“اسمحوا لي أن أتكلم بلساني العربي قبل أن يحتلوا لغتي أيضاً

Permitam-me que fale a minha língua árabe

antes que ocupem também o meu idioma.

Permitam-me que fale a minha língua-mãe

antes que colonizem também a memória dela.

Sou uma mulher árabe de cor

Há de nós em todos os tons de raiva.”

Rafeef Ziadah (Tradução: Adriana Bebiano)

Levantou a voz dirigindo-me a palavra: “This is my country!” (Isto é o meu país).

Estava a falar com ele em português percetível, explicando sem o dizer que não concordava com as suas afirmações xenófobas contra um terceiro. Mas ao anunciar que também sou estrangeira, mudou logo para outra língua, como se estivesse a informar-me que não só este país lhe pertence apenas a ele, como também esta língua. Não a posso abraçar desta forma, como sendo minha. Nela também não sou bem-vinda.

Não lhe disse como em cada dia que passa vou deixando de ser estrangeira. Não lhe disse que não ouço o meu próprio sotaque. Não lhe disse que me esqueço dos meus erros de português e fico completamente atrapalhada quando as minhas vogais demasiado abertas me denunciam: “és de onde?”.

Aprendi a responder consoante a necessidade do momento. “Sou daqui, sou de lá, entre outras possibilidades”. Na verdade, sou as outras possibilidades. São o meu (não) espaço, o meu ser orgânico, sempre em construção. Contudo, há momentos, como este, em que mesmo sabendo que o meu estrangeirismo não é uma identidade fixa, é preciso reclamar este meu lugar. Levantar também a voz, sem pedir desculpa: sou estrangeira. Dizê-lo em português quase correcto, sem abandonar esta língua. Declarar que esta língua também é minha, apesar de ser em mim desafinada. Substituir o poema com “uma outra” poema, sem querer, e reclamar o meu direito de errar. Preciso de gritar que o português é também meu, apesar de todas as palavras entupidas dentro de mim.

Da mesma forma que este momento quis negar-me a língua portuguesa e recusar que nela permaneça, outro quis opor-se ao meu acto espontâneo de espalhar as minhas palavras árabes pelas ruas. Não gostou que a minha andança árabe viajasse assim tão livremente. Interrompeu a minha chamada telefónica e os meus sons guturais para dizer: “ó meu rico Salazar”. As minhas palavras desconhecidas são para ele uma ameaça.

Saber duas línguas significa o poder de conhecer dois mundos, algo que deve ser oprimido por um qualquer Salazar. Este poder foi também oprimido pelo colonialismo português, que forçou o esquecimento das línguas maternas e impôs apenas o português. Em alguns países, as mulheres resistiram a este apagamento, inscrevendo canções nas suas línguas nos panos que cobrem as suas famílias. Eu resisto, continuando a falar a minha língua árabe na minha Lisboa. Poderão interromper as minhas frases, mas nunca a minha língua materna.

Terá sido também uma pessoa que vê a língua árabe como ameaça que há cerca de duas semanas despejou o seu ódio nas janelas de uma mercearia do Médio Oriente, precisamente ao lado da palavra escrita em letras árabes e latinas Zaytouna. Imagino que as outras lojas ao lado, igualmente árabes, não representam a mesma ameaça, sendo as suas janelas, para essa pessoa, “limpas” de qualquer língua impercetível.

Através da língua se constrói um certo tipo de nacionalismo que deseja uma nação “pura”, livre de quaisquer vestígios de outras línguas ou sotaques exteriores. É um pensamento que pretende oprimir através da língua. No seu livro Nationalism and the Imagination (2010), Gayatri Spivak defende que o nacionalismo define até a nossa língua, tornando-a num assunto da nação. É necessário confrontar a identidade nacionalista fixa através da criação de uma nova memória colectiva cultural utilizando o mesmo método: a língua. Enquanto valoriza a centralidade da língua materna, Spivak defende que esta não seja a referência única. Aprender mais do que uma língua é uma das suas propostas para reinventar o nacionalismo e restaurar o mapa do mundo.

É preciso lutar contra o poder da língua através das línguas no plural. Sem abandonar uma língua, é necessário desmontá-la, abrindo-a a outros espaços e pessoas. O que mais perturba as forças nacionalistas xenófobas são as línguas que imigram para outros lugares e para outros corpos, sem respeitar a imposição de fronteiras reais ou imaginárias. Estas línguas, ditas fora do seu local e fora do seu estado materno, são um acto de entrega do “eu” à “outra” pessoa dentro da sua língua. Estas línguas são um espaço de encontro. Apesar de eu ser dividida entre duas línguas, sou inteira. Apesar das minhas línguas existirem em mim em simultâneo, não tenho dúvidas. Apesar das minhas palavras serem híbridas, também são híbridos os meus sonhos e os meus pensamentos. Apesar das minhas línguas estarem sempre em construção, também o está a minha vida e o meu corpo. Apesar das minhas letras serem hesitantes, aparentemente impotentes, são a minha força. Misturam-se entre si, sem que eu saiba qual delas é a minha casa. As minhas línguas são o meu lugar de ser. A minha resistência está na ponta da língua, está na ponta das minhas línguas.

-Sobre Shahd Wadi-

Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010).  Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua. 

Texto de Shahd Wadi
Fotografia da cortesia de Shahd Wadi
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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