António Luís Campos é o autor do novo livro  Nomad, “Crónicas da Atlântida”, lançado ontem na Central Gerador. A obra do fotojornalista é o resultado de um projeto documental sobre o arquipélago dos Açores onde este registou o quotidiano dos habitantes das suas 9 ilhas.

Embora tenha feito uma planificação prévia assente na investigação jornalística, o inesperado é um dos ingredientes principais deste livro, cujo objetivo é traduzir, por meio de fotografias e texto, o que qualquer viajante pode esperar depois de chegar aos Açores.

António Luís Campos é fotojornalista da revista National Geographic Portugal, líder de viagens aventura na agência Nomad e integra o coletivo 4SEE Photographers. A minutos do início do lançamento do seu livro “Crónicas da Atlântida”, sentou-se connosco nas cadeiras que mais tarde seriam ocupadas por aqueles que tiveram curiosidade em saber mais sobre esta reportagem de viagem onde o autor procurou mesclar os instantes inesperados com os traços que melhor definem cada uma das ilhas para nos contar tudo sobre o seu mais recente trabalho.

Gerador – O que te levou a iniciar um projeto documental sobre o Arquipélago dos Açores?

Resposta – Sempre fui um apaixonado pelos Açores. Inicialmente comecei por fazer fotografia de natureza. Com o tempo comecei a perceber que há muita coisa sobre a componente natural dos Açores, mas muito pouco sobre o património humano. Continuam a subsistir muitos mitos sobre como é viver numas ilhas que eu, de alguma forma, quis desconstruir. Acho que o património humano é realmente algo que é fantástico nos Açores e que a maior parte das pessoas não tem a noção que existe de uma forma tão intensa.

G. – Qual foi o percurso que fizeste durante os 2 anos de viagem?

R. – Fui e vim várias vezes. O livro está organizado de este para oeste, da maior (ilha) para a mais pequena em área, mas não foi essa a ordem das visitas. Ia visitando à medida que podia. Tentava rentabilizar ao máximo as viagens. Ou seja, quando ia para uma ilha e havia ilhas perto fazia aquele conjunto. Houve ilhas onde só fui uma vez, outras em que fui repetidamente, também por outros motivos de trabalho, então aproveitava e ficava mais uns dias e fotografava para o projeto.

G. – Durante estes 2 anos de trabalho qual foi a marca do quotidiano dos habitantes das ilhas que mais te marcou?

R. – Acho que é uma sabedoria de vida relativamente aos elementos e à forma como a componente antrópica se pode relacionar com a componente natural. Acho que as pessoas têm uma sabedoria de vida. Por vezes, cá as pessoas com o stress saem de casa e está a chover e ficam chateadas. Lá há uma expressão que eu gosto muito: “não gostas do tempo nos Açores? Senta-te meia hora e espera”. Realmente lá o tempo muda tanto que, salvo alturas piores, há uma relação muito interessante das pessoas com os elementos.

G. – De que forma é que o inesperado se expressou nesta jornada?

R. – Houve muita coisa e gente que conheci que não surgiram de uma maneira organizada. Quando parti para as viagens pré organizei-me para tentar que o tempo fosse o mais produtivo possível, porque havia histórias que gostava de seguir e aprofundar, mas deixei sempre tempo na programação para que houvesse espaço para o inesperado. Então, muitas vezes ia à beira da estrada, via alguém, metia conversa e ficava ali horas, outras vezes uma manhã ou tarde, ou voltava no dia seguinte. Este inesperado foi algo que fez parte do projeto e muitas das imagens que eu tenho foram de coisas que foram algo fortuitas e que eu fiz o melhor possível para aproveitar naquele instante.

G. – Este também é um trabalho de investigação jornalística. Quais foram as tuas maiores descobertas?

R. – O meu objetivo era documentar, não propriamente investigar. Houve coisas que eu não sabia que funcionavam de uma certa forma. Por exemplo, na altura em que fui tinha havido um dos grandes lay-offs na base das Lages na Terceira e eu queria fotografar a base das Lajes, embora sendo uma unidade semimilitar, ainda por cima com os americanos lá. Imaginei que isso fosse difícil. Acabou por não ser nada difícil. Demorou 15 minutos a ter autorização, porque conheci uma rapariga que era militar. Ela disse para eu mandar um email para as relações públicas e passado meia hora tinha o sargento a ligar e a perguntar quando queria lá ir. Percebi, por exemplo, que o controlo do tráfego aéreo na base das Lajes é feito por equipas militares mistas – portuguesas e norte-americanas. A gente tem um bocado a ideia que os americanos tomam conta daquilo tudo… claro que se houver alguma divisão de opiniões é possível que eles tenham mais força (risos). Mas efetivamente são equipas mistas e eu assisti a isso e fotografei.

G. – Um viajante que embarque numa aventura com mente e coração abertos, disponível para observar, escutar e conversar é um viajante com uma experiência mais completa?

R. – Sem dúvida. Este também era um dos desafios que tinha com o projeto, que é, sendo eu um viajante profissional, procuro sempre instigar aquela perceção de que é diferente ser viajante ou ser turista. Mesmo com um espaço de tempo reduzido nós podemos ter uma atitude de turista ou de viajante. Nos Açores é o paraíso para os viajantes, porque muito facilmente conseguimos ter um contacto próximo com as comunidades locais e podemos aterrar e meia hora depois estar em casa de alguém a conversar sobre a vida. Isto é realmente uma riqueza fantástica e eu tentei, de alguma maneira, mostrar que quem quiser e vá de coração aberto e disponível para ouvir, para conversar e meter conversa vai ter experiências de viagem fantásticas nos Açores.

