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A resistência que dança: Capoeira e Danças de Rua como expressões de liberdade e identidade

O Teatro do Bairro Alto (TBA), em Lisboa, acolheu em junho, o projeto OU.kupa, uma celebração das danças que cruzam África, EUA e Lisboa. Com a curadoria de Piny, coreógrafa, dançarina contemporânea independente e fundadora da Dance Company Orchidaceae Urban Tribal, seis performances foram apresentadas nesta programação, incluíndo uma de Lúcia “Baronesa” Afonso.

Texto de Redação

Lúcia Afonso | @JAFUNO

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Capoeirista e bailarina, de origens angolanas, a perfomance de Lúcia Afonso tem o título de “Volta ao Mundo” e aborda os temas de ancestralidade e identidade, com foco na diáspora negra. No espetáculo, Lúcia procura transmitir uma mensagem de resistência, força e desafio às narrativas coloniais através da linguagem das danças de rua e clubbing. É um ponto de continuidade na linha do tempo iniciada pelos ancestrais. A artista acredita na potencialidade destas expressões artísticas, sem a necessidade de recorrer a transformações gourmet para aliciar o “consumo” de quem da cultura se apropria descartando as ligações identitárias e culturais.

Sobre o OU.kupa, este visa preencher as lacunas na história da dança em Portugal, dando destaque às expressões culturais afrodescendentes, especialmente às danças de rua e clubbing. O projeto busca preservar a história e a memória dessas danças e promover o reconhecimento e a valorização dos artistas.

Conta-nos um pouco sobre o espetáculo “Volta ao Mundo”. No que consiste e qual é a mensagem que procuras transmitir?

A volta ao mundo na capoeira acontece enquanto estamos a jogar, é um momento que podemos parar de jogar, refletir, respirar, procurar um novo início, e que reverenciamos os nossos ancestrais, que são o elo na transmissão do conhecimento. A volta ao mundo é feita, sempre, no sentido contrário aos ponteiros do relógio, e através do canto, gestos e movimentos da linguagem das danças de rua e clubbing procuro o sentimento de continuidade com o passado.

Numa ligação histórica entre o continente africano e as suas diásporas é na diáspora negra que surgem as raízes da capoeira e das danças de rua e Clubbing, fruto das migrações forçadas de pessoas de diferentes culturas africanas. Essas diásporas não são entidades fixas, mas sim fluidas e em constante evolução. A Capoeira, o Breaking e o House são culturas que permitem que os corpos historicamente marginalizados ocupem espaços de poder e se afirmem. Através desta performance, quero expressar resistência, força, e desafiar as narrativas coloniais. O OU.kupa, com curadoria da Piny, oferece um espaço de liberdade criativa, onde é possível explorar diferentes formas de exprimir e dar um novo significado ao passado colonial, assim como refletir sobre as questões sociais contemporâneas. Esta liberdade criativa também passa por não ter de alterar os códigos ou os movimentos, o que acontece regularmente em Portugal. Acredita-se que o nosso trabalho serve, a nossa cultura serve, mas nós “de dentro da cultura” não servimos. Muitas vezes temos de alterar o nosso próprio vocabulário, não em função da mensagem, mas em função do que vai agradar a quem não conhece e nem pretende conhecer. Os estilos são apropriados e transformados, quase sempre com uma intenção e sugestão de algo novo, um movimento gourmet, mas que será consumido apenas por quem tem esse poder de consumo.

Fiz um percurso de duas décadas, grande parte dele foi fora de Portugal, e tive as melhores experiências a nível artístico e profissional. Fui forçada a sair de Portugal para poder fazer o que realmente gosto, utilizar a linguagem destas danças, as minhas danças. Quero transmitir a valorização da capoeira, das danças de rua e clubbing. A minha mensagem destaca a importância de preservar a identidade cultural, resistir às narrativas coloniais e oferecer um espaço de liberdade criativa para expressar e valorizar as práticas culturais e artísticas que representam a diáspora negra e as suas conexões históricas.

O espetáculo aborda temas como ancestralidade e identidade, com foco na diáspora negra. Como esses temas influenciam a tua arte e qual é a importância de conhecê-los e reverenciá-los?

