Tenho visto menos pescadores à beira do Tejo, lançando os anzóis ao rio enquanto se sentavam em bancos improvisados e cavaqueavam uns com os outros. Tudo se passava junto da marginal Lisboa- Cascais, que é a via onde posso testemunhar tais ocorrências. Ou mesmo já dentro dos contrafortes da senhora cidade.

Com a Torre de Belém em pano de fundo diziam que pescavam tainhas, corvinas, sarguetas e até linguados. Com sorte e muita, muita paciência.

O “modus operandi” era engraçado. Alguns traziam o carro velhote para o pé da margem e dele se serviam para base de operações, com a mala aberta para servir de depósito de materiais e de armazém de peixe. E muitas vezes a “patroa” vinha com eles, não sei se para dar sorte, se para fazer companhia, ou simplesmente porque não queria ficar em casa à espera.

Quando trabalhava no Parque das Nações também notava muitos pescadores de cana junto ao Oceanário, às vezes tão perto uns dos outros que eu não entendia como o peixe saberia distinguir os iscos…

Uma vez perguntei a um por que motivo vinha para ali e a resposta foi estranha:

 – “É que os peixes chamam uns pelos outros, e como aqui ao lado há tantos…”

Tendo como pano de fundo esta aguarela de um hobby lusitano muito difundido não resisto a contar uma história passada lá mais para baixo, para a ponta de Sagres e que igualmente envolve a pesca à cana.

Alguns amigos, com dinheiro dos negócios lisboetas, tinham escolhido a vila de Sagres para retiro de férias e compraram lá pequenas casas para o veraneio (o que fizeram muito bem).

Quando lá estavam passavam a vida à pesca, o que dava às senhoras com eles casadas muita liberdade para fazerem o que bem queriam, sem crítica nem comentário. O melhor dos dois mundos.

Antes das férias compravam-se nas casas da especialidade as melhores “ferramentas”, os carretos Shimano, as canas de pesca em grafite ou carbono, etc…

Lá chegados perguntava-se aos mestres do ofício qual o melhor engodo e o melhor local para pescar.  E antes do nascer do sol lá iam os meus amigos tentar apanhar os pargos legítimos, os sargos ou as douradas de Sagres.

Um velho pescador da zona, já demasiado idoso para andar a bordo, deixava-os pousar.  Lá para as dez da manhã chegava, cumprimentava cortesmente toda a gente, perguntava pelo resultado da empreitada (normalmente fraco).

Depois disso puxava da cana de bambu e do carreto manual, punha-se a “cheirar o mar” – como ele dizia para gozar com a malta de Lisboa – e num prazo de uma hora  ou de hora e meia saía com dois peixes graúdos, tendo sempre o cuidado de se despedir outra vez de toda  a gente:

-“Meus senhores, muito bom dia, está na hora de ir almoçar”.

A malta, desconfiada, quase andava à pancada para ocupar o lugar onde o velhote tinha tirado aquelas “peixões”.  O que ganhava a discussão punha-se a lançar isco para o mesmo lado. E nada.

Muitas vezes regressavam a casa depois de terem passado por vergonha pela praça do peixe, para não virem de mãos a abanar.

Questionado sobre o feitiço que faria aos peixes, o pescador dizia que não era nada disso:

– “Todo o peixe dorme. O que é preciso saber é a hora a que acorda para o tirar para cima enquanto está estremunhado”.

Entre esta história e a dos peixes “chamarem uns pelos outros” não sei bem qual escolha…

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho 
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