O copo menstrual mudou a minha vida. A decisão de optar por este método de recolha menstrual foi simples: é normalmente económico, custa à volta de 30€ e, dependendo obviamente da marca, pode durar até dez anos, o que significa que tão cedo não teria de gastar mais dinheiro em pensos ou tampões. É ecológico – e para mim esta foi a parte mais importante – o que significa que todo o lixo que costumo fazer quando menstruo deixaria de existir. Para quem não se adapta ao copo menstrual, cuja utilização pode ser um pouco desafiante, existem os pensos reutilizáveis: pensos de pano, que lavamos juntamente com a roupa, e que são igualmente económicos e sustentáveis em termos ambientais. Há até quem os faça em casa com tecidos que já não usa, o que os torna ainda mais ecológicos.

Todas as vantagens que me levaram a escolher estes produtos em detrimento dos descartáveis levavam-me a acreditar que estas seriam soluções para toda a gente. Ao longo do caminho, por contactar com tanta gente através do O Meu Útero, aprendi uma lição necessária: eu sou privilegiada por poder usar produtos de recolha menstrual reutilizáveis.

Essa descoberta fez com que começasse a olhar com algum desconforto narrativas que marcas e pessoas usam para impor a sua decisão a outras pessoas: se não escolhes uma opção sustentável, que ainda por cima é económica, estás a agir mal. Ou não te preocupas com o ambiente ou nem sequer te preocupas com a tua carteira.

A alternativa sustentável parece uma solução ideal para qualquer pessoa quando a referência somos nós. O desafio está em olharmos o mundo através de outras lentes e reconhecermos que as experiências das outras pessoas não são necessariamente as mesmas que as nossas.

Há poucos anos, seria constantemente a maior apologista de copos menstruais, discos ou pensos reutilizáveis. Há, no entanto, questões que nos devemos colocar antes de considerarmos que esse é um investimento que deve ser feito: e se o investimento não valer a pena? Por exemplo, a longo prazo, o copo menstrual compensa quando comparado com os valores mensais que gasto em pensos. Mas e se este método não for o ideal para mim? Quantos copos terei de comprar até desistir? Ou até encontrar o certo? Uma vez, uma mulher partilhou comigo que comprou mais de três copos menstruais diversos até perceber que não conseguia utilizá-lo. No espaço de três meses é capaz de ter gasto mais de 100 euros para concluir que tinha apenas perdido dinheiro .

Ou, se falarmos de jovens que não têm condições para higienizar devidamente o copo menstrual (correndo o risco de desenvolver infecções ou até a problemática Síndrome do Choque Tóxico), ou que não têm abertura com os familiares para simplesmente colocarem o penso para lavar na máquina de lavar a roupa; ou se falarmos de comunidades nas quais o acesso a água, por si só, é já uma condicionante (quanto mais a água a ferver).

Defendo que cada pessoa que menstrua deve decidir, para si, o melhor método de recolha menstrual, conhecendo as alternativas que tem ao seu dispôr. Mas as alternativas não são tudo. Temos de saber o que é que nos trará mais conforto no curto prazo também e temos de ter empatia suficiente para entendermos que o que é melhor para mim, é melhor para mim: existem outras realidades e eu não sou ninguém para impingir algo a alguém ou julgar esse alguém por ter tomado uma decisão diferente da minha.

Acima de tudo, saúde menstrual para todas as pessoas que menstruam. O resto, logo se vê.

Acredito que quem menstrua deveria ter a oportunidade de conhecer todos os produtos de recolha menstrual para saber o que é melhor para si. Para que a escolha seja feita em consciência, bastam duas coisas: sangrarmos ciclicamente e termos acesso a informação.

Só assim, pessoas como eu verão que ter a possibilidade de escolher produtos de recolha menstrual reutilizáveis é, de facto, um privilégio. Espero que um dia deixe de ser. Mas, por agora, é o que temos.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Catarina Maia-

Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.

Texto de Catarina Maia
Fotografia de Pedro Lopes
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