para países como Angola e Moçambique», sublinhando o impacto que isso poderá ter na expansão e desenvolvimento da própria língua.

Com o ímpeto de se fazer ouvir as vozes anteriormente remetidas ao silêncio, a lusofonia é feita de artistas que, na sua multiplicidade, representam um espaço harmonioso de reflexão partilhada, em que todos podemos aprender e colaborar de forma horizontal. E só assim o cantador se levanta, como podemos escutar nas palavras de Vinicius Terra.

Excerto da letra «Eles Não Sabem a Minha Língua» do rapper Vinicius Terra

Então calaram a voz e a vez do cantador…
Só que de tempos em tempos alguém abre a boca pra reclamar a fome e a dor!
É nessa hora que a língua chora a palavra
É o contrafluxo, do superstrato, de quem a calava!
E se calhar… Tá mais que apalavrado
A língua é uma cigana que deitou-se com um favelado
Aí… já era, meu parça! No coração da América do Sul aos portos de África
O sangue azul latim fundiu-se ao vermelho Índia-páprica!
Esquinas, becos, Manuel de Barros, Mia Couto, Pepetela, Gregório de Matos
Saramago, Cachaça, Cartola, Bocage
Moraes, Melo Neto, Ferreira Gullar, Ondjaki
Gil Vicente, Castro Alves, Luaty, Agualusa, Pessoa, Drummond
Tantos poetas, Evoé, oxalá, outro som
Cena que acena nas vozes dos surdos
Habilidade é conteúdo, legitimidade contém tudo, versos, contem tudo!
O progresso estará longe enquanto formos ilhas distantes, livros em estantes
Brindes de stands, estandartes não pensantes
Instantes inconstantes na seca de nós mesmos
Desertos, miradouros, mirantes errantes, paragens e pontes a esmo
E que o mesmo semblante seja o sangue semelhante
É, isto aqui é uma língua!

«A responsabilidade de criar novas configurações de poder e de conhecimento»*

Numa reflexão que se funda invariavelmente na língua, mas que desagua num ponto de encontro entre um passado marcado por configurações de poder e conhecimento deficitárias e um presente que se espera tolerante e igualitário, falar de lusofonia só fará sentido perdendo o seu tom paternalista.

Foi em outubro de 2019 que a UNESCO, pela primeira vez, proclamou um dia mundial de uma língua não oficial no sistema da ONU. Assim, o dia 5 de maio – Dia Mundial da Língua Portuguesa – reflete «o reconhecimento internacional da importância demográfica, cultural e geoestratégica da língua portuguesa, presente hoje não apenas nos estados onde é língua oficial, mas também numa multiplicidade de países onde vivem significativas comunidades de nacionais oriundas desses estados», afirma Francisco Ribeiro Telles.

No âmbito deste novo conceito de lusofonia, enquanto uma rede de neurónios ligados por uma língua comum, ainda existe muito trabalho a ser desenvolvido em termos de apoios, integração, valorização, mas também acessibilidade. Esse trabalho passa, como diz Selma Uamusse, pela educação através da criação de plataformas de discussão artística que incluam livros, música, teatro ou outras disciplinas artísticas para fomentar um «olhar mais justo sobre a história». Esse recontar da narrativa que hoje se desdobra noutras vozes evidenciam a possibilidade mútua de ensinar e ser ensinado. Tal como enuncia Zia Soares, a arte é uma ferramenta que permite «abrir uma possibilidade de sonho».

*in Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Quotidiano, de Grada Kilomba, p. 6.

Esta reportagem foi inicialmente publicada na Revista Gerador de março de 2020, uma edição dedicada à Lusofonia
Texto de Andreia Monteiro e Ricardo Ramos Gonçalves
Design de Carla Rosado e Hugo Henriques
gerador-revista-março-lusofonia