Algures numa terrinha portuguesa chamada “Os Trinta”, num estrondoso e frio vale da Guarda, nasceu a minha avó Nazaré. Maria da Nazaré Guerra. De lá vieram ainda outras mulheres maravilhosas da nossa família, como a Madu e a Aurora, de olho azul, muito brancas, rijas, de espírito eternamente jovem, que vieram de braço dado com ela para Lisboa. Algés, mais especificamente. Rua Damião de Góis. Ainda hoje penso que o ideal da realidade urbana estava contido naquele prédio que pude ainda vivenciar quando era pequena, todo ele habitado somente por viúvas (e um viúvo), de idades avançadas, responsáveis pela construção de um espaço raro de comunidade e interdependência: a porteira que ia ver a novela todas as noites lá a casa; a vizinha estrangeira da casa do lado, conversando muito, de porta aberta, sem pudor de mostrar as originalíssimas paredes da sua marquise, cobertas de recortes de estrelas de cinema (o Richard Gere era o seu preferido); a vizinha do último andar, doce e baixinha, com a sua coleção extraordinária de bonecas de vários tamanhos e proveniências que apresentava às visitas; a vizinha muito alta, de voz marcante, batendo de quando em vez à porta antes de ir às compras — “Nazaré vou ao mercado! Quer alguma coisa?”; ou a vizinha de cabelo branco e olhos claros, distribuindo pelo prédio geleia e marmelada, dentro das suas melhoras tacinhas. Nas traseiras das casas estava escondido o maior mimo: os quintais, que eram partilhados por todas. Árvores de fruto, plantas várias, flores de Primavera, passarinhos pela manhã.

Nazaré amava o seu bocadinho de terra e os seus muitos vasos que tratava diariamente de forma exímia. Ouvia rádio sempre que estava na cozinha. Falava todos os dias com alguém através do seu telefone fixo, sempre muito educada e discreta, em pé, encostada à cómoda do hall de entrada. Nazaré não relaxava, perfeccionista que era, inquieta, pequena e atenta, estudando o mundo por detrás dos seus óculos, franzindo o nariz, mexendo os dedos sem parar como que ansiosos por se ocupar com alguma coisa. Nazaré (nome de) Guerra terá fumado, terá trabalhado enquanto secretária, terá feito teatro amador (vendedora de bilhetes, frente de sala, contra-regra, actriz), terá sido voluntária da Cruz Vermelha Portuguesa e viveu, sem qualquer dúvida, a ditadura. “Tudo se complica, tudo escurece. Cada vez mais, tudo e todos estão mais complicados também. Todo o mundo está em luta. Luta de armas e nem só essa. Há luta em todos os campos. As guerras, os interesses, os ódios, os desesperos, as revoltas de consciência. Que sei eu? Alguém conseguirá vencer? Quem o sabe? Até aqueles que cantam vitória quantas vezes têm de reconhecer que bem fraca foi a alcançada, e que de nada lhes serviu? Porque se guerreiam os homens uns aos outros por tudo e nada? Nos campos de batalha, nas oficinas, nos escritórios, nas próprias famílias. A guerra vive.” escreve ela, em 1970.

Pouco falei com a minha avó sobre política, pouco cérebro tinha ainda para o mundo em meu redor, enterrada que estava na minha adolescência umbiguista. Lembro agora os seus dicionários de Português-Russo, o conjunto de garfinhos para o fondue que tinham na ponta o desenho de uma foice e de um martelo, a fotografia que me mostrou de uma alegada amiga loura, muito alta, que se veio a descobrir que era da PIDE. Nunca lhe perguntei sobre o seu 25 de Abril de 74. Não sei como terá sido. Não tenho mais como saber.

Em 2020 fez-nos falta ir para a rua gritar, juntar corpos sem memória desse dia aos outros corpos que o viveram. Não existe, no meu imaginário, manifestação sem presença física, ocupação, sensação de pertença, osmose, arrepios, lutas em massa. Tal como não existe Teatro. Quero o viver de todos os corpos em liberdade, em democracia, com responsabilidade, habitando todos os lugares — como nunca chegou a acontecer de verdade. Quero que esses corpos se cruzem de frente uns com os outros, num futuro saudável, diluindo diariamente os olhares de visão curta, sendo vistos e celebrados, a caminho da revolução. E, como no mundo que o Teatro pode também ser, quero ainda mais ser testemunha do direito à presença e representatividade desses todos-vários-que-não-sempre-os-mesmos-corpos em cena, ao vivo, únicos e universais, em toda a sua glória. Temos de ter esta conversa. Não, temos de agir. Quero a construção de uma comunidade tal qual o prédio da minha avó, onde as pessoas se olham nos olhos, existem, precisam umas das outras e são gratas por isso.

Chove ainda no Abril de agora. Mas ainda há histórias para contar.

Sintra. Dois mil e vinte e um.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres Assim, Madre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos
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