Se descascar uma menina como quem descasca uma maçã não tem jeito nenhum.

Tudo o que sabemos estar por dentro da fina película que envolve o corpo fica bem no ato encoberto do sangue e das veias, dos músculos e dos ossos, das cartilagens e tudo o mais. Desnudar a nudez não resolve o mistério humano.

A nudez, por seu lado, é um corpo vestido de pele. É uma alma vestida de corpo.

A nudez é mais um olhar que uma erosão do tempo, uma condição do lugar, um prenúncio, um fim.

A nudez é uma forma de concluir o nascimento, essa projeção uterina que corta os umbigos.

Tocar a pele nua.

É tudo e não é nada.

A pele não possui em si a substância da intimidade.

Uma pele próxima, à distância da mão, pode apresentar a plenitude do encontro ou nada ser.

Uma pele emigrada nos recônditos da lonjura se assim o desejar será o repouso do mais certo de mim.

O desejo da pele é incerto e acompanha de variações os gestos do crescimento e da morte. Peles jovens, peles encarquilhadas, peles marcadas pelo cansaço ou esforço, peles pálidas e outras escuras, peles rugosas e lisas, peles frágeis e resistentes, cada pele é uma história pessoal, única, irrepetível. Reconhecidas na sua singularidade, vividas na personalidade de que fazem parte, podem ser amorosas.

A pele é inteira, da cabeça aos pés, mas a pele é parte, não existe fora de si, não sobrevive dentro.

Fronteira e unguento, separação e junção, presença e ausência, limite e abertura, a pele resolve e coloca os paradoxos, as simetrias e coloca-se dentro e fora de todas as classificações.

A pele pode ser erótica, pornográfica, santa, virgem, bela, profana, profanada, permissiva, intransigente, neutra, escondida, indiferente, envergonhada, convidativa, frágil, repulsiva, inocente. A pele é tudo o que nela colocarmos e afinal é tão discretamente parte dos limites da superfície e da essência.

Pode ser olhada de perto e de longe, ao microscópio e pendurada na nudez de uma pintura, nas divagações de olhares errantes.

A pele é objeto, veículo, caminho, proximidade, distância.

Difere a sua existência segundo a parte do corpo. A sua apreensão, confunde-se com as maneiras como se olha o mundo e se misturam as definições das histórias pessoais e sociais.

A pele tem latitude. Em cada uma, vê-se e repara-se diferentemente.

E, mesmo assim, cobre cada um e todos. Justamente, revela-se idiossincrática ou assimilável a pessoa. Plural, é una, pois a todos envolve.

Quando se morre, a pele vai-se. E depois tudo o resto, até aos ossos. Quando se vive, é uma casa habitada, um silêncio em movimento, uma história cheia de histórias.

Vejo-a, sinto-a, na espera do sol.

Deito-me com ela, e das suas histórias contam as digitais impressões, como nas árvores os anéis.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier

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