Setembro foi o mês em que colecionei mais um dia inesquecível. Ou deverei dizer, noite? No passado dia 5 de setembro fui, como resposta ao desafio de uma amiga, à maratona do espetáculo “A vida vai engolir-vos”, no São Luiz Teatro Municipal e no Teatro Nacional D. Maria II. Foi uma noite dividida entre os dois teatros, das 19h às 6h do dia seguinte, na companhia dos atores que davam corpo às personagens de Tchékhov.

Comecei por dizer que tinha sido uma noite inesquecível. É precisamente a isso que quero dedicar esta Garganta Solta. Durante os meses de confinamento, lia e ouvia várias vezes que os artistas tinham sido os primeiros a terminar a sua atividade e seriam os últimos a voltar. A arte requer, muitas vezes, a presença, o contacto, a partilha próxima com o outro. Talvez por isso, sempre que me cruzei com esse dito, não estranhei. Eis a primeira coisa que viria a mudar nessa noite, para mim. Tenho ido a vários espetáculos desde que as salas reabriram e, embora sempre me tenha sentido bem em todos, este foi o espetáculo em que me senti mais segura, tendo em conta todas as preocupações relativas à proteção contra o contágio da Covid-19. Não senti que houvesse aglomerados, a organização de ambos os teatros esteve milimetricamente estudada para que cada espectador tivesse o seu espaço de segurança devido, havia rigor na desinfeção das mãos e pés à entrada e saída do teatro. Até na hora de distribuírem as refeições, que quem ia à maratona tinha direito, o processo estava bem estruturado de forma a que ninguém perdesse muito tempo em filas, nem houvesse um ajuntamento de pessoas desnecessário. Pela primeira vez, dentro da sala — e atenção que cada parte do espetáculo tinha quatro horas e meia de duração com apenas 40 minutos de intervalo — não vi nenhum espectador a lutar contra o uso da máscara, a desrespeitar ou questionar a marcação de lugares, independentemente de ir ou não acompanhado, nem a levantar-se antes de tempo para sair da sala. Então, talvez o receio que se antevia de voltar a dar um palco presencial para a expressão artística não fosse sustentado. Vários têm sido os eventos culturais que geram desconforto no seu anúncio e depois vigam como exemplos a seguir de boas práticas.

Os textos, A Gaivota, O Tio Vânia, Três Irmãs e O Ginjal, como o de qualquer grande escritor e pensador, têm marcas de atualidade inquestionáveis. Num espetáculo que se firma na mudança, percebemos o quanto ainda temos por transformar em assuntos tão prementes como a aceitação do outro e de nós próprios, a relação com a dor ou a emergência de atentar nas questões da sustentabilidade do nosso planeta. Também aí, a organização esteve de parabéns, porque quando abandonávamos o nosso lugar na plateia, íamos descobrir medidas que tinham esse olhar atento e que dilatava o texto ficcionado para a realidade. São exemplo claro disso as refeições servidas: com embalagens de papel, uma alimentação equilibrada de base vegetal e a preocupação de se socorrer a produtos portugueses.

Durante nove horas, pensou-se sobre o absurdo da vida. E quão absurdo é viver num país em que se olha para os autores ou as artes como algo acessório? Um país que, sempre que lhe convém, usa essa arte, mas não tem qualquer dificuldade em secundarizá-la, logo de seguida? Naquela noite, senti-me uma privilegiada. Comovi-me muitas vezes por me aperceber da honra que era estar ali. A quantidade de pessoas que existem para que aquele espetáculo aconteça. Onze horas de trabalho noite fora, memorizar quatro textos, darem-nos o seu tempo e carinho, porque dar arte ao outro é dar-lhe carinho, assim como atentamente a receber. Obrigada, Tonán Quito (direção artística, adaptação e interpretação), Anton Tchékhov (textos), Nina Guerra e Filipe Guerra (tradução), Álvaro Correia, Gonçalo Waddington, João Pedro Mamede, Leonor Cabral, Miguel Loureiro, Mónica Garnel, Rita Cabaço, Sílvia Filipe (interpretação), F. Ribeiro (cenografia), Daniel Worm (desenho de luz), José António Tenente (figurinos), Pedro Costa (desenho de som), Mirró Pereira (encenação), Miguel Loureiro (apoio à dramaturgia), Armando Valente, Cláudia Teixeira, Vanda Cerejo (produção executiva), HomemBala (produção), Teatro Nacional D. Maria II, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Municipal do Porto, Teatro Nacional São João (coprodução), O Espaço do Tempo, Sogrape (apoio) e público. Por uma noite, fomos família.

Na noite de cinco para seis de setembro, a vida engoliu-nos. É uma experiência exigente, não o escondo, tanto para o público como para os atores e equipa técnica. Mas nada me faz esquecer a persistência que vi em cada olhar e gesto dos nove atores que pisaram o palco durante nove horas. Nada me faz esquecer a atenção dos olhares desconhecidos que lutavam por se manter ligados às histórias, mesmo quando o cansaço de uma noite desperta apertava, ao longo das filas da plateia. Nada me faz esquecer a última cena da primeira parte do espetáculo em que Rita Cabaço foi livre em palco e transportou nos seus gestos a energia que se sentia naquela sala. Nada me faz esquecer os primeiros agradecimentos em que os atores gesticulavam com entusiasmo para o público como firmamento do compromisso que ambas as partes assumiram – a de que iríamos todos seguir para o D. Maria II, para dali a uma hora, continuarmos a pensar com a arte. Nada me faz esquecer a força da retórica que me fizeram crescer ao ver interpretados os textos de Tchékhov. Nada me faz esquecer os aplausos finais, que obrigaram a três rondas de agradecimentos, com uma ovação que descobria as lágrimas do público e dos atores. Conseguimos!

Então, perseguindo a pergunta de Tchékhov — “Como será a humanidade no futuro?” — deixo um desejo. Que seja o retrato do que foi aquela noite: unida, comprometida, respeitadora, inteira, livre, honrada e entregue à arte, sem medos restritivos. Obrigada por esta honra, a quem preparou o espetáculo e a quem, tal como eu, não foi concebível faltar.

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira
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