As Uamussinhas, minhas filhas preferidas como gosto de as chamar, são bilíngues. Falam português e flamengo desde que nasceram e têm vivido e estudado nos dois sistemas de ensino belga e português o que lhes dá a exposição necessária para não cometerem muitos erros gramaticais e de sintaxe, numa e noutra língua, mas de vez em quando fazem umas trocas que nos fazem rir. A Emma, por exemplo, acha inadmissível que eu a trate por amorzinho quando ela é uma menina: Mãe, por favor, trata-me por amorzinhA eu sou uma menina, portanto para mim é amorzinha e pronto, essas regras de que falas não fazem sentido! Já a minha mãe, historiadora e mulher das letras e uma biblioteca itinerante, sempre que pode, entretem-se a falar com as netas utilizando o vocabulário menos óbvio e, sempre que possível, mais difícil para que elas não entendam nada e tenham de usar o dicionário que ela lhes ofereceu, um entretenimento válido para quem gosta de palavras e reconhece o seu valor. A minha mãe é uma pessoa muito alegre, doce e bem disposta, mas no que diz respeito às palavras é muito exigente. Nunca fui repreendida com nenhum castigo físico pelos meus pais, nem acho que tenha precisado, mas recordo-me bem do dia em que eu respondi com um: FOOOOGO OH MÃE, em que o olhar de repreensão e a esfrega que levei foram piores do que qualquer açoite. Era só fogo, não havia necessidade daquela palestra toda…Quem me conhece sabe que não digo asneiras, zero! Não é por beatice, pudor, crendice ou sequer altivez, amo à mesma os meus amigos que dizem as suas asneiras, mas a minha mãe deu-me tal repreensão que nunca tive prazer absolutamente nenhum em dizer asneiras, qualquer que fosse. Comecei a viver longe dos meus pais aos 14 anos, por isso teria toda a liberdade para dizer os disparates que quisesse, mas depois daquela conversa o meu mindset mudou. A minha mãe foi a primeira falar-me do poder das palavras e com o tempo fui aprendendo e entranhando que as palavras têm efectivamente muito poder, o poder de amaldiçoar e o poder de abençoar, o poder de motivar multidões ou de as destruir. Tenho lido tanta coisa que nem sempre é mal intencionada, outras vezes é, mas que tem causado as maiores controvérsias, desentendimentos, inimizades que muitas vezes me fazem pensar que o silêncio e falta de palavras podem ser realmente ouro e uma benção em vários contextos. Palavras escritas, palavras faladas, palavras para louvar, mas muitas vezes palavras para destruir. Honestamente, cansa-me estar perto de pessoas que estão constantemente a falar de forma negativa ou depreciativa. Não estou a falar de ser crítico, contra isso nada tenho. Podemos e devemos duvidar, questionar e reflectir, mas a nossa boca tende mesmo para falar daquilo que o nosso coração está cheio, falta de esperança, desespero, preconceito, angústia, tristeza, autocomiseração são palavras que não cultivo no meu seio familiar e profissional. Recordo-me uma vez em que andava em tournée por França com o Wraygunn, uma banda de rock mentorada pelo Paulo Furtado aka The Legendary Tigerman e havia uma discussão qualquer entre os membros e eu disse qualquer coisa como, sabem que se derem as mãos e olharem nos olhos uns dos outros quando estão a discutir vão parar de discutir porque se irão lembrar da razão pela qual gostam uns dos outros? Desatou-se toda a gente a rir e o ambiente mudou. Este é o poder das palavras.

Esta minha forma de viver as palavras não se trata (apenas) de ingenuidade e de achar que vai ficar tudo bem, também não se trata de mindfulness em que repito pensamentos e palavras positivas em modo mantra até que algo de bom aconteça, mas trata-se de declarar aquilo que quero viver e mudar o ambiente através do uso da palavra e essa mudança de ambiente traduz-se depois em acções. Não há palavras proibidas em casa, mas desencorajo, sempre que posso, palavras negativas, porque acredito que nas relações familiares, pessoais, de trabalho e fora dele devemos abusar e cultivar palavras positivas honrando e louvando aqueles que estão à nossa volta. É uma escolha e eu escolho que o meu coração possa falar daquilo de que o meu coração está cheio, por isso diariamente encho o meu depósito com Palavra de encorajamento que me prepara para guerra diária das más línguas e discurso sem esperança. Esta é minha definição também de liberdade, livre para dizer bem e agir em bem. Não à acefalia e falta de pensamento crítico, há que dizer sim quando é sim e não quando é não, mas não à maledicência e ao contágio viral de palavras de escárnio e maldizer.

O Ricardo Araújo Pereira disse uma vez: «Faço com palavras tudo o que é importante. Por exemplo, se quero que uma pessoa saiba que gosto dela, recorro mais depressa a palavras do que, digamos, a beijos». Bom, eu cá, assim que puder, vou abusar dos abraços também, mas enquanto não puder, abusarei de palavras.

“Do fruto da boca enche-se o estômago do homem; o produto dos lábios o satisfaz. A língua tem poder sobre a vida e sobre a morte; os que gostam de usá-la comerão do seu fruto. Prov.18-20; 21

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berezinski
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