A sensação de urgência empurra-nos para os actos. Temos de reagir, de estar prontos, de responder rápido. Salta-se a fase de ponderação e passa-se, directamente, para a etapa da concretização. O que, nem sempre, corre bem.

A asfixia do imediato tolda-nos o discernimento e transforma o bom senso em mau senso. Tomamos decisões frágeis no conteúdo, escondidas na aparente força da rapidez. Sem a proteção do tempo, esse enorme depurador de ideias, arriscamos a dar protagonismo aos equívocos.

Tendemos, ainda, a proteger, mais tarde, os julgamentos que fizemos, mesmo se foram feitos em cima do joelho. Quando chega a clarividência do tempo, é natural que resistamos quando nos confrontamos sobre a qualidade das decisões passadas.

Tudo isto tem enormes implicações na gestão de crises. A existência de planos específicos pré-preparados para sabermos como devemos reagir é a melhor forma de combater o problema da urgência irreflectida. Algo que habitualmente já está consagrado para um incêndio, para um corte de energia, para uma tempestade, mas que, até hoje, não existia de uma forma organizada para uma pandemia.

Por outro lado, a existência de uma estratégia macro serve de primeira defesa num momento como este. Pode não haver um plano específico para dar resposta a uma escola que tranca as portas, mas é já um primeiro passo se existir uma estratégia de educação. Pode não haver um plano específico para o fecho de uma loja, mas já é um primeiro passo se existir uma estratégia empresarial. Pode não haver uma solução imediata para o encerramento de um teatro, mas já é um primeiro passo se existir uma estratégia para a cultura.

É óbvio que existem momentos de socorro, para os quais precisamos de respostas instantâneas, não o contesto. Mas conseguir encontrar um intervalo para pensar, mesmo no centro de uma emergência, é fundamental. Apenas o pensamento nos distingue dos outros animais. Intuição todos temos.

Reflectir é, por isso, uma responsabilidade. Diria mesmo que é uma obrigação para quem tem a sorte de sentir que pode ajudar a melhorar alguma coisa. Mesmo que seja apenas uma pequena parte.

Como sentimos este encargo, decidimos lançar o Oeiras Ignição Gerador, um festival online que promove reflexões descontraídas e pertinentes sobre o futuro da cultura e da criatividade. Fazemos esta iniciativa em conjunto com o município de Oeiras, cidade candidata à organização da Capital Europeia da Cultura em 2027, porque, desde o início, se revelaram empenhados no objectivo de construir uma arena aberta para discussão de princípios.

Reflectir, exige, em primeiro lugar, auscultar. Por isso, fomos ouvir as pessoas. A segunda edição do Barómetro Gerador Qmetrics, o estudo de mercado que pretende saber a opinião dos portugueses sobre cultura, foi totalmente redesenhado para apurar a reação do país à pandemia e às suas consequências.

As mais de 1.200 entrevistas que realizámos, já depois do início deste período pandémico, deram-nos informação crucial para sabermos como deveremos dirigir os próximos tempos. Estamos, neste momento, a fazer a interpretação dos resultados para os apresentar publicamente no dia 18 de junho.

Reflectir, obriga, em segundo lugar, a interpelar os especialistas. Por isso, convocámos artistas, autores e pensadores culturais para um fórum comum. Tivemos o cuidado de convidar pessoas de várias dimensões culturais e artísticas, de todo o país e de diferentes segmentos etários.

Vamos dar espaço para cada uma se expressar individualmente, mas também vamos estimular o debate, a liberdade criativa e ousadia performática. Tudo num ambiente descontraído, com cheiro a festival de verão.

Reflectir, implica, em terceiro lugar, apontar conclusões. Por isso, propomos lançar um livro branco nos dias seguintes ao Oeiras Ignição Gerador com a síntese das opiniões de todos os que se pronunciaram, na esperança que possa ajudar à construção de uma visão integrada para a cultura e para a criatividade.

Somos uma entidade que ainda está a aprender, que tem apenas 6 anos de vida e uma vontade enorme de poder contribuir. Temos consciência das nossas limitações, mas assumimos a nossa quota parte neste processo, criando as condições para uma reflexão plena e plural.

Mas esta responsabilidade é de todos. Das pessoas e dos agentes culturais. De quem define políticas e de quem cria iniciativas. Dos artistas e do público. Precisamos de todos para conseguir chegar aos caminhos certos.

Juntem-se a nós nesta reflexão.

Participa aqui.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Começou a trabalhar aos 22 anos na Telecel e, pouco depois da mudança de marca para Vodafone, resolveu ir fazer estragos iguais para a PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca. Hoje é o Presidente da Direção do Gerador, a plataforma que leva a cultura portuguesa a todos.