A ancestralidade e a identidade estão intrinsecamente ligadas às minhas raízes culturais e históricas. Ao explorar estes temas na minha arte, estabeleço uma conexão profunda com as minhas origens, reafirmo a minha identidade e fortaleço a minha expressão artística.
A minha raiz cultural e artística cresceu e desenvolveu-se sempre com uma forte transmissão de valores e costumes, que criou uma consciência que me faz acreditar na preservação da cultura e das tradições permitindo que a herança cultural seja transmitida às gerações futuras e protegida da assimilação cultural. Ao explorar estes temas, o meu trabalho pode ser uma forma de empoderamento para as comunidades da diáspora negra. E pode desafiar estereótipos à volta das danças de rua e clubbing, subverter as narrativas coloniais e permitir dar um novo significado de histórias e identidades que ao longo da História foram marginalizadas. O meu trabalho procura introduzir uma nova linguagem e futuramente facilitar o diálogo intercultural.

Como é que as tuas raízes se refletem na tua abordagem?

As minhas raízes têm uma influência significativa na minha abordagem artística e no trabalho com danças de rua e clubbing. Por exemplo, a capoeira para mim é uma grande inspiração cultural, ou a história, a música, as tradições e práticas culturais do universo afro-brasileiro moldaram imenso o meu estilo de dança e a minha filosofia de vida. Estas raízes das danças, as académicas, as de rua, as de clubbing, as do mundo trazem uma grande bagagem de técnicas de dança tradicionais e movimentos específicos que são autênticos e enraizados na herança cultural. São raízes que sustentam as minhas histórias pessoais e fortalecem a minha dança. As minhas experiências vividas, os desafios superados e os valores transmitidos pelas comunidades, são a base para desenvolver o meu trabalho artístico. Ao incorporar elementos das minhas raízes culturais, posso fortalecer o meu sentimento de pertença e contribuir para a representação e a visibilidade das danças de rua e clubbing e as comunidades envolvidas.

O objetivo principal do projeto é preencher as lacunas existentes na história da dança em Portugal, especialmente nas narrativas, corpos e estilos de dança que têm sido marginalizados ou ausentes da programação institucional do país.

Lúcia Afonso

Além do espetáculo “Volta ao Mundo”, também és co-fundadora do projeto OU.kupa. Pode falar-nos mais sobre esse projeto e a sua importância na criação e partilha das danças urbanas?

O projeto OU.kupa é da Piny Orchidaceae e é uma iniciativa de grande importância em Portugal. O objetivo principal do projeto é preencher as lacunas existentes na história da dança em Portugal, especialmente nas narrativas, corpos e estilos de dança que têm sido marginalizados ou ausentes da programação institucional do país.
O OU.kupa tem como objetivo ampliar a perspetiva da dança em Portugal, explorar linguagens e estilos que surgiram em contextos informais, como as danças de rua e o clubbing. Estas danças têm influências tanto do continente africano como americano, e são moldadas pelos complexos processos de desconstrução colonial que tanto Portugal quanto a Europa enfrentam.

Ao focar nos estilos como o Breaking, Popping, Locking, Hip-Hop, Waacking, House, Vogue e Krump, o OU.kupa dá voz e destaque às expressões culturais afrodescendentes, que têm uma origem direta nas diásporas africanas e nos processos migratórios e coloniais. Além disso, o projeto também investiga danças mais recentes, como o kuduro e o afro house, que possuem relações específicas coloniais.

O projeto é impulsor ao reunir, organizar e disponibilizar materiais relacionados a essas danças em Portugal. O material coletado inclui memórias, vídeos, fotos e outros documentos, muitos dos quais estão dispersos e não organizados. Ao criar um arquivo e uma plataforma para a partilha desses materiais, o OU.kupa contribui para preservar a história e a memória dessas danças, bem como para incentivar o estudo e a pesquisa sobre elas. Também impulsiona produções artísticas e promove o reconhecimento e a valorização dos artistas que trabalham nesses estilos.

O projeto desempenha um papel importante na promoção da diversidade e inclusão no campo da dança. Ao trazer à tona a história e as práticas das danças de rua e clubbing, o OU.kupa desafia a hegemonia das formas de dança mais tradicionais e amplia o espectro de representação e reconhecimento das diferentes identidades culturais.

Como descreverias a importância da dança de rua e do espaço urbano na construção da história da dança? Quais são os desafios enfrentados por essas linguagens artísticas em termos de reconhecimento e visibilidade institucional?

A dança de rua e clubbing e o espaço urbano desempenham um papel fundamental na construção da história da dança, trazendo uma perspetiva autêntica e vibrante para o campo artístico. Essas formas de expressão emergiram nas ruas, praças e clubes, muitas vezes como manifestações espontâneas da cultura jovem e marginalizada. Ao longo do tempo, elas evoluíram e consolidaram-se como linguagens artísticas ricas e diversificadas. Uma das principais contribuições da dança de rua, clubbing e do espaço urbano é a capacidade de refletir as experiências e realidades das comunidades locais. Elas carregam consigo as narrativas e as expressões culturais das pessoas que as praticam, incorporando elementos de diferentes contextos étnicos, sociais e culturais. Dessa forma, a dança de rua, clubbing e o espaço urbano são veículos poderosos para a representação e a celebração da diversidade cultural. E ainda essas formas de dança trazem consigo uma dimensão de resistência e empoderamento. Muitas vezes surgem em comunidades marginalizadas, oferecendo uma plataforma para que os indivíduos se expressem, reivindiquem o seu espaço e contestem as normas estabelecidas. A dança de rua, clubbing e o espaço urbano tornam-se espaços de liberdade e de afirmação identitária. Mas, apesar da importância dessas linguagens artísticas, existem desafios significativos em termos de reconhecimento e visibilidade institucional. Muitas vezes, a dança de rua, clubbing e o espaço urbano são marginalizados ou estigmatizados, sendo considerados como formas de entretenimento de menor valor ou como atividades informais e não académicas. Essa falta de reconhecimento institucional pode resultar em dificuldades para obter financiamento, acesso a espaços de apresentação e oportunidades de formação e profissionalização. Deparamo-nos também com o desafio de serem apropriações comerciais e diluições da sua essência original. O processo de comercialização destas formas de dança pode levar à perda da sua autenticidade e à descaracterização da sua mensagem e propósito originais. É fundamental encontrar um equilíbrio entre a popularização e a preservação das raízes culturais e políticas destas danças. Outro desafio importante é a falta de visibilidade em espaços institucionais. A dança de rua, clubbing e o espaço urbano são frequentemente sub-representados em programações artísticas, festivais e veículos de comunicação. Isso limita as oportunidades de divulgação e reconhecimento para os artistas e grupos envolvidos nestas práticas.

Superar esses desafios requer esforços coletivos, envolvendo artistas, pesquisadores, instituições culturais e governamentais. É necessário promover a valorização e o respeito pela dança de rua, clubbing e pelo espaço urbano como formas legítimas de expressão artística, dando apoio à sua preservação e formação. O reconhecimento institucional da dança de rua, clubbing e do espaço urbano passa pela inclusão dessas formas de expressão nos currículos de ensino da dança, pela criação de espaços e eventos dedicados especificamente a essas práticas e pelo apoio financeiro e logístico para a sua produção e circulação. É ainda essencial que haja um diálogo contínuo entre os artistas e os responsáveis pelas políticas culturais, de forma a garantir que as necessidades e pedidos dessas comunidades sejam ouvidas e atendidas.

Torna-se iminente um esforço conjunto para combater o preconceito e a discriminação em relação à dança de rua, clubbing e ao espaço urbano. A superação de estereótipos negativos e a promoção de uma compreensão mais ampla e informada sobre essas práticas contribuem para a sua valorização e aceitação em diferentes contextos.

A dança de rua, clubbing e o espaço urbano desempenham um papel crucial na construção da história da dança, trazendo uma voz única e autêntica para o cenário artístico. Através das suas expressões corporais e movimentos, essas formas de dança capturam a essência das culturas e tornam-se uma forma de resistência, empoderamento e transformação social. Reconhecer e valorizar a importância da dança de rua, clubbing e do espaço urbano é fundamental para promover a diversidade cultural, a inclusão e a criação de um diálogo enriquecedor no campo da dança.

Como foi a tua experiência de fazer parte de companhias de dança, como a Dyptik e a Orchidaceae? De que maneira essas experiências influenciaram o teu desenvolvimento artístico?

As Orchidaceae surgiram na minha vida através das Butterfliesoulflow, um grupo de Hip hop com a Piny e a Leo, com quem iniciei o meu percurso dentro do mundo das danças de rua e clubbing. Esta foi a minha porta para iniciar o meu percurso. Mais tarde, a Piny criou as Orchidaceae e o convite surgiu numa altura em que eu estava numa transição entre Paris e Lisboa. Esta é com certeza a minha definição como um corpo ativo e político dentro da dança. Após a minha formação académica em Paris, a minha primeira companhia de dança foi a Part Être da coreografa Tishou Aminata Kane, esta foi a primeira vez onde senti que não precisava de mudar a minha dança para ser aceite no mundo profissional, senti sim que deveria ser uma artista muito versátil e completa. Penso que devido à minha formação, não só dentro da área das danças académicas e das danças de rua, o teatro, canto, os musicais foram ferramentas essenciais. Durante a formação em Paris fiz estágios em óperas, musicais, fui estagiária da companhia de dança Hip Hop do coreográfo Bruno Marignan residente num teatro em Paris. No final da formação trabalhei como bailarina na Disneyland Paris, fui trabalhando em diversos projetos de professores, e fui criando uma rede de Trabalho. Com a companhia A Part Être foi a minha experiência com inúmeros festivais entre os quais destaco, Urban Moves na Noruega, Fira Tarrega em Espanha, Festival Hautes Tensions – Théatre Paris-Villete, Chalon Dans la Rue, Pôle Pik, Halle aux Cuirs, Wip de la Villete, Concours chorégraphique Beaumarchais-SACD / CCN de Créteil e o famoso Centre de Danse du Galion, onde a companhia era residente. Tive também as minhas experiências como artista ativista, entre as tours internacionais destaco a nossa participação no Festival Internacional Ni com el Pétalo de una Rosa, em Bogotá, na Colômbia, onde a nossa intervenção em frente do parlamento, na Praça Bolivar, reuniu três mil mulheres, e a nossa performance com a linguagem das danças de rua se tornou numa ferramenta poderosa para questionar e reivindicar o feminicídio. Estimulado pela ação coletiva, foi aprovada a lei Rosa Elvira Cely. Este foi um momento muito marcante para o meu desenvolvimento artístico. Aqui identifiquei que tipo de artista eu quero ser e de que forma posso contribuir para a construção de um mundo mais justo e inclusivo. Com a Companhia Dyptik, também em França aprendi a conhecer-me e a acreditar em mim. Fui convidada para trabalhar nesta companhia assumindo as funções de bailarina intérprete, coordenadora da escola de dança e dos projetos de mediação cultural. Foi um momento importante que me deu experiência na área da organização e gestão de projetos relacionados com as danças de rua e clubbing. Foi um sonho poder trabalhar em palco, nos estúdios, nos projetos, organizar eventos de dança, dar aulas e fazer mediação cultural, orientar os estagiários de animação sociocultural Hip Hop. Trabalhei mesmo muito e fiz imensas coisas que eu nunca pensei ter capacidades para fazer. Fiz muitas tours, até ao ponto de ficar mesmo cansada de fazer as peças quase todos os dias, fiz imensas residências artísticas que me ensinaram muito sobre o processo criativo de uma peça com estas danças, dancei em muitos festivais como o HipOpSessions em Nantes, fiz parte da equipa de produção do Festival TRAX, estive em residência artística em lugares incríveis como o Mali e Marrocos. E dentro de todas as companhias também destaco a Ella Mesma Company em que a coreografa Ella Mesma aborda a identidade, género e outras questões pertinentes através da linguagem das danças de rua, danças afro brasileiras e ainda afro cubanas. Estivemos em residência artística no Sadler’s Wells e também participamos no ITM UK Dance Festival. Recentemente apresentei o meu primeiro solo através de uma open Call no Festival LOOP, em Santa Maria da Feira, no Festival Paralelo no Açores, e foi selecionado para o Theater Forever contest do conhecido Festival Summer Dance Forever.

