“O olhar interfere no mundo, é cocriador”, palavra de Afonso Cruz (Princípio de Karenina, 2018). Cocriámos um encontro à distância, sem olhar, do Alentejo a Lisboa, com o chilrear dos pássaros e a falta de rede a concorrer com as motas e a agitação do bairro. Não demos uma grande volta ao mundo, mas pensámos nesse tamanho dentro da ilha grega que ele escolheu. Quase sempre na primeira pessoa do plural, tal como Afonso responde às questões: nós em vez de eu. E foi sobre uma dupla que nos debruçámos, Alexis Zorba e seu patrão, da obra Zorba, o Grego, de Nikos Kazantzakis, que teve a sua primeira edição em 1946. Senti falta de uma cerveja, confesso agora por escrito, sem lho ter confessado por telefone primeiro. Era fim de tarde e, afinal, é ele o produtor, não é verdade? Respeito.

“Como é amargo separarmo-nos lentamente dos seres amados! Mais vale cortar de uma só vez, e reencontrar a solidão, estado natural do homem”. Apresento o jovem intelectual, e patrão, por aqui, no seu desejo de busca e de encontro, que o levam a largar os seus livros para trabalhar numa mina de lignite, em Creta, adensando a sua proximidade à realidade camponesa, às minorias gregas, de quem trabalha para sobreviver. No porto, antes da partida, encontra Alexis Zorba, um homem com os seus sessenta anos, alto, de olhar fixo e obstinado. “Queres levar-me?”, perguntou sem se conhecerem. E apresento Zorba por aqui, na sua relação infinita com o universo, e com quem nele habita, amando-o livre das armadilhas da razão. Ou apenas livre. Afonso Cruz tem os dois dentro dele: “toda a gente tem”. Nós.

“Eles são, basicamente, Prometeu e Epimeteu. Epimeteu age antes de pensar, que é isso que os nomes deles significam, e Prometeu pensa antes de agir. Na criação da humanidade, aconteceu uma coisa deste tipo: Epimeteu cria o ser humano porque é impulsivo, porque age antes de pensar, e depois necessita de uma correção, coisa que acontece constantemente com o patrão e o Zorba. No mito grego, Prometeu rouba o fogo aos deuses para dar aos homens, fogo esse que pode ser assumido como cultura, mas também como técnica, e a partir daí corrige aquilo que foi mal concebido por esse titã, que era Epimeteu, irmão de Prometeu”. A história entre Zorba e o patrão é grega mas não é um mito, é baseada no encontro que Nikos Kazantzakis teve com Giórgis Zorba, em 1917, na Messénia, quando o autor tinha perto de trinta e cinco anos.

Afonso Cruz ainda não chegou aos cinquenta anos e são mais de trinta os livros que já editou, num percurso literário que começou há doze anos. Ser trabalhador realmente independente dá-lhe a permissão de ser feliz a fazer o que gosta, e isso faz com que faça muito. O facto de ser Zorba, de estar conectado com o todo, dá-lhe liberdade para ser também patrão, de si e da sua obra. Seja ela música, ilustração, escrita para teatro, escrita para crianças, escrita de todo o tipo, até cerveja. Não tem nenhuma obra declaradamente biográfica como Nikos, mas encontramos Afonso Cruz naquilo que escreve. “Eu escrevo desde a minha perspetiva, das minhas experiências, que incluem, claro, o meu dia a dia, o meu passado, as minhas memórias, as minhas viagens, as minhas leituras. Portanto, o somatório de todas estas coisas é inescapável, será sempre a partir disto que eu escrevo. Agora, se eu conto episódios da minha vida? Às vezes, com parcimónia, não é a coisa mais comum”.

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Editorial Caminho, 2011) tem um desses episódios, que relata o facto de os avós terem escondido um pintor judeu, em 1940. E note-se como arranca o livro, na introdução: “Enquanto a água se pode guardar em garrafas, as histórias não podem ser engarrafadas sem que se estraguem rapidamente. Têm de andar ao ar livre como os animais selvagens. Temos de as soltar para que possam correr todas nuas. Sors nasceu em 23 de novembro de 1895. Foi ele quem, em 1940, pintou o quadro que está pendurado na entrada de uma casa da Rua do Alto da Fonte, na Figueira da Foz. Essa entrada é um espaço relativamente pequeno, com uma arca de madeira do lado direito, mesmo por baixo do quadro pintado por Sors. Em frente, há um relógio de pé, um móvel de canto e o bengaleiro feito de metade de uma hélice. Há uma serra de peixe-serra na parede do lado esquerdo, estatuetas africanas, quadros, bengalas, lanças indígenas, máscaras, objetos indecifráveis, pratos pintados. Em cima da arca há algumas presas de elefante e um dente de hipopótamo. O dente, propriamente dito, é grande, mas a raiz é muito maior. Muito da eficiência daquilo que fazemos, daquilo que mastigamos, depende sobretudo do que não se vê. Das raízes. É por isso que estou a contar esta história. Porque são as coisas que estão dentro de nós e em que ninguém repara quando nos olha. Temos uma paisagem muito grande que não se vê, a menos que nos debrucemos para dentro e mostremos aquilo de que nos lembramos. Nada é tão forte como as coisas que não se veem, como as raízes do dente do Behemot. Como um pintor debaixo de um lava-loiças”.

Afonso Cruz é natural da Figueira da Foz e conhecemos-lhe uma casa da Rua do Alto da Fonte, perto do mar. A chegada de Zorba e do patrão a Creta não foi por uma entrada pequena, mas a descrição de um transportou-me para a palavra doutro, de Nikos. “O mar, a doçura do outono, as ilhas banhadas de luz, o véu diáfano de chuva miudinha que cobria a nudez imortal da Grécia. Feliz, pensei eu, do homem a quem o destino permitiu, antes da morte, navegar pelo Mar Egeu. São muitos os prazeres deste mundo – as mulheres, as frutas, as ideias. Mas singrar estes mares, num outono suave, murmurando o nome de cada ilha; não há, estou certo, alegria maior que possa mergulhar o coração do homem no paraíso. Em nenhum lugar se passa tão suavemente da realidade ao sonho. As fronteiras diluem-se, e os mastros do mais austero navio deitam ramos e cachos. Poder-se-ia dizer que na Grécia o milagre é a flor inevitável da necessidade”.

Que dança esta, hein? E ainda nem chegámos ao fim, nem à própria dança. E mais não digo, que não quero revelar a obra para além do prazer que serve de gatilho para o mergulho literário. Não me vi grega, segunda vez me confesso. Mas chegamos à música e à cerveja novamente. Beer Song (for a Romantic Evening) é uma das canções do disco Homemade Blues (Panóplia, 2007), um disco feito em casa, aos domingos, temperado por ensopados de borrego, ou não fosse a banda de Afonso Cruz chamar-se The Soaked Lamb, o termo original inglês do tempero. “As raízes [do som da banda] são realmente antigas, e vão tão fundo quanto as décadas de 20 e 30 do século passado. Mas alguns ramos mais afoitos, e até algumas folhas, são quase verdes. A música que nos interessa mais, a que ouvimos em casa, é aquela feita no período anterior à década de cinquenta e da massificação da indústria musical. Em que a forma de composição dos blues é um pouco mais complexa, pensada em função da canção como um todo e não dos executantes ou solistas. Mas também não recusamos o que se passou depois disso, e pomos na nossa música muita coisa posterior a essa época. As nossas influências são muitas, variadas, e algumas ainda nem sequer ganharam muito pó”, explica o músico, também escritor, também ilustrador, numa entrevista ao Destak, em 2010.

Nesta propulsão de tornar umas vezes audível, outras vezes visual, o que se vive e o que se lê, talvez Michael Cacoyannis tenha encontrado inspiração para fazer do livro Zorba, o Grego um filme com o mesmo nome, lançado em 1964, após a morte de Nikos Kazantzakis, em 1957. Anthony Quinn é Alexis Zorba e Alan Bates é o patrão que, ao som da banda sonora de Mikis Theodorakis, eternizaram passagens extraordinárias do imaginário grego da obra, mas também de Nikos. Fica a vida depois da morte. E, em Afonso Cruz, à semelhança de todas as preocupações antigas, a importância do legado também é uma preocupação. “Eu acho que nós, mal ou bem, pensamos nisso. Não só para o público em geral, mas também para as pessoas que nos são muito próximas. Nós, sendo este animal que sabe que vai morrer, não sei se os outros sabem ou não, mas nós sabemos, durante toda a História da humanidade tentámos fazer batota ou arranjar maneiras de não acreditar na morte, ou de a vencer de alguma maneira. Essas pequenas batotas que vamos fazendo, às vezes, incluem, por exemplo, a ideia de escrever, de pintar, de desenhar ou deixar alguma coisa mais. Mas é uma necessidade intrínseca, toda a gente tem, até nas coisas mais elementares, como escrever o nome numa árvore”. E, para refletir sobre o tema que não é novo, deixou-me a dica do filme sueco O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, de 1956. O que aconteceria ao mundo se nos limitássemos apenas à vida? Haja a preocupação com a morte, por favor. A Coffin for two, please, nos meus ouvidos.

