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Domingo, 15 Dezembro 2019

Sandro William Junqueira: “Foi o mérito que me trouxe onde estou”

Sandro William Junqueira é um escritor que, embora tenha nascido na Rodésia, em 1974, passou grande parte da sua vida no Algarve, em Portimão. Reside há cerca de cinco anos em Lisboa, cidade que lhe permite viver da escrita e do teatro. Para além de possuir um novo romance entre mãos, tem trabalhado em diferentes projetos, nomeadamente com o Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII) e com o Lavrar o Mar – As Artes do Alto da Serra e na Costa Vicentina.

Em 2009, Sandro William Junqueira lançou o livro O Caderno do Algoz, que foi um marco no seu percurso enquanto escritor. Seguiram-se livros como Um Piano para Cavalos Altos (2012), No Céu não há Limões (2014) e Quando as Girafas Baixam o Pescoço (2017) – todos para adultos, ainda que também escreva para crianças.

Antes de descobrir a escrita, experimentou a música, a escultura, a pintura. Diz que foi falhando até encontrar a sua vocação. Trabalhou durante vários anos como designer gráfico, ocupação que abandonou para se dedicar exclusivamente à escrita e ao teatro.

Em Portimão, cidade onde se tornou adulto, descobriu a poesia, depois a prosa - foi onde se iniciou como escritor. Começou a fazer teatro, não só como ator mas também como encenador. Juntamente com Paulo Quaresma, em 1999, fundou o grupo de teatro A Gaveta. Dedicou-se à promoção da leitura nas escolas, principalmente no Algarve. Quando se fala em estimular o gosto pela leitura junto dos mais novos, Sandro W. Junqueira reprova a forma como é dada a disciplina de português, questionando tanto a escolha das obras literárias como a forma como estas são tratadas.

Gerador (G.) – Em que projetos tens trabalhado ultimamente?

Sandro William Junqueira (S.) – Acabei de escrever um texto para o Lavrar o Mar, a continuação da saga Medronho. Acho que esta já é a terceira leva de textos. Trata-se de um projeto sobre a aguardente de medronho, sobre duas famílias inimigas, ambas produtoras desta aguardente. A história passa-se nas destilarias mas não só. É um projeto que eu e o escritor Afonso Cruz começámos a escrever desde o início. Nos últimos meses, tenho também escrito para teatro. Além disso, tenho um romance a meio, suponho eu, não sei se é mesmo a meio... Quero pegar-lhe novamente, mas os projetos que tenho feito com o Teatro Nacional D. Maria II, entre outros, têm-me mantido bastante ocupado.

G. - Fala-me do trabalho que tens realizado no Teatro Nacional D. Maria II. De que se trata?

S. - Um dos projetos é o PANOS – palcos novos palavras novas que esteve na Culturgest durante uma década. Foi o Francisco Frazão que criou este projeto em Portugal, mas é uma importação de algo que o Teatro Nacional de Londres (Royal National Theatre) já tem há várias décadas, chama-se Connections. Depois do projeto ter caído na Culturgest, foi recuperado no Teatro Nacional D. Maria II pelo Francisco Frazão. Só depois é que fiquei como coordenador, desde o ano passado. No PANOS, encomendam-se alguns textos a autores reconhecidos, textos originais, que depois vão ser interpretados por jovens dos 12 aos 18 anos. Alia novas dramaturgias ao teatro juvenil/escolar. Eu já conhecia este projeto porque, quando vivia em Portimão, estava à frente de um grupo de teatro que participou no PANOS em várias edições. É um evento de âmbito nacional, os grupos de teatro escolar e juvenil inscrevem-se, leem os textos e escolhem aquele com que querem trabalhar. Depois há um workshop no D. Teatro Nacional D. Maria II que inclui os grupos de teatro e os autores dos textos. O workshop dura dois dias, permitindo o contacto entre jovens, escritores, pessoas do meio. Mais tarde, os grupos estreiam os espetáculos em que trabalharam - é também nessa altura que o júri escolhe os dois melhores espetáculos para cada texto (são três textos).

Também estou envolvido noutro projeto de teatro jovem que começou em Viseu, no Teatro Viriato, chamado K Cena. Inclui pessoas do Brasil, de S. Tomé e também de Portugal. São cinco grupos que trabalham sobre o mesmo tema, depois há um diálogo, um cruzamento entre os grupos. Fiz uma espécie de oficina em que foram escolhidos 20 jovens com quem vou trabalhar. O objetivo é apresentar um trabalho no final de julho de 2020. Estes são projetos que me ocupam muito tempo.

G. - Existe a noção de que é difícil entrar no mundo do teatro, bem como viver exclusivamente da escrita. O que pensas?

S. - Não é fácil. Para mim foi uma surpresa porque não estou no meio, não conheço muitas pessoas. Acho que foi mesmo o mérito que me trouxe onde estou – o que me deixa muito contente. Muitas vezes questiono-me como é que certas pessoas chegam a certos lugares. No meu caso, foi mesmo a partir do trabalho que fiz no Algarve. Depois comecei a ter visibilidade aqui em Lisboa. Como te disse há pouco, quando trabalhei com aquele grupo de teatro de jovens, em Portimão, vim muito a Lisboa e o grupo foi sempre seccionado no PANOS. Também escrevi uns textos, como autor. O meu trabalho passou a ser conhecido pelos coordenadores do projetos que fui visitando.

Também é preciso ter alguma sorte. Ultimamente tenho conseguido, através da qualidade do meu trabalho, ter mais trabalho. Nem sempre foi assim. Não é só no início que esta vida é difícil, é necessária muita persistência.

Em Portugal, não são muitos os escritores que conseguem viver exclusivamente da escrita. É muito difícil, temos um mercado muito pequeno e não se vendem muitos livros. Há que fazer outras coisas e, depois, arranjar tempo para nos dedicarmos à escrita. Mergulho muito na escrita, ou seja, não gosto de estar a escrever enquanto tenho outras coisas na cabeça. Tenho dificuldade em conciliar. Ultimamente, tenho-me concentrado em trabalhar para garantir que, mais tarde, consiga ter tempo, sem preocupações, para me dedicar só ao romance.

G. - Trabalhas de forma regrada, és rigoroso, ou a escrita emerge duma espécie de caos?

S. - Num primeiro momento, quando parto para a escrita, quando me surge uma imagem, uma ideia, há um grande entusiasmo. O meu método é difícil porque sou muito obsessivo. Imagina que tenho 20 páginas já escritas, no dia seguinte não começo a escrever a página 21, começo da página 1. Vou lendo, cortando, corrigindo, e no seguimento desse trabalho poderão seguir as páginas 21, 22, 23... Depois, no dia seguinte, volto novamente ao início. O processo é este. Estou sempre a cortar, a tirar, a acrescentar, a ligar... Depois há um momento em que entro na fase do nojo. Questiono-me: “Mas isto é bom?” Tenho muitas dúvidas, duvido se vou conseguir. Duvido muito dos escritores que sabem tudo e que têm uma grande confiança... A escrita é tão difícil! O mecanismo da ficção é sempre um mistério, não sabemos muito bem como funciona, o que desencadeia certas coisas, como surgem as ideias. Exige uma entrega absoluta. Não vejo a escrita apenas como algo meramente cerebral e de resposta às leituras que se fazem. Não, a escrita para mim não é só isso. Obviamente, se sou o escritor que sou, devo-o a todos os escritores que li, ninguém chega a lado nenhum sozinho. Fala-se do Herman Melville que, antes de ter escrito o Moby Dick, só tinha lido a Bíblia... Mas a Bíblia é quase o livro dos livros. Creio que todos os escritores que querem deixar uma impressão digital, fazer algo maior, precisam de olhar para o passado. No fundo, os temas não são muito diferentes, desde a Odisseia de Homero até aos dias de hoje... Não mudou assim tanta coisa. Mudaram os adereços mas as questões são sempre as mesmas, o que importa é o olhar que tens. O que marca, o que é diferente, é a forma como tu abordas esses mesmos temas, parece-me.

G. - Referiste uma forma menos cerebral ou racional de escrever. Queres dizer que, a determinada altura, entras numa dimensão para além do teu controlo?

S. - Isso é numa primeira fase. Nos meus livros, a primeira fase, ou seja, a produção da matéria-prima do livro é totalmente instintiva e inconsciente. Não a domino nem a quero dominar. No começo, é um processo um pouco lynchiano - tu não percebes por que razão estás a escrever o que estás a escrever, mas escreves na mesma. Há uma altura em que percebo que o livro já ali está, algures. Depois dou um tempo, afasto-me para cortar aquela ligação emocional ao livro. Há dias em que julgas que és o melhor escritor do mundo, nomeadamente quando acabas de escrever uma página de que gostas, depois no dia a seguir já és o segundo melhor, passada uma semana já és o décimo melhor e, passado um mês, aquilo já não presta para nada. Portanto, a distância é muito importante para depois voltar ao livro com outro olhar. Eu acho que “escrever é cortar palavras” – não fui eu que disse isto, foi o Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro, e eu concordo com ele.

