“Hesitei muito tempo em escrever um livro sobre a mulher” – é assim que Simone de Beauvoir começa a sua obra literária fraturante e feminista, Segundo Sexo, lançada em 1949. Não teria havido Maria Teresa Horta como a conhecemos se esta hesitação não tivesse caído para o lado certo, o de arriscar acontecer. Nesta crónica, hesito muito na certeza de colocar uma palavra doutra atrás da outra, porque escrevo sobre Simone e sobre uma das Três Marias*, mas sou mulher e qualquer uma delas me ensinou que, existindo, sou livre. E vou arriscar, na esperança de chegar ao lugar onde nos queremos todas. Boa viagem.

Para Maria Teresa Horta, o caminho começou em 1937, em Lisboa. Espantem-se, mas houve o tempo em que esta mulher acreditou que só os homens é que escreviam. “O meu pai tinha um escritório maravilhoso, que foi sempre a minha paixão. Até agora eu acho que continua a ser uma paixão imensa, porque deve ser a memória mais bonita da minha infância. Alguém dizia – ‘onde é que se meteu a Teresinha?’ – e iam logo ao escritório atrás de mim. Eu tive contacto com livros muito cedo. O meu pai tinha em casa Sartre, Camus, mas não tinha nenhuma mulher na estante, absolutamente nenhuma. Não tinha também poetas, nenhum, a não ser Camões, o resto era tudo ensaio e ficção masculina. Durante muito tempo pensei que as mulheres não escreviam. Um dia perguntei à minha mãe – ‘mas as mulheres não escrevem?’ – e ela disse – ‘então não escrevem?’ -, ofendida, e ainda disse – ‘então aquela tua avó…’- , que era a minha tris ou tetra avó, Leonor de Almeida Portugal, a [quarta] Marquesa de Alorna”.

Do desconhecimento, rápido se passou a uma herança abundante, de avó escritora, poetisa e nobre, que a inspirou a escrever a obra As Luzes de Leonor (Dom Quixote, 2011). Ser o segundo sexo não lhe estava no sangue, e tanto a sujeitaram a sê-lo. “Enquanto foi fascismo, senti que era segundo sexo. Era segundo, era terceiro, era quarto, era quinto, não era nada. Não era nada. Era aquilo que o primeiro sexo queria que eu fosse. Eu é que não deixava. Então não senti? Senti eu e sentiram todas as mulheres que tivessem consciência de que eram um ser livre e igual ao homem”. Maria Teresa Horta leu o livro Segundo Sexo com doze anos, num francês que na altura pouco entendia, e com ele garantiu a salvação e a lucidez para o seu legado inteiro. “A Simone de Beauvoir mudou a minha vida”.

Proponho já uma pausa higiénica no percurso, como nos aconselha a época epidémica, com uma citação em português. Simone de Beauvoir, Segundo Sexo, Volume 1, Segunda Parte – História, primeiro capítulo: “O mundo sempre pertenceu aos machos. Nenhuma das razões que nos propuseram para explicá-lo nos pareceu suficiente. É revendo à luz da filosofia existencial os dados da pré-história e da etnografia que poderemos compreender como a hierarquia dos sexos se estabeleceu. Já verificámos que, quando duas categorias humanas estão na presença uma da outra, cada uma delas quer impor à outra a sua soberania; quando ambas estão em estado de sustentar a reivindicação, cria-se entre elas, seja na hostilidade, seja na amizade, sempre na tensão, uma relação de reciprocidade. Se uma das duas é privilegiada, ela domina a outra e tudo faz para mantê-la na opressão. Compreende-se pois que o homem tenha tido vontade de dominar a mulher”. Da pré-história à história moderna, a palavra opressão não desapareceu. Maria Teresa Horta, entrevistada pelo Gerador, minuto 32:04: “eu publiquei um livro chamado Minha Senhora de Mim e fui espancada na rua, tive de ir para o hospital”. As duas categorias não humanas em confronto eram a ditadura e a liberdade. E, apesar dos mais de quarenta anos de soberania de um estado gasto a que chamaram novo, o privilégio esteve nos oprimidos porque eram livres. Na inteligência e no espírito.

Avançando e parafraseando: ao julgar-se privilegiada, compreende-se pois que a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) tenha tido vontade de dominar esta mulher. Nos movimentos, conseguiu, mas não nas palavras. E por isso não é difícil perceber o norte político de Maria Teresa Horta. “A minha militância é pela liberdade. Aquilo que mais me interessa na vida é a liberdade. Portanto, liberdade é aquilo por que eu lutarei sempre. Militante serei só da liberdade, que nem militante sou da escrita porque a escrita sou eu, a minha escrita sou eu”. Ponto, parágrafo.

SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta
Minha Senhora de Mim, 1967

Que orgasmo. Não há pinga de pudor, não há limite, o prazer é infinito, o dela e o nosso. A liberdade na palavra é a liberdade na vida. Encontramos em cada obra os espelhos de Maria Teresa Horta percorrendo a medida do tempo. Tal como uma “personagem terrivelmente múltipla”, expressão que o jornalista Michel Antoine Burnier utilizou para caracterizar Simone de Beauvoir, referindo-se às várias Simones reveladas nas correspondências que publicou em vida. “Eu sou exatamente essa personagem terrivelmente múltipla. Todos os dias sou assim como mulher e sou assim como escritora, porque a vida traz-nos sempre coisas novas. Eu tenho de ter uma posição sobre as coisas. Sou mulher, e tenho uma posição sobre as coisas. Não é ‘mas tenho’, é ‘sou mulher – vírgula – e tenho uma posição sobre as coisas’. Há pessoas que não têm, homens também não. Eu preocupo-me com tudo”.