No entanto, vale reforçar que a vida de Afonso Cruz é recheada e bem observada. Não deu um filme, mas deu peças de teatro, uma delas a peça Filho?, coproduzida pelas companhias de teatro O Bando e O Teatrão, de Palmela e de Coimbra respetivamente, construída a partir do seu romance Para onde vão os guarda-chuvas? (Companhia das Letras, 2019). Outro exemplo foi o musical infanto-juvenil Vamos Comprar um Poeta, apresentado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, com direção de Dudu Maia, a partir de uma obra de Afonso Cruz com o mesmo nome (Editorial Caminho, 2016). Da mesma forma que não lhe faltam livros, nem a nós para os ler, também não lhe faltam prémios. E também não faltam fontes para os conhecermos a todos, mas sou forçada a destacar o Prémio Nacional de Ilustração 2014, com o livro Capital (Pato Lógico, 2014), que é uma narrativa contada exclusivamente através de imagens, para qualquer idade, sem gugudadismos, termo que Afonso costuma utilizar quando se refere à literatura infantil. “Eu não penso num público, não estou a pensar numa criança específica ou com uma determinada idade, ou num leitor específico com determinada idade. Por mais complexo que um livro seja, seja para adultos, seja para crianças, seja para quem for, se as pessoas não percebem, têm de reler, ou procurar outras fontes ou ajuda, e tentar compreender aquele novo conceito. Os livros são isto mesmo, devem ser uma aprendizagem para toda a gente. Normalmente, eu não quero ler um livro em que já sei tudo, em que reconheço tudo, em que tudo é expectável. Preciso de alguma novidade, que ele me faça refletir sobre uma coisa em que eu nunca pensei. E por aí fora”. Justamente, por aí fora vamos, que já se faz tarde. Descansemos a vista com estas três ilustrações de Afonso Cruz antes de regressarmos à Grécia, ao Zorba, ao patrão e a Nikos, para nos despedirmos.

Ilustração Afonso Cruz
Ilustração Afonso Cruz
Ilustração Afonso Cruz

Zorba, o Grego faz-nos viver e refletir, ora pela mão de Zorba, ora pela mão do patrão e narrador e provavelmente Nikos. Passamos por Dante Alighieri, por Buda, por Deus. “O Nikos Kazantzakis tinha uma ideia bastante curiosa sobre Deus, ele era ateu, na realidade. Mas era daqueles ateus que acaba por viver bastante a religião. Se calhar, não é uma coincidência que o Saramago, por exemplo, também seja ateu e tenha escrito O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Como não será coincidência que Afonso Cruz tenha escrito Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara Portugal, 2012). “Parece haver uma preocupação constante em alguns ateus com a religião. E o Nikos Kazantzakis não era exceção”. Nomeadamente com o budismo, e com Buda, que vamos encontrando pontualmente em Zorba, o Grego como paisagem ora de diálogos, ora de reflexões do narrador-patrão.

Nesta ligação divina, em que tiramos os pés do chão e levamos o coração ao alto, quis saber a quem Afonso Cruz pediria que o ensinasse a dançar. Riu-se. “Essa é uma boa pergunta. Não conheço grandes bailarinos”. Aqui rimo-nos os dois. “Alguém que me fizesse descontrair da maneira que a dança o exige”. Assumimos que a melhor dança é mesmo a final, de Zorba e do Patrão, que aqui vos deixo em filme. E, depois de tudo, de todo o alcance literário grego e português, fechei o pano e “fiquei à janela a ver a noite deitar os pássaros nos ninhos” (O Livro do Ano, 2015).

Texto de Rita Dias
Fotografia de Afonso Cruz

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