Estas experiências ampliaram as minhas habilidades e conhecimentos, proporcionando- me uma compreensão mais abrangente do mundo da dança e a capacidade de se envolver em diferentes aspetos da produção artística. As experiências foram fundamentais para o meu desenvolvimento artístico, foram as experiências ativistas e a conexão com diferentes culturas e contextos sociais que fortaleceram a minha consciência política e a minha determinação em utilizar a dança como uma forma de resistência, transformação social e expressão de identidade.

Existe ainda o medo de ser usada porque “até é moda e fica bem para a instituição”, quase como se fosse um projeto de cariz social

Lúcia Afonso

Quais são os desafios e as oportunidades que encontras no atual cenário artístico português? A tua afrodescendência acrescenta desafios, facilita a tua presença nesse cenário ou não é sequer uma questão?

Em termos de desafios, a representatividade afrodescendente ainda é limitada no cenário artístico português. A falta de diversidade étnica e cultural em certos espaços e instituições pode resultar em barreiras para artistas afrodescendentes, incluindo menor visibilidade e oportunidades limitadas. Na realidade, sinto que esse lugar não me pertence, e não tomo iniciativa porque sei que além da minha afrodescendência também tenho o rótulo das danças de rua e ainda, além destes pontos, não estou inserida em nenhuma rede institucional, ou digamos que não conheço as pessoas certas? O envolvimento ativo em certas redes e movimentos pode abrir portas, mas questiono-me se quero mesmo fortalecer a minha presença no cenário artístico português.

Sinto que este espaço não me faz sentir confortável e que me faz questionar se realmente gostaria de trabalhar de novo como trabalhei em França. A resposta até agora é sempre que prefiro voltar para França ou qualquer outro projeto fora de Portugal do que ir fazer uma audição ou candidatar-me a alguma coisa. Com a experiência que tenho, grande parte das pessoas que estão nestas instituições não (re)conhecem o percurso que fiz. E com isto falo sobre os nomes dos festivais em que estive, os coreógrafos ou companhias com quem trabalhei, as escolas ou projetos que fiz para ter uma boa formação. Quantos bailarinos profissionais em Portugal, tiveram a oportunidade de estudar as danças de rua numa escola reconhecida pela Estado? Quantos bailarinos de danças de rua profissionais frequentaram uma formação de Hip Hop profissional? Ou até, quantos trabalharam com um contrato profissional, e foram intermitentes do espetáculo? Quantos receberam subsídios de férias?

Ainda dentro dos desafios, existe ainda o medo de ser usada porque “até é moda e fica bem para a instituição”, quase como se fosse um projeto de cariz social, vamos ajudar não porque tem valor, mas sim porque não tem nada. O nada desvaloriza-se muito. No entanto, a afrodescendência também pode trazer oportunidades. À medida que a sociedade portuguesa se torna mais consciente da importância da diversidade e da inclusão, há uma crescente demanda por vozes e perspetivas afrodescendentes no mundo artístico. Um grande exemplo é este na curadoria do Festival OU.kupa, a Piny. A Piny, que ao longo dos anos, está numa luta incrível, é uma mulher muito talentosa, forte e inspiradora. Conheço-a desde os meus 14 anos, e acredito que é um exemplo para muitas instituições, programadores, e para a nossa comunidade da dança. Ela tem um coração enorme e é um ser humano incrível. Têm um trabalho único, e a sua identidade e sensibilidade artística podem oferecer uma abordagem distinta e autêntica às suas performances e criações artísticas, o que está a ser valorizado e apreciado pelo público e pela comunidade artística, mas acredito que merece muito mais.

Existem iniciativas e movimentos que procuram ampliar a representação afrodescendente nas artes em Portugal. Podia haver mais iniciativas a trabalhar para romper com as estruturas dominantes e criar espaços mais inclusivos para artistas afrodescendentes, oferecendo oportunidades de exposição, financiamento e colaboração.

