Estarei entre os mortos
Quando a porta se abrir.
Depois do silêncio
Deste lugarejo sem nome.
Sobra-me tédio.
Tédio para dar e vender.
Cobre os olhos, o nariz, os ouvidos, a boca, a pele,
Uma pomada sem cor definida
Sensaborona tépida uma cerveja moribunda.
Tudo cala.
Nem oiço o roçar das células umas nas outras.
Acho que se conseguisse ouvir
O ruído do fundo do universo
O maldito estragaria a oportunidade
Silenciando o éter inteiro que rodeia
Os planetas as estrelas e os cometas
Superando em desajeito o mais destrambelhado
Dos basbaques sem voz
Emitindo sons vazios sons esvaziados sons que
Bem espremidos muito bem espremidos
Aos costumes dirão
Nada
Empatando o trinado matinal das aves
Ou a cascata aquosa da descarga sanitária.
Empatas é o que é este ausente ausentado ausentando
Não sei que mais lhe chamar.
Eu aqui remoendo a ausência.
Eu aqui distribuindo jogo para a mesa vazia.
Eu aqui montando a tenda para a noite só.
Eu aqui sem sequer um espelho espelhado.
Eu aqui ausente ausentando ausentado.
Não há nome que exprima esprema esperma
Fecunde enfim
O impronunciável espaço onde
Sucumbo.
Nem remar
Não há sequer com que fazer o barco.
E fugir?
Simplesmente
Fugir.
Ou asas isso
Asas.
Adejar adejar adejar
Para longe
Ou mesmo para perto.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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