“A memória é a coisa mais jovem”. Esta frase faz parte de um tema da banda portuguesa Orelha Negra, da qual sou, obviamente, fã. São uma fusão de estilos com a premissa de ser uma banda instrumental, o que permite que cada um de nós imagine para si o que a música quer dizer.

Os Dead Combo editaram, em 2011, um disco intitulado ‘Lisboa Mulata’; – um álbum que junta, na mesma panela, sabores diversos, numa cidade cosmopolita que foi alicerçada nessa mesma mistura.

Dino D’Santiago editou, em 2018, um disco de seu nome ‘Mundu Nôbu’; – o título, em crioulo de Cabo Verde, é entendível por todos: Mundo Novo.

Como é que estes três discos se encontram?, perguntam-me vocês.
São discos de artistas com sede em Lisboa, a capital do nosso país, que decidi interligar com a situação social actual, uma vez que, para mim, a música pode ser uma wake up call!

A memória jovem transita de geração em geração, em que os avós e os pais passam informações de modo a que elas se mantenham na cultura de um povo. Muito mais até do que a bandeira que do alto do Parque Eduardo VII esvoaça em sinal patriótico, a memória guarda segredos seculares.

Por exemplo, os contos pormenorizados que os avós contam na altura do Natal enquanto se come bacalhau estabelecem verdades absolutas, dogmas profundos no ADN da memória de cada neto.  Os retornados da Guerra do Ultramar que até hoje choram o facto de terem saído das ex-colónias com as mãos a abanar. Ou os soldados que inevitavelmente lutaram para manter os países que estavam sob domínio do império Português. Matar os “turras“ e manter o império sólido como durante anos e anos tinha sido.

Essas são as memórias de um povo que se mantém jovem, enquanto os adultos reformados, sem muito que fazer, contam e cantam sobre um tempo em que o seu corpo ágil rastejou no meio das searas, lá onde as terras são vermelhas.

Dessa junção secular profunda nasceram mulatos e mulatas que pejorativamente se deu o nome que significa a mistura entre cavalo e mula. E a memória que se mantém jovem funciona como nos filmes –as mensagens subliminares que aparecem no ecrã e não sabemos por que motivo temos vontade de beber Coca-Cola quando acabamos de ver o filme da moda.

A subjugação e a inferiorização são dados inatos. Sem nunca terem sido postos em causa, contamos e recontamos a mesma história vezes sem conta de tantas formas: em poesias e poemas, livros que enaltecem as “conquistas” que efectivamente, em tempos de guerra não têm outro nome.

O nosso lado territorial animalesco persegue-nos, a hiena que urina no chão para marcar território é o ADN e a memória a executar a sua função fundamental: sobreviver!

Os “mulatos” procuraram as suas raízes ao chegarem a terra do colono e foi-lhes dito:
Não, tu não és daqui, e não me pertences. Mas o sangue que o mulato carrega é tanto negro como é branco.
A luta para se fazer mostrar detentor do sangue e da memória desse ADN que lhe é negado é inglória, pois não há nada pior do que ver negada a paternidade.

E neste Mundu Nôbu onde nos encontramos atualmente, em que eu mesmo me tinha convencido de que era de facto um Mundo Novo, parece que, afinal, a memória, a coisa mais jovem que temos, é uma ferida gangrenada, com uma gaze branca simbolizando a paz, mas por baixo dela está um buraco cheio de pus e sangue derramado.

O sangue não está a ser limpo em condições, o pus mantém a ferida aberta causando febre e mal-estar geral.

A Lisboa Mulata é um estado aparente de um Mundu Nôbu, onde a memória se encarrega de dizer todos os dias que, afinal, não estamos assim tão unidos.
Estamos apenas unidos na permanente separação que a memória, e os Estados Unidos da América, invocam diariamente na proliferação de mensagens de um separatismo absoluto, que eu julgava existir menos.

Por outras palavras, e depois de meses privados das nossas vidas normais e preenchidas de outros tempos, em que não havia medo de abraçar e beijar fosse quem fosse, ao que parece a pandemia veio acentuar ainda mais as nossas diferenças e criar ambiguidades. É um despertar no sentido oposto ao que deveria ser.

Pode ser apenas uma ilusão, ou então, como dizem os crentes no Cosmos, que a transformação do planeta nesse Mundu Nôbu que todos agradecemos seja com a memória, jovem, aberta, receptiva e com vontade de aprender com todas as cores, rir-se de si mesma e aprender a respeitar mais.

Um Mundu Nôbu, uma memória jovem numa Lisboa Mulata, são os meus desejos para 2021.

Fazer com que as velhas histórias, dos velhos do Restelo, sejam substituídas por novas histórias na mesa de Natal. Mesmo para os mais tradicionais que não substituem o bacalhau por cachupa, mas que entendem que há quem coma cachupa no Natal, em Lisboa, neste Mundo Novo.

-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silva
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