Planos e projetos futuros, ou que envolvam este “Volta ao Mundo”, que possas partilhar?

Na realidade sinto-me muito exausta, mas feliz. Fiz uma licenciatura, enquanto coordenava projetos BIP-ZIP, dei aulas, procurei sempre fazer formação, dinamizei várias atividades para a comunidade da dança, procurei estar sempre ativa dentro desta comunidade a nível nacional e internacional, fiz mentoria de jovens bailarinos, comecei a minha jornada como DJ, e neste momento estou a fechar ciclos. Terminei a minha licenciatura de Antropologia no ISCTE, tenciono fazer um mestrado em Estudos e Gestão da Cultura. O projeto MOS após três anos de apoio da Câmara de Lisboa no Programa BIP-ZIP vai agora continuar sem este apoio, decidimos fechar este ciclo justamente pela dificuldade e falta de conhecimento por parte da Câmara de Lisboa sobre as danças da cultura Hip Hop e Clubbing. Seguimos fortalecidos, o projeto iniciou-se em 2012 e o processo de crescimento foi das coisas mais bonitas que vi na minha vida. Temos novos objetivos e precisamos agora de nos preparar para novas oportunidades. Até setembro ainda temos atividades a decorrer. Venham conhecer o nosso projeto na Alta de Lisboa. Volta ao Mundo provavelmente vai candidatar-se a festivais, provavelmente, internacionais e dentro da área das danças de rua e clubbing, em Portugal ainda não existem datas confirmadas.

Como Antropóloga quero trabalhar dentro desta área, e continuar a desenvolver trabalho de pesquisa dentro da área das artes performativas e das danças de rua em Portugal. Espero continuar a contribuir para o trabalho desenvolvido pelo Festival OU.kupa. As próximas datas na agenda são OU.kupa, Emirados Unidos, RedBull Dance Your Style Qualificações Portugal, Qatar, Portugal, França e UK.

Que conselho darias a jovens artistas que desejam seguir uma carreira na dança, especialmente aqueles que se identificam com a diáspora negra e desejam explorar as suas raízes culturais na sua arte?

A todos os jovens artistas que desejam seguir uma carreira na dança, o conselho que dou é virem até à MOSJAM Associação Cultural e Artística [fundada por Lúcia e Dougie Knight], na Alta de Lisboa. Em 2022, oferecemos uma bolsa internacional, no valor de 4200€ a uma jovem afrodescendente, a Lúcia Oliveira, e sentimos um orgulho muito grande no seu percurso, agora também em França ao longo dos últimos meses. Esta bolsa paga os dois anos da formação Passeur Culturel em Cergy, França, com o diretor artístico Physs Almeida, também afrodescendente, os dois com origem cabo-verdiana. Também oferecemos uma bolsa nacional, para a melhor, e se não única, formação de danças de rua e clubbing em Portugal. Criamos em 2023 uma bolsa de mentoria e participação, onde os participantes definem objetivos em conjunto com os mentores, entre os objetivos estão as competições, as chamadas “battles” nacionais e internacionais. Oferecemos ainda duas bolsas de formação no My House Camp organizado por Mamson em França, com professores internacionais, workshops, jams, battles, práticas, debates e convívio, esta formação vai decorrer em setembro de 2023. Ao longo dos últimos anos criamos workshops, mais recentemente de DJ, e de produção musical para quem dança. Temos uma atividade dedicada a formação de jovens animadores socioculturais especializados na área do Hip Hop e das danças da cultura. Organizamos e dinamizamos eventos e workshops ao longos dos útimos anos, sendo a próxima battle dia 17 de Junho no B.leza dentro do festival OU.kupa. Já em 2021, incentivamos os jovens à criação artística e nasceu a incubadora MOS, onde fizemos os nossos primeiros processos criativos e os trabalhos foram apresentados ao longo de 2022 em diferentes espaços na área de Lisboa.

*Esta entrevista foi publicada no âmbito da parceria com a Bantumen.

Entrevista feita por Vanessa Sanches

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