G. – De que forma é que se consegue entrar na esfera íntima das pessoas com quem te cruzas?

R. – Acho que é uma questão de humildade e curiosidade. Se nós tivermos uma curiosidade genuína de procurar saber como as pessoas vivem, o que as move, perceber como são as suas vivências, o seu quotidiano, as pessoas vão perceber também que esse interesse é verdadeiro e vão retribuir. É aquele princípio da ação-reação. Claro que se formos com uma atitude sobranceira ou medrosa é natural que as pessoas também não reajam tão bem ou de uma forma tão aberta. Mas nos Açores, sobretudo não havendo o problema da língua, é bastante fácil, apesar de eles não serem particularmente abertos. Mesmo historicamente sempre estiveram mais isolados e não havia muito contacto com os forasteiros até há 30 ou 40 anos. Portanto, acho que é uma questão de mostrarmos que vimos por bem, que temos curiosidade e as pessoas facilmente nos aceitam.

G. – Não se assustam quando te vêem com uma máquina fotográfica?

R. – Não muito. Sempre que possível, também não entrava com a máquina em punho. Muitas vezes tinha a máquina no saco, mochila ou carro e metia conversa, combinava as coisas e depois dizia que tinha ali a máquina e tal… já que aqui estamos podíamos tirar umas fotos! Portanto, não havia aquela sensação de predador que chega com a máquina e começa a disparar a torto e a direito. Claro que houve situações em que o inesperado estava ali e eu fotografei, sobretudo quando era com muita gente e não era uma foto tão pessoal e uma pessoa entrava facilmente com a máquina fotográfica.

G. – No teu livro a palavra e a fotografia complementam-se. É esta uma relação de visível e invisível? Ou seja, a fotografia surge para retratar o que os olhos veem e a palavra para tentar explicar o que se sente perante essas imagens?

R. – Sem dúvida. Tenho opiniões ambíguas relativamente àquela máxima de uma imagem valer mil palavras. Há imagens que são realmente poderosíssimas e que têm um impacto que as palavras não conseguem ter, mas também há imensas imagens que ganham imenso quando têm um contexto. Por melhor que seja o fotógrafo há coisas que não se dizem e não se conseguem fazer transparecer nas imagens. Por isso, procurei sempre que, embora o texto seja secundário relativamente à imagem, fizesse parte integrante deste projeto. Todas as fotografias têm legendas razoavelmente desenvolvidas numa perspetiva documental, jornalística. Ou seja, quem é, o que faz, porque é que aquela imagem está ali. Tenho textos de introdução à ilha, que é mais uma parte experiencial minha, mais pessoal, e depois nas legendas é mais objetivo e documental do que está a acontecer naquela imagem.

G. – Podes partilhar comigo uma pequena grande história pessoal que tenhas recolhido durante a viagem?

R. – O livro está divido em 9 ilhas e dentro delas tem uma parte de fotos soltas com legendas próprias e depois tem uma parte de uma história, que foi a que senti ser mais representativa daquela ilha. Há uma em particular, que é a das Flores, que é a história de uma menina, filha de pais franceses, que foi a mais jovem habitante a nascer nas Flores voluntariamente. Os pais fizeram parto domiciliário consciente e voluntário, coisa que ninguém faz atualmente porque não há maternidades nas ilhas mais pequenas. As grávidas têm de ir um mês antes para as ilhas principais. Foi muito giro acompanhar uns quantos dias aquela família. Eles construíram com as próprias mãos a sua casa. Ele tinha sido um fotógrafo de moda em Paris e foi viver para as Flores como corte com aquele estilo de vida. E não eram hippies. Eram pessoas com alternativas de vida diferentes, não mainstream, mas coerentes e integradas na sociedade que as acolhia.

G. – Para alguém que tenha o mesmo gosto que tu em viajar descobrindo histórias e fotografando-as, qual é o conselho que lhe darias?

R. – Acho que hoje em dia com a facilidade de viajar, com a facilidade de comunicação e com a avalanche de informação que existe, aquilo que realmente distingue as experiências de viagem são as experiências que tanto podem ser provocadas por pessoas, ou por contacto com a natureza. Aquilo que eu acho é que quanto mais devagar se anda, mais atentos e recetivos estamos para ter esses contactos e para essas experiências acontecerem. Esse é um princípio que já tenho há muito tempo. Prefiro ir, quando tenho um período de tempo limitado, para menos sítios e estar nesses sítios do que andar a correr de um lado para o outro num stress permanente. Há coisas que sistematicamente acontecem e que pensamos que não temos tempo, mas gostávamos de fazer. Quanto mais tempo tivermos para estar, mais facilmente a experiência vai ser única e nos vão acontecer coisas que não veem nos guias e não estão no instagram. (risos)

G. – O que de melhor retiras desta experiência?

R. – Acho que é a riqueza humana e o quanto as pessoas se dão se nós nos dermos também. Acho que há uma reciprocidade enorme. Tem sido giro, porque depois do livro estar impresso fui aos Açores, levei alguns exemplares e contactei com algumas pessoas que tivessem sido fotografadas. Entretanto, tenho fotos com as pessoas que estão no livro com o livro na mão. É interessante perceber que este dar e receber é uma verdade universal, mas que neste projeto concreto é algo muito óbvio. Sinto que trouxe muita coisa comigo e que estive genuinamente disponível para ouvir as histórias das pessoas e estar com elas. Esta troca é algo que me enriqueceu e espero que, de alguma maneira, também tenha sido positivo para as pessoas com quem me cruzei.

G. – Se pudesses resumir numa frase o que é que um viajante pode encontrar ao aterrar no arquipélago açoriano o que dirias?

R. – Paisagens deslumbrantes que são cenários para histórias quotidianas igualmente deslumbrantes.

Entrevista de Andreia Monteiro

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