G. - Tens obsessões enquanto escritor, isto é, imagens que aparecem nos teus livros sem que dês por isso? Tentas contrariar?

S. - Sim. São obsessões que existem não sei porquê. Os meus três primeiros livros - O Caderno do Algoz, Um Piano para Cavalos Altos e No Céu não há Limões - estão todos ligados. Comecei a criar um território ficcional que foi alargando à medida que os livros foram aparecendo. Há personagens que cruzam os livros, são as mesmas personagens mas com denominações diferentes. São obsessões, não consigo explicá-las. Acho que não devo procurar a razão, nem devo contrariá-las, é pior. O pior que pode acontecer a um escritor é ir para o divã fazer psicanálise e contrariar essas obsessões. Todos os escritores têm as suas.

G. - O teu estilo é muito claro, despojado até, sem rodeios. Contudo, enches-nos de imagens. Queres comentar?

S. - Sim, a minha escrita não tem mobília nenhuma. Não sou um escritor descritivo, não sou um narrador de fôlego que consegue dar trinta páginas para descrever uma situação. Há escritores que fizeram isso muito bem, como o Tolstói, por exemplo. Quero escrever sobre aquilo que me interessa, da forma que é mais interessante para mim. Gosto muito de dar liberdade ao leitor, gosto que o leitor intervenha. Se eu disser “ela entrou num café e sentou-se à mesa” – isto sem descrever a mesa –, o leitor tem o papel de imaginar a mesa. O Thomas Mann, por exemplo, é um escritor incrível, mas não é um escritor que me estimule muito ou que me provoque coisas porque ele dá-me tudo, sou um recetor da sua narração incrível e romanesca. Gosto mais de livros com buracos, mal comportados, tortos, comparativamente àqueles mais direitinhos e muito bem contados... Porque na vida há sempre coisas que nos escapam.

G. - No livro Quando as Girafas Baixam o Pescoço (2017), criaste várias personagens que, embora vivam todas no mesmo prédio, no lote 19, estão muito distantes entre si. O que te serviu de inspiração? Para construíres as tuas personagens baseias-te em pessoas reais?

S. - Não, as personagens não me surgem assim. A primeira imagem que me surgiu para esse livro foi a do velho a sair do prédio e a lançar os caroços de limão. Comecei a fazer perguntas como: “Quem é este velho?” Durante a escrita dum livro, nunca penso “Porque é que estou a escrever isto?”, essa pergunta só faço depois de o livro estar terminado, entregue e, muitas vezes, só depois do livro estar publicado é que começo a tentar perceber as razões que me levaram a escrever aquilo. Quando as Girafas Baixam o Pescoço é um livro muito distinto dos meus outros romances porque está mais próximo da realidade, os outros livros são mais distópicos. Por isso, há uma facilidade de identificação com o que se passa com as personagens. Depois comecei a pensar no porquê de ter escrito esse livro, acho que foi porque eu sempre vivi em prédios, nunca vivi no campo, sempre vivi em cidade. Viver num prédio é interessante, tens pessoas a viver por cima, por baixo, de lado... A questão de viveres num prédio tem que ver com a proximidade das vidas de pessoas que não comunicam e que não se conhecem. Ao mesmo tempo, o barulho, o ruído do teu vizinho interfere com a tua vida e vice-versa – é muito engraçado. Na história da humanidade nunca fomos tão numerosos e tão próximos, na medida em que os mesmos metros quadrados albergam centenas de vidas. Ao mesmo tempo, estamos muito afastados. Isto é uma coisa recorrente nos meus livros: a incomunicabilidade, a dificuldade em comunicar, a solidão. A maioria das personagens desse livro, por razões distintas, foram obrigadas a entrar em contraciclo com o mundo. Esse mundo é velocidade, é ter muitas coisas para fazer e nunca ter tempo para parar, para pensar. Tempo para te confrontares com coisas que não queres, que não estão resolvidas, com os teus fantasmas ou medos... As personagens do livro foram obrigadas a parar e, por isso, ficaram sozinhas, com elas próprias. Começam então a surgir as dualidades, os choques, os conflitos internos. O livro também explora a questão da luta entre a racionalidade e o lado animal – este é um traço que também está presente noutros livros meus. É essa coisa de nos termos afastado da natureza e a tentativa de a controlar... Porque a natureza é muito imprevisível e nós, seres humanos, detestamos isso, queremos é previsibilidade, isto não está lá muito bem resolvido. Afastámo-nos da natureza, criámos o betão, construímos muros, mas a natureza nunca saiu de dentro de nós. Até há uma das personagens que, à medida que o livro avança, se vai transformando quase num animal. Nesse caso, as condições económicas levam o homem a aproximar-se mais da natureza.

