Não consigo identificar quando isto me aconteceu e a causa directa, mas aconteceu e mudou muito em mim. Através deste acontecimento cuido de mim e do espaço que habito (seja ele interior ou exterior), cabe aqui o meu corpo na pele e nas entranhas e a minha casa nas suas divisões ou na rua que lhe pertence.
Seja manhã, tarde ou noite dou por mim a pensar em prol desta derivação da minha vida, não me basta isso, e até acabo por alterar hábitos e acções no meu dia-a-dia.

O que me havia de acontecer?

Já me disseram que tenho de ter calma, que posso estar a criar algo "monstruoso" que me vai habitando e qualquer dia não tenho espaço para mim dentro de casa e fora dela!
Estarei a ficar condicionada com isto?

Talvez sim, mas sinto-me bem. Dá-me prazer e ocupa-me o espaço e tempo que tenho e que quero que seja ocupado.

É trabalhoso, dispendioso e intenso, mas ao mesmo tempo relaxa-me, leva-me a outros universos e faz-me sonhar. A energia que me consome também a renova. Cuido-me sem me aperceber. Cuido-me, cuidando.
Confesso, depois de já me terem alertado, estou viciada! Já aceitei, e é consciente.

Bem sei que todos os vícios são imperfeitos e criam dependência, e estão muitas vezes associados a maus hábitos. Mas acredito que este é dos bons! O maior constrangimento que me causa é no sector financeiro. Não é barato, requer estar sempre a procurar soluções e substâncias e a investir nelas para que estes organismos sejam alimentados, cuidados e que possam crescer, florescer, alguns deles darão flor e até alimento para me saciar. É um consumo diário, a todos os níveis, mas que, no final, permite que o meu espaço e eu fiquemos mais bonitos, acolhedores, saudáveis e coloridos.

O que poderia parecer assustador não é! Estou viciada em plantas!
Sou o que se chama na actualidade uma Plant Lover, infelizmente não sei se há um termo hype em português para esta expressão.

Esta geração de Plant Lovers viciou-se em plantas e quer tê-las por perto em diferentes formatos, sejam hortas, jardins exteriores ou interiores. E o que nos leva a ficar completamente vidrados nessa forma de ocupação dos tempos livres pode ser muito variada. No meu caso particular é um querer voltar à “ruralidade” e ao contacto com a natureza como tinha em criança, mas que não me é possível por diversas razões, o cargo profissional, os locais onde tenho vivido e o ritmo de vida que se alterou tanto... Ter horta, jardim e “mil” plantas em casa tornou-se uma solução mais imediata. É trazer a natureza até mim.

Este vício que se transformou numa paixão permite-me tanta coisa...conhecer mais plantas; os ciclos do ano e a sazonalidade; oxigenar a casa; entender a natureza e a capacidade que esta tem de sobreviver em diferentes contextos, e assim fazer metáforas com as minhas fragilidades e forças e posso, assim, produzir plantas que literalmente me alimentam.

Plant Lover assumidamente. E a querer elevar este estilo de vida a vários níveis!

Vou mesmo ficar com menos espaço, mas com um espaço menos monótono, mais verde e colorido, porque a verdade é que… há sempre lugar para mais uma…

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva


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