“Aos indiferentes”

Precisamos dos indiferentes, dos conformados e dos cépticos.
Precisamos dos que ligam demasiado ao carro.
E dos que não desligam a luz.
Precisamos dos que deixam a água a correr.
E dos que se demoram no banho.
Precisamos dos que atiram para o mar.
E dos que lançam para o ar.
Precisamos dos pessimistas e dos consumistas.
Dos que querem palhinha. E saquinho. E descartavelzinho.
Precisamos dos que reciclam desculpas e mais coisa nenhuma.
Dos que não querem e dos que não crêem.
Precisamos até dos que não fazem por mal.
Precisamos dos indiferentes.
Já não dá para salvar o mundo sem eles.

(Poema retirado da página LISBOA VERDE 20201)

No contexto atual, em que são cada vez mais frequentes e devastadoras as manifestações da Natureza que evidenciam a necessidade de uma ruptura com os padrões de consumo vigentes à escala global, convidamos a uma reflexão sobre o impacto dos comportamentos  à escala do indivíduo - à escala de cada um de nós.

O ativismo — enquanto ação que visa a mudança — pode ser abordado em duas vertentes: o ativismo organizado e em grupo, no seio das ONG, ou o ativismo individual. É neste último que nos vamos focar.

Enquanto indivíduos, estamos inseridos em várias comunidades, quer seja no trabalho, no bairro, nas atividades lúdicas, nas amizades, nos eventos sociais, entre muitas outras, e é precisamente nestes meios que cada um de nós pode fazer a diferença. Sabemos que a situação atual é insustentável, pelo que importa assimilar que tanto os comportamentos descuidados aparentemente insignificantes ou "sem impacto", como a própria inércia, consubstanciam atos que militam ativamente no sentido da manutenção dos padrões vigentes, ou seja, no sentido do agravamento da situação atual. 

Isto porque hoje sabemos que manter os comportamentos atuais encaminhar-nos-á inevitavelmente para a falência do Sistema Terrestre.

Não obstante a sua relevância, o impacto das políticas estruturais, acordos e decisões globais não será suficiente enquanto os comportamentos coletivos — dos indivíduos nas comunidades — demandarem uma série incomportável de necessidades fabricadas e resultarem num volume de resíduos desordenado e desmesurado. 

É aqui que agir está acessível a qualquer um de nós e, ainda que possamos assumir individualmente o papel de pedagogos, mais ativo, importa perceber que podemos igualmente fazer a diferença simplesmente fazendo e dando o exemplo.

Comecemos por um exame de consciência, revendo criteriosamente os nossos comportamentos, um a um.

Podemos recorrer às inúmeras ferramentas disponíveis para avaliar a pegada ecológica individual.

Dediquemos um momento de reflexão ao tema. O Planeta, enquanto a nossa única casa da qual dependemos na totalidade, merece bem o investimento deste nosso tempo.

Depois disto, conscientemente não poderá cada um de nós se não escolher apenas entre duas opções: adotar uma postura mais ativa — como “pedagogo” — ou simplesmente ajustar comportamentos, passando a dar — e a ser — o exemplo.

Não temos todos de tentar mudar o próximo ou sensibilizá-lo ativamente, mas temos todos de ser um exemplo — e isso já é ser positivamente ativo. Todas as ações contam, porque todos participamos na comunidade e, por isso, a necessária mudança só é possível com o contributo positivo de cada um.

Ser exemplo decorre da  observação das possibilidades ao meu alcance e significa criar uma cultura de ação quotidiana, em que pequenas escolhas se transformam em bons hábitos, alinhados com objetivos que promovem a sustentabilidade do Planeta e a boa saúde de todos nós.

Ser exemplo é sensibilizar-me, agir e participar na construção da Cultura. Por sua vez, a Cultura é uma manifestação do nosso comportamento coletivo.

Quando possível, desloco-me a pé ou de bicicleta, dou preferência a alimentos não processados, dou mais uns passos para colocar o desperdício no contentor adequado, evito desperdiçar recusando ou reutilizando, organizo a casa de modo a produzir composto, utilizo iluminação LED, estou atenta ao consumo de água e não desperdiço, entre muitas outras escolhas. 

Os exemplos são inúmeros mas, no momento crítico em que nos encontramos, a simples ausência destes pequenos gestos põe em causa o bem estar de todos os que habitam este Planeta.

A comunidade reflete os indivíduos que dela fazem parte e a soma da alteração do comportamento de cada um desses indivíduos acaba por se manifestar na alteração de comportamento da própria comunidade como um todo.

Os indiferentes militam ativamente para a ruptura do sistema terrestre. Há que inverter esse ativismo consciencializando-nos da relevância do papel individual de cada um no seio das comunidades.


1 https://lisboagreencapital2020.com/

-Sobre Francisco Ferreira-

Francisco Ferreira é Professor Associado no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-NOVA) e investigador do CENSE (Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade). É licenciado em Engenharia do Ambiente pela FCT-NOVA, mestre por Virginia Tech nos EUA e doutorado pela Universidade Nova de Lisboa. Tem um significativo conjunto de publicações nas áreas da qualidade do ar, alterações climáticas e desenvolvimento sustentável. Foi Presidente da Quercus de 1996 a 2001 e Vice-Presidente entre 2007 e 2011. Foi membro do Conselho Nacional da Água e do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Atualmente é o Presidente da “ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável”, uma organização não-governamental de ambiente com atividade nacional.

Texto de Francisco Ferreira e Joana Guerreiro Silva | Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável
Fotografia da cortesia de Francisco Ferreira
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