G. - Conta-me um pouco sobre a tua infância. Nascente no Zimbabué, viveste 30 anos no Algarve e agora estás Lisboa. Como foi?

S. - Nasci em 1974 na Rodésia, uma colónia inglesa. Eu nasci lá por acaso, os meus pais são ambos portugueses e foram para Angola muito jovens. O meu pai cumpriu o serviço militar em Angola, andou na Guerra Colonial. Os dois conheceram-se lá, eu fui feito em Angola. O meu avô era um grande ceramista e, por causa duma fábrica de cerâmica, foi para a Rodésia com a minha avó. Isto foi na altura em que a minha mãe estava grávida. Como colónia inglesa, a Rodésia tinha melhores serviços de saúde e, como a minha mãe estava sozinha, a minha avó disse-lhe: “Vens cá ter o menino, dou-te apoio, e depois voltas para Angola.” Depois do 25 de Abril, a situação em Angola mudou, não dava para regressar. Fiquei na Rodésia até aos dois anos. Depois fui para Portugal com os meus pais, sem nada, como a maioria dos retornados. Vivemos em Pombal, nas Caldas da Rainha, em Setúbal, e depois em Portimão desde os 12 anos até adulto. Tenho uma relação de amor-ódio com Portimão. Foi onde passei grande parte da adolescência, foi onde comecei a escrever e a fazer teatro, foi onde me tornei adulto. O problema do Algarve reside naqueles que governam, ou seja, não há uma visão inteligente em termos políticos em prol de quem lá vive. A grande prioridade é o turismo, onde se investe tudo. Esquece-se aquilo que é fundamental: as pessoas que lá vivem. Muitas cidades são cidades-prostitutas, na medida em que são pensadas para servir quem vem de fora, para quem deixa lá o dinheiro mas vai embora. Eu estava ligado à cultura e sei bem o que penei. Parti muita pedra, tentei fazer um caminho nessa área e não consegui.

G. - Não pensas em voltar ao Algarve?

S. - Não. A mudança para Lisboa não foi fácil mas as oportunidades, as portas que se abriram desde a minha vinda, seriam impossíveis se eu estivesse no Algarve. Tenho pena porque há gente com muita capacidade no Algarve, gente que está pronta mas que não tem condições. Os meus amigos de escola, muitos relacionados com o teatro, com a música, com as artes, acabaram todos por sair, ninguém ficou lá. Não ficaram porque não foram criadas as condições, se calhar até havia quem preferisse ter ficado...

G. - Não notas que as coisas estão a mudar por lá? Por exemplo, com projetos como o Lavrar o Mar?

S. - Esse trabalho é notável! Começou-se a trabalhar com a comunidade em locais onde praticamente não havia nada. Houve um trabalho incrível para a formação de públicos. Por exemplo, o lançamento do livro Medronho, em Monchique, estava à pinha! Vieram pessoas de vários locais para dentro duma destilaria de aguardente, para estarem connosco no lançamento. Aqui em Lisboa, ter meia dúzia de pessoas já é muito bom. O trabalho feito no Lavrar o Mar é absolutamente espantoso, de uma importância vital. Gostava que fosse expandido a todo o Algarve.

Voltando a Portimão que é o caso que eu conheço melhor: No meu tempo, não havia teatro, havia apenas a revista. Quando apareceu o Teatro das Figuras, em Faro, foi um momento importante. Algumas pessoas deslocavam-se de Portimão até Faro para ver espetáculos. Lembro-me de vir a Lisboa de propósito para ver espetáculos de teatro. Para muita gente, isso é incomportável. De repente, começaram a surgir equipamentos culturais no Algarve. Contudo, não foi feito o trabalho prévio de formação de públicos. Agora tens equipamentos vazios ou ao abandono, sem programação de qualidade e sem dinheiro para programar. Tenho algum conhecimento, estive lá 20 anos a trabalhar em cultura, a trabalhar na promoção da leitura, desde Sagres a Vila Real de Santo António. Fiquei a conhecer muito bem a realidade. Custa-me imenso. Tinha 22 anos quando fundei a Gaveta (grupo de teatro de Portimão) com o Paulo Quaresma. Nessa altura, tivemos uma reunião com a vereadora da cultura que nos disse que a Gaveta poderia ser o grupo residente do futuro Teatro de Portimão (ainda em projeto). Não aconteceu.

G. - Antes de te estabeleceres como escritor, dedicaste-te a várias artes. Tiveste experiências como músico, escultor, trabalhaste como designer gráfico. Como surgiu a escrita?

S. - Na verdade, desde que tenho consciência, sempre me interessaram as manifestações artísticas. Na primária fazia teatro, fazia imitações, etc. A escola foi uma grande deceção porque não alimentava aquilo que eu queria. Fui um aluno muito medíocre, a português era mediocríssimo. A minha sorte é que eu já era leitor, sempre li muito. Acho que a forma como se tratam os livros na escola não é a mais certa. O livro é uma coisa para fruir, não é apenas um objeto para análise exaustiva. A leitura terá de ser um prazer! E isto não passa para as pessoas! Terá de ser lúdica. Por que é que os miúdos se afastam dos livros? Viagens na minha terra, de Almeida Garrett, é um grande livro, está excecionalmente bem escrito. Contudo, é um livro que mata aqueles que o vão ler sem qualquer preparação e leituras prévias. O problema é que a nossa herança literária como, por exemplo, Os Maias, de Eça de Queirós, exige que existam leituras por detrás. Há exceções, há pessoas que têm mais facilidade, começam a ler estes livros e gostam, mesmo com pouca preparação, mas a maioria não é assim... Aquelas primeiras 150 páginas afastam muita gente. Até ao 4.º ano do primeiro ciclo de escolaridade, o livro está presente na sala de aula mais na perspetiva da fruição. A partir do 5-6.º ano começa a haver abandono. As obras não são bem escolhidas, a forma como as obras são tratadas não é bem feita. Usa-se o livro como ferramenta para cumprir o que está no programa, e não para o essencial: estimular o gosto pela literatura.

Voltando à tua pergunta, comecei pela pintura, passava tardes na biblioteca de Portimão a ver os livros dos grandes mestres. Fiz da marquise da casa dos meus pais o meu ateliê e pintei durante dois ou três anos. Era muito mau naquilo. Depois experimentei a escultura, a música... Fui falhando. Sempre em busca e sempre a ler. Há um momento decisivo que coincide com o momento em que começo a fazer teatro - quando me apaixono pela poesia. Decidi começar a escrever poesia mas... Também era muito mau. A Tabacaria, de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, foi um poema que mudou a minha vida, senti a necessidade de saber esse poema de cor. Comecei a ler tudo o que podia de poesia, tinha amigos que tinham ótimas bibliotecas e que me emprestavam livros. Mais tarde, iniciei-me no conto que tecnicamente é muito difícil de fazer. Depois passei para as ficções curtas até escrever aquilo que que originou O Caderno do Algoz (2009). Eu era designer gráfico em Portimão, foi o meu trabalho durante muito tempo mas, a dada altura, percebi que não era feliz. Apesar de estar num ótimo ateliê, efetivo e com um ordenado bom, decidi mudar. Não foi fácil, imagina, com um filho, decidir deixar o trabalho para me dedicar exclusivamente ao teatro e à escrita, isto há uns 12-13 anos. Tem sido um caminho muito duro. É preciso uma grande obstinação, persistência, muita resiliência à dificuldade, mas tem compensado.

G. - Estas entrevistas terminam com uma referência à palavra doutro. Podes recomendar-me um escritor português? Alguém que admires?

S. - Pode ser um dramaturgo em vez de um romancista? Vou falar do José Maria Vieira Mendes. Acho que é um dos melhores escritores portugueses da atualidade, embora só escreva texto dramático. Tem vários livros publicados na Cotovia (livraria/editora) mas um deles, com o título Uma Coisa (2016), é constituído por várias peças que ele tem feito com o Teatro Praga, e é absolutamente genial. O José Maria Vieira Mendes é um escritor pouco falado, não sei bem porquê. O texto dramático já não é aquela coisa que as pessoas pensam que é... E há um lado muito forte no pensamento do Zé Maria, ele questiona muitas coisas, é um escritor com muito talento. Também poderia falar do Afonso Cruz, da Dulce Maria Cardoso, da Patrícia Portela, pessoas que admiro imenso e que leio sempre. Temos escritores muito bons. Esta geração que já chegou aos quarenta, onde me incluo, está fazer coisas completamente diferentes.

Uma Coisa, livro de José Maria Vieira Mendes

Texto de Maria Costa
Fotografia de Gerardo Santos/Globalimagens

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