Quando penso no fim do mundo, a primeira imagem que me vem à cabeça é uma paisagem inóspita, árida, estéril, uma espécie de deserto urbano onde nada medra, uma ausência de vida absoluta, irremediável.

Nessa minha visão apocalíptica (certamente resultante de uma mistura de imagens de reportagens de guerra, cultura cinéfila, banda desenhada e desenhos animados) o pano de fundo é feito de ruínas daquilo que antes foram cidades, obscurecidas por um tipo de pó resultante de atos premeditados de destruição contínua e massiva que teve como resultado final a erradicação de toda a forma de vida, há um vento que carrega a poeira, mas também ele é estéril, não sei porquê, é assim que ele me aparece.

A banda sonora é o Silêncio, não dos que ensurdece mas tão somente a ausência de som. 

Quando penso nesse fim do mundo já não há nada para recuperar, não há ressentimento pelo que deixou de existir, há uma certeza libertadora de que tudo o que existe é o nada.

O “meu” fim de mundo aproxima-se daqueles que “adormecem e já não acordam”, de quem se diz terem tido “morte santa”, é fruto da minha imaginação e como tal pode ser como eu bem entender!

Quando projeto o futuro, em tempos como aqueles que agora vivemos, uma visão como esta de fim de mundo chega a ser reconfortante… Estamos tão longe do “meu” fim de mundo.

Não pensem que gosto da minha visão apocalíptica, porque não gosto, é-me extremamente desagradável mas ainda assim mais tolerável do que imagino poder ser realmente o fim do mundo. 

Se me puser realmente a pensar no que pode ser o fim deste nosso mundo, num instante sai de cena aquela primeira imagem quasi romântica do apocalipse para dar lugar ao indizível, ao imperdoável, ao inaceitável, não quero ir por aí… até porque ainda há tempo, ainda podemos fazer a diferença, certo?

Foi só uma imagem, já passou… ”como aqueles que adormecem e já não acordam”...

Falei do fim do mundo porque sonhei com um fim atômico, fruto de guerra nuclear, acho que o sonhei porque aconteceu um sismo no Japão há poucos dias… e porque tenho amigos japoneses e dei por mim a remoer Hiroshima, Nagasaki, Fukushima Daichii, como não pensar nisto? Vivemos num mundo onde ainda existe energia nuclear, vivemos num mundo onde se testaram bombas atómicas em populações e, ao dizer isto, entretenho na minha cabeça a ideia de que tudo isto só pode ser uma piada de mau gosto, juntamente com todas as atrocidades que o ser humano já cometeu ao longo da sua existência.

Porém a Vida não parou, adapta-se, redescobre-se, reinventa-se e por fim, eleva-se sublime, esplendorosa, fulgurante, rebentando os seus brotes, nasce contra todas as adversidades, persiste e avança, agora para a primavera, porque não me apetece pensar noutra coisa senão na primavera.

Tenho amor pela Primavera mas sou filha do Outono! Pergunto-me porquê... e logo em seguida pergunto-me porque tenho eu estas perguntas na cabeça quando há todas as outras, aquelas que supostamente são mesmo importantes, de uma urgência extrema, para as quais não sei esboçar resposta sequer em balbucios.

Há tanto mas tanto para querer recuperar, alavancar, protagonizar, agitar, provocar, assistir, amparar, há muito pouco silêncio e quando aparece, é uma benção. Que sede tenho eu de um bom silêncio ou melhor, tenho sempre espaço na agenda para um bom silêncio.

O pensamento corre...ui se corre, corre muito! 

Mesmo quando todos estamos impedidos da livre circulação, há uma avalanche de circulação, em todos os sentidos: deadlines, contas para pagar, refeições para preparar, há mensagens para devolver e chamadas, sempre, há problemas na família, chatices no trabalho, enfim… há vida.

O “meu” fim de mundo não se parece em nada com o verdadeiro deserto, o deserto está cheio de vida, cores fortes, calor e frio intensos, dunas, animais, povos nómadas, rochas e sons, há riqueza a todos os níveis no deserto, no fim do mundo não há nada, como já disse antes.

No deserto acabo de encontrar a resposta para esta minha inquietação, uma resposta com mais de 5000 anos (segundo ouvi dizer) no deserto mais antigo do nosso Planeta: o deserto do Namibe. 

A resposta chama-se welwitschia mirabilis, a flor mais antiga do planeta, uma prova da resistência, adaptabilidade e perseverança da vida nas condições mais adversas. 

Esta flor existia antes da espécie humana habitar a terra e provavelmente superar-nos-á, pois que nos sirva de inspiração quando a clareza escasseia e nos afogamos no mar da incerteza, que nos nutra em tempos de manifesta sede.

-Sobre Rita Maria-

Rita Maria começou a estudar música aos oito anos e desde os catorze a cantar jazz. Estudou canto lírico no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, Jazz na Escola de Jazz do Barreiro, ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), no Porto, e também na Berklee College of Music em Boston como aluna bolseira. Passou parte da sua vida adulta entre Portugal, Estados Unidos e Equador. Deambula entre a improvisação do Jazz e a nostalgia do Fado, o Experimentalismo, a fusão com world music e o rock, já tenho partilhado o palco com diferentes músicos e integrando variadas orquestras. É cantora da Banda Stockholm Lisboa Project, lançou, em novembro de 2016, com o guitarrista e compositor Afonso Pais o disco “Além das Horas” e é cantora da banda Saga Cega. Recebeu o Prémio de Artista do Ano, Prémios RTP/Festa do Jazz 2018. Neste momento, está a desenvolver o seu trabalho artístico com o pianista e compositor Filipe Raposo com quem já lançou o primeiro disco “Live in Oslo”, em 2018, e lançará, em finais de 2020, “The Art of Song vol.1: When Baroque Meets Jazz”. Círculo é o mais recente trio colaborativo do qual faz parte e que se estreou em disco a janeiro de 2020 com os músicos Mário Franco e Luís Figueiredo.

Texto de Rita Maria
Fotografia de Alice Bracchi
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