Ora, se a leitura do livro Segundo Sexo mudou a vida de Maria Teresa Horta e se a sua militância profunda foi, é e será pela liberdade, eu pergunto com respeito: onde se unem as duas premissas? “Tem que ver com a luta das mulheres, curiosamente. Eu tinha uma avó, mãe do meu pai, que vivia connosco e que me levava a ver umas amigas, que eram as mulheres da Casa Jardim, que é uma referência para quem está dentro da causa das mulheres em Portugal. Eram mulheres de esquerda, mulheres que lutavam contra o fascismo, mulheres sufragistas, digamos assim, mas que eram feministas, intitulavam-se feministas, que clandestinamente se reuniam como se fossem amigas. Elas falavam de coisas muito interessantes, que eu não percebia na realidade, mas que são coisas que ficaram”. Anos mais tarde, quando era chefe de redação da revista Mulheres, Maria Teresa Horta encontra e reconhece como companheira da avó na causa feminista a renomada escritora, tradutora, jornalista e ativista política feminista portuguesa Maria Lamas, que era a diretora da revista.

Dentro desta mesma época, em França, Simone escrevia em Segundo Sexo: “Ora, a mulher sempre foi, senão a escrava do homem, pelo menos sua súbdita; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições; e ainda hoje, embora a sua condição esteja a evoluir, a mulher arca com um pesado handicap. Em quase nenhum país, o seu estatuto legal é idêntico ao do homem e muitas vezes este último prejudica-a consideravelmente. Mesmo quando os direitos lhe são abstratamente reconhecidos, um longo hábito impede que encontrem nos costumes a sua expressão concreta”. Não é por isso de estranhar que Maria Teresa Horta, à data de hoje, ainda recomende a todas as mulheres portuguesas a leitura do Código de Família português do tempo do Estado Novo para que entendamos que esta causa e esta luta não são um exagero. “Se eu quisesse ir para a faculdade de ciências, não podia. Eu não podia sair do país sem o meu marido me dar autorização. Os homens tinham o poder sobre os filhos. Esquece-se disso? Não esqueça. Porque isso existia no dia anterior ao 25 de abril de 1974, não é assim tão afastado”.

É um caso sério e é caso, por isso, para uma nova pergunta: além do encontro temático nas palavras e da veemente defesa à distância que Simone de Beauvoir encetou aquando do lançamento de Novas Cartas Portuguesas (Estúdios Cor, 1972), de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, as emblemáticas Três Marias, até onde chegou a relação inspiradora entre Simone e Maria Teresa? “Quando ela veio a Portugal meses depois do 25 de abril, eu trabalhava no Expresso, fazia a parte literária, e telefonam-me a dizer ‘pedimos uma entrevista à Simone de Beauvoir e ela diz que não, que vem ver o 25 abril, que não vem como escritora’. Ao que eu retorqui – ‘perguntem-lhe se ela aceita se for a Maria Teresa Horta a fazer a entrevista’. Passado um quarto de hora, tinha a resposta – ‘sim, senhora, dá’. Fui fazer a entrevista à Simone. Desceu de elevador e eu pensei – ‘será ela, não é?’. Estava de pé à espera e era ela, exatamente, como se via nas fotografias. Muito bonita, com aqueles olhos enormes azuis, com um turbante verde na cabeça e aquilo tudo era uma coisa. Ficámos as duas sem fala”.

Talvez tal como eu fiquei sem fala na hora em que conversei com Maria Teresa Horta e nas abençoadas horas em que a li. E aqui me confesso porque, apesar da iluminação intelectual, da irreverência, da determinação, da obstinação saudável, do ativismo político precoce, do feminismo, da escolha simoniana, do primeiro sexo, dos jornais por onde passou e dos projetos que ajudou a fundar, da poesia, da poesia, da poesia, da ficção, da mulher sem idade apesar do corpo com anos passados a algum ferro, encanta-me primordialmente a relação de amor profundo com Luís de Barros. “Eu estou aqui hoje, a falar consigo, porque existe a poesia, porque se não não estava, garanto-lhe. O Luís morreu, é o grande amor da minha vida, foi um grande amor que durou cinquenta e seis anos, faz agora a 20 de maio, o dia do meu aniversário, e onde o Luís disse que me amava a primeira vez. E isso mudou a minha vida até hoje. Depois de o Luís ter morrido, assim, nos meus braços exatamente, eu acho que, se não fosse a poesia, não me interessava estar aqui. Palavra. É tão difícil viver sem ele, tão difícil, tão difícil, é tão improvável, é tão improvável eu olhar e saber que o Luís não vai vir aqui, não vai aparecer dali, não vai entrar pela porta, não vou ouvir as chaves, não vou ouvir a voz dele, que é como se eu vivesse uma realidade paralela. A poesia é a salvação. É a salvação. E eu acho que a poesia é a salvação do mundo”.

MORRER DE AMOR

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

Maria Teresa Horta
Destino, 1998

Não acrescento mais. Termino com a salvação tão solitária quanto acompanhada que soubermos retirar de Maria Teresa Horta. Daqui a exatamente três dias, quando chegar o 20 de maio, os parabéns serão todos poucos para agradecer a obra feminina que terá nascido há oitenta e três anos. E garanto-lhe agora eu, à distância, que consigo não me desavim, sua senhora de mim.

* Três Marias foi a forma como ficaram apelidadas Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, autoras do livro Novas Cartas Portuguesas, lançado em 1972. Editado pela Estúdios Cor, com direção literária de Natália Correia, foi censurado e o processo judicial marcou o declínio do Estado Novo em Portugal.

Texto de Rita Dias
Fotografia de Enric Vives-Rubio

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