Uma amiga disse uma vez:“ Eu nasci em Angola, mas sou de São Tomé porque é de lá que os meus pais são, agora tenho a nacionalidade portuguesa porque vivo cá. Os meus filhos que são negros, nasceram cá e dizem-se portugueses e são portugueses, mas depois do meu percurso de vida eu pergunto-me – será que os outros, nomeadamente os portugueses, quando olham para os meus filhos os vêm como portugueses? Será? Uma pessoa às tantas é de todo o lado e não é de lado nenhum…” Assim bate muitas vezes o coração dos africanos que caminham na diáspora…

Algures em 2013 ou 2014, numa noite quente de Lisboa e a caminho ( ou seria no regresso ? ) do Clube Bleza, a 11ª ilha de Cabo Verde como diz o PM António Costa, a minha amiga algarvia Susana Travassos disse-me que tinha composto uma canção há algum tempo numa viagem ao continente africano que ela achava que me assentaria que nem uma luva. Eu estava num início de processo de composição e assim que ouvi a canção sabia que nunca mais a largaria… cantei imensas vezes, apropriei-me dela e hoje faz parte do meu próximo disco e tem um refrão que às vezes cantei a chorar: “ Does Africa know a song of me?” . Vivo em Portugal há 32 anos, cheguei a Lisboa na idade da pedra em 1988, e apesar da longa jornada ainda não tenho a nacionalidade portuguesa ( um árduo e difícil processo, em curso, digno de uma crónica). Não nasci em Portugal, mas obviamente o meu crescimento foi muito marcado pela minha vivência aqui e moldou a pessoa que hoje sou, mas sempre senti uma emergente chamada por Moçambique e a minha moçambinacidade. Durante muito tempo senti que os moçambicanos me viam mais como portuguesa e os portugueses como moçambicana, um sentimento por vezes de pária na sociedade que só se aquietou quando recebi a revelação e paz no coração da minha identidade e do facto de que em mim cabiam duas nações e até mais do que isso, a distância que as separava me permitia não somente amar estes dois países como ter um sentimento de pertença a duas culturas tão distintas que me permitiam dançar xigubu ou marrabenta e cantar fado ou uma cantiga alentejana sem medo ou sem vergonha.

O título da minha escrita da semana é mais um convite à leitura e reflexão sobre a temática de ser afrodescente na velha Europa. “Afropean”… não conhecia esta palavra mas quando recebi o livro de uma amiga que tinha ido a Londres rapidamente fiz uma tradução livre para Afropeu em vez de Afro-Europeu. A viagem por este nome parecia-me ser mais interessante e intrigante com esta tradução que me leva ao imaginário do lugar que ocupam os filhos dos africanos que nascem na Europa e rapidamente percebi que esta era a intenção do autor, Johny Pits que diz que a palavra “Afropean” o incentivou a pensar em si mesmo como um todo e sem hifenização … Fiz mais do que um interrail pela Europa e tenho conhecido alguns recantos do velho continente mas ler este livro tem sido como ver um mapa alternativo do continente que revela as múltiplas identidades e diferentes paisagens desde os bairros sociais caboverdeanos nas zonas periféricas de Lisboa, a Rinkeby uma área de Estocolmo com 80% de população muçulmana, a conhecer os estudantes africanos de Moscovo ou o notável subúrbio parisiense de Clichy -sous – Bois. Num documentário notável à busca da unidade entre os europeus africanos que introduz uma nova e singular voz que revela um continente invisível que mostra que ser negro na Europa não significa necessariamente ser imigrante. Várias histórias escritas e descritas de uma forma fascinante na 1ª pessoa de forma empática mas nem por isso menos urgente, é realmente uma viagem muito aberta através das vidas e vozes de pessoas e comunidades frequentemente não ouvidas e não vistas, onde a humildade e honestidade mudam muito a forma de ver este velho continente europeu. “Afropean” apreende a confusão de contradições que obscureceram a relação dos europeus com ser africano e a transformam em algo novo, confiante e lírico, como li numa crítica ao livro.

Recentemente fui desafiada a fazer uma versão de uma música minha “Hope” com um meu coro gospel para o Parlamento Europeu. Fomos 35 vozes a participar em que a maioria eram portugueses, de origem guineense, angolana, são tomense, brasileira, cabo- verdiana que deram a sua voz neste tema, se fizeram ouvir e foram ouvidas enquanto cidadãos europeus . Numa Europa que parece caminhar para extremos e que enfrenta dificuldades na aceitação de comunidades refugiadas, migrantes gostava muito de sentir que a multiplicidade de identidades que a caracterizam é realmente ser ouvida, por isso deixo o desafio de lerem o livro “Afropean” do Johny Pitts para que oiçam a voz, na 1ª pessoa de muitos dos habitantes europeus que vos são tão desconhecidos.

Tenho duas filhas de pai branco belga, mãe negra moçambicana que nasceram em Portugal. Vejo nelas as verdadeiras cidadãs do mundo e espero e nas minhas orações peço que nunca sintam vergonha, embaraço, ou opressão por serem de todo lado e de lado nenhum.

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berezinski
gerador-gargantas-soltas-selma-uamusse