Tinha seis anos. Estávamos a caminho de Pemba, onde viviam a minha avó e os meus tios e tias. O plano era irmos lá deixar a minha avó e apresentar a minha irmã ao resto da família. O meu pai conduzia um Toyota Land Cruiser cinzento, comprado em segunda mão. A minha mãe ia ao seu lado e nos lugares de trás estávamos eu e a minha avó, que segurava nos braços a minha irmã, bebé de seis meses. Na bagageira tínhamos malas de viagem e uma grande arca, cheia de coisas para dar aos meus tios: cassetes de vídeo, CDs, roupa, álbuns de fotografias e sapatos. Tudo o que os meus tios não quisessem seria distribuído por vizinhos e amigos. Eles e a minha avó viviam no Paquitequete, um bairro de pescadores e famílias que tentavam juntar dinheiro para comprar casa na cidade. Muitas dessas famílias, depois de a muito custo conseguirem construir uma casa provisória com condições mínimas, acabavam por decidir ficar ali a viver permanentemente. Foi o caso da minha avó e dos meus tios que, depois da morte do meu avô, preferiram mudar-se para lá e começar de novo. Quando a minha irmã nasceu, a casa que eles construíram durante anos já era considerada uma boa casa. Tinha chapas onduladas de zinco a cobrir pelo menos a sala e os quartos. Condições mais que perfeitas tanto para uma curta estadia, como para uma vida inteira. Esperavam-nos umas belas semanas de férias, a comer arroz de côco e o peixe que chegava diretamente do mar todas as manhãs. Em dias bons havia lagosta e caranguejo. Em dias menos bons, camarão tigre e lulas. Mal víamos a hora de chegar.

Era a minha mãe quem escolhia a música para as viagens. Entre as escolhas do costume estavam Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Rita Lee, Alexandre Pires e Alcione. No tablier acumulavam-se caixas de CDs de bandas sonoras de novelas brasileiras. Entre a vila onde vivíamos, Songo, e a cidade para onde íamos, Pemba, dava para ouvir os álbuns nacionais e internacionais de dez novelas pelo menos três vezes. Se tudo corresse bem, chegaríamos a Pemba em dois dias, com paragens para esticar as pernas, ir à casa de banho e dormir umas horas. As refeições eram feitas na estrada. A minha mãe preparara um número exagerado de tupperwares com banquetes completos. E como as estradas nacionais eram praticamente desertas, o meu pai podia usar uma mão para conduzir e a outra para se deliciar com uma perna de frango ou uma 2M fresquinha. De vez em quando víamos passar camiões de transporte de mercadorias ou autocarros velhos, atulhados de gente. Eram tão poucas as ocasiões em que nos cruzávamos com outras pessoas na estrada que, sempre que acontecia, fazíamos uma festa. Para além de que era uma visão rara para muitos moçambicanos, um homem branco a conduzir em estradas de terra batida, cheias de buracos e poças de lama. Às vezes os camiões paravam e os condutores pediam um pouco de água ou comida que os meus pais tivessem para oferecer. Às vezes faziam sinais ao meu pai para que ele guardasse a perna de frango porque dali a poucos quilómetros a estrada ia tornar-se demasiado exigente. Mesmo com o carro aos solavancos e zigue zagues durante grande parte da viagem, seguíamos tranquilamente. Mal víamos a hora de chegar.

Na madrugada seguinte, mais ou menos a meio da viagem, tivemos um acidente. A famosa “curva do elefante” surpreendia os condutores mais experientes, e o meu pai não foi excepção. O carro capotou para dentro de uma valeta e, ao som de Roberto Carlos, todos tentávamos perceber o quão inteiros estávamos. A minha avó sentia sangue a escorrer-lhe pela cara, mas demorou a perceber de onde vinha. A minha mãe esticava os braços à procura da minha irmã, que depois do embate violento se perdera entre o pó e a escuridão. Por sorte, continuava a dormir profundamente e só acordou com o puxão desesperado da minha mãe, que se apressou a confirmar que a sua filha mais nova estava livre de perigo. Eu chorava apenas, incrédulo, sem ferimentos, e observava o meu pai, que não disse uma palavra até nos conseguir tirar a todos do carro. As portas e as janelas eram automáticas e deixaram de funcionar, mas o rádio e o ar-condicionado pareciam intactos. Isso alertou o meu pai para um curto circuito que, com o carro a perder combustível, podia ser fatal. E então, ainda com a voz de Roberto Carlos ao fundo, o meu pai, na altura um homem de 61 anos, serviu-se dos seus punhos e cotovelos para partir o pára-brisas.

Já do lado de fora, apercebemo-nos da chegada de pessoas que viviam em pequenas povoações ali perto. O meu pai prometeu-lhes dinheiro se o ajudassem a levantar o carro, mas muitas delas preferiram antecipar-se à recompensa. Sem dizerem uma palavra, levaram tudo o que conseguiram.

Sem carro, sem documentos, sem rede, à noite numa estrada sem luz, só nos restava esperar por alguém que nos levasse até Mocuba, a vila mais próxima, um anjo sobre rodas que nos devolvesse a esperança. E ali ficámos, à espera, à espera, à espera... e conto o resto quando Novembro chegar.

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora.  Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em “Parlamento Elefante”, projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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