Não é incomum a perceção da excecionalidade dos trabalhadores da cultura. Afinal, o seu ofício relaciona-se tantas vezes com os bens singulares, o imaterial, o criativo, a ideia e o projeto. Para um setor crescente, trabalhar é trilhar sulcos na nuvem digital, em “open spaces” de “co-working” frenético, mas alegre; de workshops fulgurantes e efémeros, mister por vezes desgastante, mas reconhecido e inovador, quais pioneiros da economia, sempre um passo à frente do comum dos mortais e suas anestesiantes e rígidas rotinas.

Por outro lado, tal labor inscreve-se em entidades raramente concebidas, em termos da sua representação primeira, como “locais de trabalho” ou “organizações”, contrariamente à fábrica ou ao escritório. Além do mais, muitos desses trabalhadores são independentes, avessos a qualquer cedência massificadora, adeptos do feito à medida e reagindo epidermicamente a qualquer pressão estandardizadora. Não têm patrão, controlam aparentemente ritmos e intensidade de trabalho. A um olhar ligeiro parecem obedecer apenas à sua vontade, talento ou “criatividade individual”: nem chefe, nem horário, nem paredes.

De certa forma, esta idealização do trabalho cultural à semelhança do trabalho artístico ignora que nem todo o trabalho cultural é artístico e que todo o trabalho artístico obedece a pesados constrangimentos materiais, tanto quanto um operário ou escriturário. É certo que a precariedade, incerteza e instabilidade do setor cultural são muitas vezes sentidas e vividas como virtude e apanágio de “pouco dinheiro”, mas “muita liberdade”. Todavia,  as hierarquias nas organizações culturais estão bem à vista: as relações de subordinação implicam despedimentos, informalização e falsos recibos verdes, como em qualquer outro ponto do terciário pós-industrial, e incumprimento de princípios básicos da legislação laboral. Com o vazio de atividades da pandemia, o estilo neo boémio de um imenso exército de reserva que circula intermitentemente entre meios estéticos e criativos, entre trabalho pro bono prestigiante e trabalho pago; entre períodos vertiginosos de atividade e pousios prolongados,  descobre que não consegue sobreviver, que a aceitação da precariedade como qualidade se torna insuportável e que a fome é tão fome quanto a de uma operária corticeira despedida. O “espírito empreendedor” deixa de ter eco na realidade e reverbera nos mundos fantasmagóricos da crise social.

Mas nem tudo é perda. A descoberta da alienação e da fragilidade reinventará redes e criará laços. Descobrir-se-á, hipótese otimista,  a interdependência e o trabalho coletivo. Da fragilidade da aura heróica do trabalhador cultural flexível nascerá, quem sabe, no respeito pelas subjetividades e talentos, um pulsar chão, exigente e comum. A um passo, perceber-se-á o tronco único entre trabalhadores precários e mal pagos de todos os setores . A um segundo tempo, exigir-se-á entreajuda e solidariedade entre informais e contratados, entre  emergentes e consagrados. Pois se a cultura e a arte acrescentam sentido e dinâmica ao mundo, não é menos certo que precisam de imaginar que um futuro é possível, sem esta permanente e torpe agonia.

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade  de  Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997).  É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes