Faz estranho breu nos vastos aposentos, apesar dos candelabros altos com robustas velas e de candeeiros de mesa, com chamas rutilantes. Na antecâmera, os guardas adormecem de pé, agarrados às armas. Aias cobrem-se de torpor profundo, criadas sem repouso encostam-se umas às outras e o mordomo, nervoso, espera, em vão, pelo sono real.

Diz-se que estava sob estranho agoiro, ou que a amante favorita do rei lhe lançara um sortilégio. A verdade é que não havia noite em que dormisse. E não só atravessava o tempo noturno insone como com ela arrastava a corte, que sofria entre a necessidade de cortejar e a precisão de dormir.

Distraía-se  com os mais singulares modos.

De há um mês a esta parte, era hábito entreter-se com um punhal, uma adaga ou espada, conforme o impulso.

Há poucos dias, tinha esventrado uma servente suspeita de ter comido os seus doces florais preferidos. Aberta a pele, penetradas as entranhas do umbigo para baixo, expostas as vísceras, concluiu-se que a dita  não era culpada – só se observou a existência de côdeas e algumas réstias de couve lombarda meio digeridas.

Hoje, chama o secretário do  tesouro e, vagamente aborrecida, brande a espada e corta-lhe a cabeça. Depois diz: é para aprenderes.

Ele, de gatas, anda com as mãos tacteantes à volta do chão, entre poças de sangue e alguns desperdícios da libação real e lá encontra o adereço. Agarra no órgão decepado e ajusta-o no pescoço.  Um colar rubro no sítio da junção, lembra o fio apurado da folha, antes do tempo absorver a cor e até a luz.

A rainha não fica contente. Chama-o para perto, entre os pajens. Ele vai. E ela corta-lhe a mão direita. Depois diz: é para aprenderes. A mão solitária e autónoma, alada por breves instantes, tomba sobre o real cesto das frutas.

Ele, com a mão esquerda, resgata o apêndice, entalado entre um ananás e duas ameixas. Canhoto e hábil, encaixa pulso em pulso, e o lado direito volta a dar simetria.

A rainha está furiosa. Chama-o e corta-lhe as duas pernas. Depois diz: é para aprenderes. Os pilares de qualquer andamento ficam, inertes, a jorrar vermelhidão no mármore branco, pela escadaria que leva ao trono.

Ele, apoiando-se nos músculos braçais, arrasta-se pelos degraus e liga, sem erro, esquerda a esquerda, direita a direita. Cansado, deita-se, os siameses lambem-lhe as feridas.

A rainha fica fora de si. Chama-o, grita, vocifera. Ele vai.

E ela corta-lhe os sonhos.

Ele deita-se de barriga para baixo num ressalto do patamar e, agora, sem mais motivos, finalmente, adormece.

A rainha, satisfeita, estende o dedo guloso e indica uma papaia. O pajem, com os olhos no chão, entrega-a de bandeja.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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