1.

Passamos por elas sem as vermos. São um meio, não um fim. Sinal de uma humildade essencial: fazem o que devem, não são o mais importante. Servem-nos, mas sem lhes darmos atenção – a não ser quando não funcionam como queremos e se tornam obstáculo.

2.

A porta, como os grandes símbolos, é “coincidência de opostos”. A porta abre, a porta fecha. A porta permite, a porta proíbe. A porta esconde, a porta revela. A porta é obstáculo, a porta é passagem. A porta não é apenas um dos lados, mas dois. O dentro e o fora. O interior e o exterior. Estabelece territórios e torna-os permeáveis. A porta é uma realidade complexa (e poucos o perceberam e mostraram como Duchamp, no nº11 da Rue Larrey) – e é também assim que devemos aprender a pensar, sempre sobre um outro ponto de vista que não o do pensamento único, fácil ou imediato.

3.

Ao funcionar como fronteira, a porta não é apenas um muro ou parede, mas lugar de passagem. E as realidades humanas relacionam-se mais com estes lugares de tráfego e tráfico, de trocas e encontros, do que com os muros intransponíveis – mesmo que as portas nos possam impedir a passagem, estarem fechadas, a possibilidade de abertura está sempre presente. Uma porta fechada ainda é esperança de porta aberta. A possibilidade de imaginar uma outra dimensão.

4.

Pensar no modo como usamos as portas é refletir sobre a sociedade em que vivemos: confiante no outro (de chave na porta, de portas abertas) ou com medo dele (portas blindadas, condomínios fechados); promotoras da propriedade privada ou da partilha comunitária. A relação de uma comunidade com as portas desvela a sua relação primeira com o mundo: confiada ou desconfiada, generosa ou possessiva.

5.

Há portas que preferíamos deixar fechadas. Como a do quarto proibido no castelo do Barba Azul, aquele onde esconde os cadáveres. Mas é precisamente essa porta que deve ser aberta, mesmo que não regressemos iguais depois de por ela passarmos. Como escreveu George Steiner, pensando no horror do holocausto nazi, se não soubermos enfrentar o que queremos esconder, os nossos esqueletos no armário, se não soubermos abrir essa porta, poderá novamente repetir-se a barbárie… E essa lição não é só para os povos, mas para os esqueletos que cada um de nós pode ter escondidos em si, julgando que assim se resolvem os assuntos.

6.

O nosso corpo é porta. Como escreveu o místico, poeta e pintor, Wiliam Blake: “Se as portas da perceção estivessem limpas (purificadas), tudo apareceria para o homem tal como é: infinito. Mas o homem fechou-se a si mesmo, ao ponto de ver todas as coisas através de estreitas fendas da sua caverna”. As portas do corpo – os sentidos –  são também as portas do espírito.

7.

Há portas que só um verdadeiro encontro abre em nós. Como as cinco portas que se abrem em sequência nos olhos de Ingrid Bergman no momento em que beija Gregory Peck – no filme de Alfred Hitchcock, Spellbound (1945) – depois de ela ter olhado com atenção inquieta a porta fechada do quarto, que deixava passar a luz por debaixo; depois de ela ter, apreensivamente, aberto a porta que parecia proibida; depois de eles terem ficado a conversar de pé, separados por uma porta aberta; depois de ele ter atravessado o limiar dessa porta na direção dela.

8.

Por vezes, parece que tentamos desesperadamente abrir portas onde elas não estão. Procuramos saídas, soluções e respostas onde não as poderemos encontrar. Como uma mosca a bater num vidro. Conta Ludwig Wittgenstein: “Um homem encontra-se num quarto, do qual pretende sair. Vê, diante de si, várias portas de saída. Pretende abri-las, uma por uma, mas não consegue. Pois não são portas verdadeiras, mas portas pintadas na parede. Enquanto isso, existe atrás do homem uma porta real. Para encontrá-la — e sair — só é preciso virar-se. Mas isto, que ele o faça, é difícil.”

9.

Um bom epitáfio: “soube ser porteiro”.

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira