Além Tejo. Além Mar. É um encontro que fica perto de Almada e a cerca de vinte minutos de Lisboa. Por estas e aquelas bandas fala-se na Trafaria. Situa-se a cerca de dezassete quilómetros e com um agitar das águas.

A Mila a mais velha, com treze, o Gaspar, o mais novinho, o Paulinho que não queria ir e agora não consegue arredar pé. É neste grupo de crianças que a energia se entranha sem explicação. Maria João Azinhais recordou-a com um brilho nos olhos e um sorriso de orelha e orelha. É nítido o orgulho de um dos membros da direção da coletividade Recreios Desportivos da Trafaria que é o local que dá estrutura ao acesso cultural.

Tudo isto acontece num espaço que apresenta cerca de cem anos de existência, onde a madeira antiga transporta quem lá dança para outros lugares. Um lugar onde o casino que se pinta de dramas e dinâmicas criativas onde a imaginação não mostra ter limite. O desporto também lá espreita, mas é do teatro e da música que se fala quando se pensa no casino ou no drama.

Clube Recreios Desportivos da Trafaria

O clube Recreios Desportivos da Trafaria foi fundado a 23 de setembro de 1940, destinado a funcionar como local de reunião dos veraneantes desta estância de Verão. Rapidamente se tornou numa coletividade que tinha como principais objetivos a realização de festas e atividades diversas que constituíssem um espaço de recreio para os seus associados e respectivos familiares.

Hoje, é a casa dos que lá vivem e dos que partiram, mas que ainda lá voltam. A Mafalda Vaz de Amaral, professora e encenadora das oficinas de teatro do projeto Drama no Casino começa a nossa conversa recordando que este é um espaço onde as crianças se permitem ser. Onde todas emoções se somam e o desconforto se subtrai. Esta é também a sua casa, agora. Diretamente de Lisboa a partida começa e acaba na Trafaria.

De portas abertas a todos aqueles e aquelas que lá quiserem entrar, a Trafaria pretende preencher o vazio que se alimenta há anos no mapa artístico. O Gerador esteve à conversa com estas duas mulheres que representam o desejo de uma coletividade, de muitos outros profissionais da cultura e de uma comunidade que quer preservar aquele que é um acesso há muito interdito por um grande lençol de água que divide a realidade cultural nacional.

Gerador (G.) – Mafalda, começaria por ti. Como foi entrar neste ‘barco’ e neste projeto que deu origem ao Drama no Casino?

Mafalda Vaz de Amaral (M. V. A.) – Este projeto, no fundo, nasceu através dos Recreios Desportivos da Trafaria. A Direção chegou até mim, entre os membros a Maria João e a Mariana. Perguntaram-me se eu estaria interessada em ser professora e encenadora de um conjunto de oficinas de teatro para crianças e jovens da Trafaria. Isto aconteceu mais ou menos em setembro/outubro de 2021. No dia 30 de outubro, dei uma primeira oficina aberta às crianças e aos jovens da Trafaria e de zonas próximas, como é exemplo, a Costa da Caparica e de onde se pudessem juntar, localidades cercanas.

O meu objetivo tem sido também a chegar à comunidade Trafaria e chegar às escolas, mas não tem sido tão fácil nesse sentido. A Mariana tem feito também um grande trabalho nesse sentido e chegámos a reunir com um dos professores que também faz parte da direção das escolas, mas realmente, nesse sentido, acaba por ser um bocadinho mais difícil chegar à comunidade escolar.

No geral, foi assim que surgiu, através deste contacto e da necessidade da comunidade ter aulas e oficinas de teatro e de artes para as crianças e jovens.

Clube Recreios Desportivos da Trafaria

Maria João Azinhais (M. J. A.) – Realmente foi uma iniciativa nossa. Era um projeto que nós já tínhamos há algum tempo, acarinhávamos mas não tínhamos ainda possibilidade de o fazer.

Nós estamos na Trafaria. A Trafaria parece estar muito perto de Lisboa e está, na verdade. É a travessia de um barco, mas um barco que apenas faz viagens em algumas horas do dia. De resto estamos muitíssimo isolados. Como faz parte do cantinho de Almada os transportes são péssimos e a comunidade aqui é muito fechada. Temos muitas crianças. Por incrível que pareça há crianças que nunca foram a Lisboa e são cerca de vinte minutos de Lisboa.

Temos vários sócios com crianças que gostavam de os colocar em alguma coisa. “Na Trafaria não há nada”, dizem sempre. Já andávamos há uns anos a querer fazer alguma coisa com miúdos e depois candidatámo-nos à DGArtes e ganhámos. E foi a partir daí que começámos a conseguir projetar as coisas para depois fazer.

Para nós é muito importante como coletividade e devo dizer por que razão. As coletividades como vocês sabem vivem do trabalho voluntário. O trabalho voluntário, hoje em dia, é algo raro, pouco apetecível e as pessoas não querem fazer. No entanto, as pessoas que cresceram a fazer alguma coisa que gostam numa coletividade como todos os que completam a direção ficam com esse bichinho. Temos sócios que vêm de longe, porque foram para outras zonas ou que vêm de propósito para virem aos Recreios Desportivos e colaboram também nos locais onde moram o que é ainda surpreendente.

Nós achamos que é extremamente importante começar pelos miúdos. Se os miúdos gostam eles vão ficar, criar raízes e vão sentir esta vontade de ajudar a comunidade, de estar em comunidade com os outros e prestar-se trabalho para isso. O teatro, para mim, foi muito importante nesse sentido, porque eu também comecei com teatro. E então começámos assim.

G. – Pegando nesta questão das escolas. Quais são as razões pelas quais esse contacto se mostra tão difícil?

M. J. A. – Na verdade, os professores são muito fechados nas suas próprias escolas e acham que o importante é lecionar e as coisas que têm de fazer de acordo com o programa estipulado pelo Governo. Tudo o que é fora do programa escolar, eles não consideram assim tão importante. Estamos também a falar de miúdos difíceis, pais com muitas dificuldades. Temos aqui o Segundo Torrão que é o maior bairro aqui de Almada e que tem sido um problema que não se consegue resolver. Nós queremos chegar a todos. Queremos chegar também a esses. Não nos estamos a focar nos meninos da Segundo Torrão, nem dos meninos que há aqui muito ricos. Nós queremos todos e queremos que eles interajam e se sintam em comunidade, e o nosso projeto maior é esse.

Quanto à escola está a ser muito difícil, pois criam dificuldades nos horários, entre outras. Nós não estamos com vontade de desistir (risos) e aqui a Mafalda tem arranjando outras soluções para chegar aos mesmos meninos, de outras formas, mas vamos conseguindo, até abrir um bocadinho as mentes destes professores, porque a escola não é só matéria. É tão ou mais importante a cultura, que os vai fazer gostar da escola, mas é uma luta que se vai fazendo pouco a pouco.

M. V. A. – Sim. Eu acho que acaba por ser uma dificuldade talvez da direção das escolas da Trafaria. Eu não estou assim tão por dentro, mas é também o que me vem chegando. Neste momento, as oficinas já têm uma turma de cerca de dez crianças. Isso já é muito bom, mas a verdade é que também quando apresentamos este projeto um dos nossos objetivos continua a ser também eu ir às escolas e dinamizar pequenas oficinas de teatro e tentar que as escolas sejam nossas parceiras, porque no fundo as crianças estão nas escolas.

Como a Maria João disse, a Trafaria tem bairros, tem famílias com algumas necessidades e ao serem contextos difíceis torna-se ainda mais complicado. Uma coisa que se tem vindo a referir é que, por exemplo, na Trafaria nem sequer existe o que toda a gente conhece nas escolas que é a AECs, são aquelas horas de música, de expressão dramática, a título de exemplo novamente.

Clube Recreios Desportivos da Trafaria

M. J. A. – Exatamente. Nós temos um professor de música de uma escola aqui na Trafaria que está a fazer um projeto muito giro com os miúdos dele, em que deixaram de ter lugar na escola para ensaiar. Então eles estão a ensaiar na nossa coletividade. Para os miúdos foi belíssimo! Ao princípio, eles não ligavam nenhuma. Neste momento, acham que aquilo é a casa deles, tratam toda a gente superbem, limpam o salão. Quando chamamos a atenção são supersimpáticos e ajudam no que podem. Estes alunos vinham do bairro que falamos há pouco e é tão bonito ver como mudaram completamente de postura. Estão a fazer o que amam e para nós, o mais gratificante é que e eles sentem que a casa é deles.

G. – Estamos a falar também de um projeto que luta constantemente para permitir o acesso à cultura e às artes nas mais diversas realidades, no caso das oficinas, por exemplo...

M. V. A. – Este projeto teve a primeira oficina no dia 30 de outubro aberta à comunidade. As oficinas continuam abertas. Neste sábado (15), já recebemos uma nova criança. Acontecem todos os sábados das 11 horas às 13 horas nos Recreios Desportivos da Trafaria. São oficinas com um valor simbólico. O valor inicial estipulado era 15 euros, mas, devido às interrupções letivas, descemos o valor para 10 euros, e também existe a possibilidade das crianças ou das famílias acederem a uma Bolsa. Nesse caso, é só falarem comigo ou com a direção nos Recreios Desportivos Trafaria.

O objetivo não é deixar de participar porque não têm 10 ou 15 euros para pagar por mês. Este valor no fundo é muito simbólico, mas acaba por ser importante para a coletividade e para assegurar todas as despesas nos Recreios Desportivos. É nesse sentido que se tem vindo a tentar sensibilizar as famílias. Eu sei que existem famílias com algumas carências que não me têm dito, mas que até têm feito um esforço para pagar esse valor.

Depois existe mesmo quem receba a bolsa e existem outras famílias que me parecem ter algum poder económico e que querem que os seus filhos usufruam das oficinas e que acreditam no poder e no empoderamento do teatro e da expressão dramática.

G. – Estamos também a falar de um contributo para o desenvolvimento das crianças ao longo do tempo, desde a postura como falavam há pouco como a sua evolução de pensamento sobre a cultura. Isso também é muito gratificante para vocês, perceber que elas se vão também moldando ou criando uma nova ideia do que é a música, do que é o teatro, do que é o desenvolvimento cultural.

M. V. A. – Sim! Para mim, pelo menos, é muito gratificante. Eu tinha crianças que no início não aderiam tanto e agora já aderem. O grupo é constituído por crianças entre os 6 e os 13 anos, mas é aberta até os 15 anos. Este projeto vai permanecer até julho, mas o objetivo é fazemos uma apresentação e outras atividades.

Eu tenho sentido muito isso, que existem crianças que já chegaram com energia de querer fazer e querer libertar a sua energia e há crianças que se têm vindo a libertar e também a perder alguns medos, sobretudo medos de exposição e de confiança.

Oficina Drama no Casino

M. J. A. – É muito engraçado, porque aceitámos os miúdos pequeninos. Por exemplo, o Gaspar tem um irmão e quem ia para lá era o irmão mais velho, mas a mãe não conseguiu impedi-lo e ele acabou por ir. O irmão é mais recatado, mas o Gaspar não. Do alto dos seus cinco anos, faz tudo. O outro é arrastado pelo irmão mais novo, por incrível que pareça. E eu acho que aqueles dois são muito engraçados! [risos]

Depois há uma menina, que é a mais velha. Já é assim muito responsável. Toma conta dos outros, pega nos mais pequenos ao colo. No início, estavam todos separados. Agora, já andam a correr pelos salões do casino adentro e a perguntar à mais velhinha, à Fi, as coisas. É importante e interessante ver de fora, também. No caso dos pais, o seu feedback é também importante, isto porque há ali pais que levaram os miúdos com uma intenção muito específica de eles se conseguirem libertar e de fazer alguma coisa em comum com os outros, porque são dos mais difíceis.

Devo dizer que a nossa comunidade, neste momento, é também muito heterogénea, ou seja, temos pessoas portuguesas, italianas, entre outras. Estamos a receber muita gente do estrangeiro para viver aqui, na Trafaria, com culturas diferentes. No início têm alguma resistência, mas há pais que não desistem. Eles podem até nunca fazerem teatro, mas que vão fazer alguma coisa no teatro, creio que sim.

G. – Estas memórias ficam para sempre guardadas no pensamento de quem as presencia a toda a hora, não é?

M. V. A. – Sim, por exemplo, nós temos crianças de vários tipos de famílias, pelo que percebo, ou seja, não estou individualmente a perguntar às famílias, mas é sobre o que vão compartilhando comigo. Temos, por exemplo, dois casos de uma irmã e um irmão. Nesse sentido, os pais levaram também a irmã, de recordar que eles são um casal italiano, no fundo, para ver se convenciam o irmão a ir, mas o objetivo era que ele fosse, porque ele tem algumas dificuldades de exposição e não gosta muito falar em público, fica envergonhado, mas, por outro lado, ele é superexpressivo no desenho e tem uma imaginação incrível.

No fundo, os pais trouxeram a irmã para o agarrarem a ele. Tem mostrado alguma resistência, no entanto, agora já tenho notado alguma abertura já quer participar.Isto para dizer que já criaram todos, em tão pouco tempo, uma energia bonita, no grupo. Inclusive, quando uma das crianças ficou em isolamento, fizemos todos um vídeo para ela.

Oficina Drama no Casino

M. J. A. – Queria acrescentar que isto está no início, mas os nossos projetos irão continuar. O objetivo é permitir a partilha destes nossos meninos com outros meninos de outras comunidades. Ou seja, eu tenho uma irmã que vive numa aldeia e está a fazer uma coisa idêntica na aldeia em que está. A nossa ideia é que se encontrem e partilhem uns com os outros. Esta dinâmica permite a expansão.

M. V. A. - Neste momento, para este ano, o projeto Drama no Casino será até julho, mas o objetivo é nós concorremos a mais parcerias e apoios para ele se repetir por mais tempo.

G. – É importante dar-lhes este espaço...

M. V. A. – Sim. E o objetivo é a partir de março desenvolver outras atividades com eles como ir ver um espetáculo de teatro, conseguir fazer intercâmbio, trazer um professor novo, este tipo de coisas. Para mim foi essencial ganhar também a confiança das famílias e perceber a interação do grupo e tentar desbloquear algumas coisas mesmo nas crianças, ao nível da exposição, na autoestima e sobretudo a exposição perante o outro que é sempre pronto o mais desconfortável para algumas crianças.

G. – De que forma é que vocês caracterizam esta envolvência da comunidade no seu todo, ou seja, com quem tem noção dos projetos e da comunidade local? Consideram que isto é uma coisa cada vez mais presente nos seus discursos e nas suas vidas?

M. V. A. – Eu que sou de Lisboa e que nunca na minha vida pensei em ir para a Trafaria nem apanhar o barco, penso que sim. Além disso, o que eu sinto enquanto pessoa de fora que vai à Trafaria e que andou lá a distribuir panfletos para o projeto e que andou a tentar conhecer a zona e falar com pessoas, o que eu sinto é, sim, que isso tem acontecido e também muito graças ao trabalho que é desenvolvido nos Recreios Desportivos da Trafaria, porque é um centro e um espaço com mais de cem anos, muito bonito, antigo, com diversas atividades e projetos que vão sendo desenvolvidos lá. É desenvolvido agora o Drama no Casino para crianças e jovens entre os 6 e os 15 anos, mas também existem as aulas da Maria João de yoga também existem as aulas de música, as senhoras das artes, entre outras atividades.

Oficina Drama no Casino

O que tenho sentido também através dos contactos que vou fazendo através da Marina com as escolas e tudo mais é que existe alguma resistência, porque como as crianças têm um baixo nível de rendimento escolar com taxa de sucesso escolar pequena, então a minha ideia até agora é que as escolas dão uma grande prioridade ao programa que é dado pelo Governo. O meu sentir é que tudo o que acontece a nível cultural e não acontece nos recreios e a comunidade nesse sentido acaba por estar muito aberta e esse é um espaço de encontro. Os recreios que são conhecidos por todos como o casino, daí o nome do projeto, ou seja, tudo acontece graças a este espaço que existe no Trafaria.

M.J.A – Sim, até porque o espaço tem uma história muito engraçada. Desde um espaço que foi construído para ser um casino e que na verdade nunca o chegou a ser, às férias das elites , isto é, os banhistas ricos que depois vinham para passar férias na Trafaria e o clube era muito frequentado por eles. Faziam ali as suas festas. Tenho alunas que diziam ficar na janela, na altura, isto há muitos anos, porque não podiam entrar. Nós estamos a tentar descontrair toda aquela ideia de aquele era um espaço para “pessoas ricas”. Até porque também não há mais oferta criativa ou cultural deste género. Nós fazemos das tripas coração com muito amor para dar vida a este sítio.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias da cortesia de Mafalda Vaz de Amaral

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