Estava à procura de um título que resumisse de forma eficaz o actual comportamento das pessoas em relação ao que lhes é dado para ler. A notícia tem o título, o subtítulo e o corpo de texto, com mais ou menos destaques e fotografias para embelezar ou dramatizar.

Pensei em “Quando se lê as gordas”, mas receei provocar uma guerra surda nas redes sociais, pois sei que muitas pessoas ficariam por aí e daí retirariam a sua conclusão, espumando raiva e defendendo, naturalmente, as magras.

Então, rebuscadamente, ousei incluir todos os parágrafos num só título e baseei-me no “O Cozinheiro, o Ladrão, a sua Mulher e o Amante Dela”, uma gloriosa comédia negra de Peter Greenaway.

Na verdade, o tempo ficou sem tempo e a pressa tomou-lhe o lugar. Não temos tempo para nada, andamos sempre a correr, de telefone na mão, com os sacos a bater nos de quem se atravessa no caminho, a marcar e desmarcar reuniões, opiniões, saudações, a alterar o próprio ritmo que o corpo humano tem ao sobreviver numa grande ou média cidade.

O tempo que foge, já dizia Virgílio, ou que “voa”, o pedido que António Mourão faz quando pede ao tempo que volte para trás, este mesmo tempo que se nos escapa pelos dedos.

Ora sem tempo, perdemos o foco, a atenção, a forma natural de pensamento e a fórmula que antevemos para solucionar o que ainda aí vem. O tempo de estarmos focados num assunto baixou drasticamente e é perturbador saber que nos desinteressamos ao fim de oito segundos, principalmente os mais jovens. Lembro-me de que, em publicidade pré-internet, se faziam as contas ao tempo de exposição e leitura de um outdoor (ou reclame exterior) colocado numa rotunda, num passeio, numa auto-estrada. O tempo sempre foi valioso e a atenção era um dado adquirido. Já não o é.

Do desfoco ao desnorte é um pulo, um pequenito passo que damos sem pensar. Muitas vezes porque nem nele pensamos, não temos sequer tempo para isso, quanto mais atenção para o que realmente estamos a fazer. É um minuto, talvez um segundo e, de repente, apercebemo-nos de que falhámos qualquer coisa. Perdemos algo. Facilitámos aqui. Errámos acolá. Mas, e afinal, culpamos o ritmo frenético e o extremo cansaço de forma automática e até descansada, principalmente se vivemos numa pandemia vai para um ano.

Confinados, em teletrabalho, com turnos, sem privacidade e, naturalmente, sem o nosso tempo, aquela meia hora no ginásio, o passeio ao final da tarde acompanhados pela música que nos dá prazer, tanta coisa que dávamos por garantido passou a ser um luxo. Ou um risco, dependendo do ponto de vista.

Por fim, desatinamos! Com força e aos gritos, murmúrios ou com o mais profundo dos silêncios. O que nos aconteceu? Porque nos sentimos perdidos, extenuados, à beira do colapso? Porque já não retiramos prazer das coisas mais normais, como ler uma notícia cujo título nos captou a primeira atenção. Já não temos tempo para ler uma opinião fundamentada de um jornalista ou crítico que sabe da poda? Ficamo-nos pelo título sensacionalista que sabemos que, nesta altura do campeonato, é o que vende?

Sim, sabemos disso tudo, mas cada vez temos menos tempo. Portanto, tiramos as conclusões com as Gordas e as Magras serão baseadas no acumulado conhecimento que a nossa vida tem, a famosa experiência que nos fez o que somos.

Acumulado ou acomodado?

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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