A agenda do Serviço Educativo da Casa da Música para a temporada 2018/2019 surge como um livro colorido pela mão de quatro ilustradores portugueses. São eles Maria Vidigal, Ana Melo (mais conhecida como Amalteia), Hugo Henriques e Margarida Esteves. Este ano a curadoria responsável pela escolha dos quatro ilustradores esteve a cargo do Gerador.

Com o início de cada ano letivo, a Casa da Música, no Porto, apresenta uma agenda do seu Serviço Educativo que, para além de apresentar os espetáculos que vamos poder ver na temporada, os ilustra pela mão de jovens artistas portugueses.

Esta foi uma iniciativa que teve início em 2012 com o músico Manel Cruz. “A ideia surgiu após algumas reflexões internas. Dois motivos principais estiveram na base de recorrermos a ilustrações: por um lado encontrarmos na ilustração uma forma homogénea e coerente de fazermos a apresentação de uma programação muito vasta e dirigida a muitos públicos; por outro termos a capacidade de comunicar espetáculos, oficinas, formações e tantos projetos que muitas vezes se estreiam no ano de apresentação da agenda, não havendo por isso documentação fotográfica para os ilustrar”, explica Jorge Prendas, coordenador do Serviço Educativo da Casa da Música.

Desde 2013 que a ilustração da agenda está na mão de quatro artistas. A longa lista conta com nomes como Catarina Sobral, Lord Mantraste, Marta Monteiro ou André Loba em anos letivos anteriores. Apesar da ilustração ser uma das ferramentas da comunicação da Casa da Música, Jorge Prendas defende que o essencial será sempre aquilo que os espetáculos e oficinas transmitem às pessoas. “De nada serve uma boa ilustração se depois a atividade não corresponder ou superar as expectativas. Por isso mesmo a programação que propomos é bastante variada e contempla todos os tipos de público. Queremos sempre que as pessoas, aqui na Casa da Música, sintam uma continuação da sua própria casa”, acrescenta.

Quanto às 1200 iniciativas programadas para este ano letivo, o coordenador afirma que não existe uma iniciativa a destacar, “a única coisa que posso dizer é que há iniciativas para todo o tipo de público, uma constante preocupação nossa e uma missão da Casa”.

Espetáculos com Maria Vidigal

Esta área da agenda é dedicada aos Primeiros Concertos, Concertos da Casa da Música, Palestras Pré-concerto e Concertos Comentados.

A ilustradora encarregue de ilustrar as páginas dedicadas aos espetáculos foi a Maria Vidigal, que descreve esta oportunidade como um convite irrecusável. “Além de ser bom trabalhar para a Casa da Música, admiro o trabalho do Serviço Educativo e a proposta de levar a música a toda a gente. É daqueles trabalhos que se fazem com muito prazer”.

Durante o seu processo de trabalho partilha que pesquisou sobre cada espetáculo, ouviu muita música e usou as imagens que lhe iam surgindo, embora tivesse o cuidado de não se centrar apenas no seu imaginário, desenhando coisas que fizessem sentido para qualquer leitor da agenda. “Tento fazer ilustrações que consigam transmitir alguma coisa a qualquer pessoa: crianças ou adultos, de qualquer país ou cultura, condição social ou origem, grau de educação para a imagem, etc”, diz.

Quando questionada acerca da sua ilustração favorita selecionou a “Sonópolis”. “Inspirei-me naquelas peças de madeira coloridas para fazer construções. O meu filho está na fase de construir cidades com pecinhas e até foi ele que me deu a ideia, sem querer”.

“Sonópolis”, ilustração de Maria Vidigal

Oficinas com Ana Melo (Almateia)

Esta secção da agenda contempla as Primeiras Oficinas, as Oficinas da Casa da Música, Semanas Especiais, a Sexta Maior, a iniciativa Músico por um Dia e Música em Família.

A ilustradora que pensou esta área foi a Ana Melo, que viu nesta oportunidade um reconhecimento e valorização do seu trabalho. “Significa também assumir responsabilidade por um projeto de uma instituição importante, com impacto cultural e grande visibilidade”, conta.

Durante o seu processo criativo as maiores preocupações recaíram na relação entre o texto e a imagem e em que as imagens criadas tivessem o potencial para cativar as pessoas para ler a informação – “é importante fazer com que o público leia a imagem e que esta o transporte para o texto”.

Quanto às escolhas estilísticas, optou por cores fortes e apelativas, brincando com o imaginário infantil. Outra das estratégias que utilizou foi usar um pouco de humor para que as ilustrações agradassem a um público mais alargado e diversificado. Todas as suas ilustrações foram feitas digitalmente para ter mais escolha a nível de técnica e cores.

Ao pedido de escolher a sua ilustração preferida respondeu com a eleição de “Sexta Maior”. “Decidi então brincar com o óbvio e literal e desenhei uma banda de flautistas em que o sexto é literalmente o maior em altura. Inspirei-me nas fanfarras das festas da aldeia em que estão todos vestidos com farda”.

“Sexta Maior”, ilustração de Ana Melo

Formação com Hugo Henriques

Na área de formação podemos encontrar iniciativas relacionadas com Formar na Casa, Formar na Digitópia, 10º Curso Livre de História da Música e XIV Curso de Formação de Animadores Musicais.

Hugo Henriques foi o ilustrador escolhido para explorar estas iniciativas artisticamente, o que foi um desafio por o público infantil não ser o mais natural para si. De resto, mantém uma relação especial com esta instituição. “Vivi a escassos metros da Casa da Música aquando da sua construção e costumo regressar lá quando estou no Porto, cidade onde volto com frequência, onde mantenho relações de amizade e onde desenvolvo alguns projetos na área do design gráfico”.

As suas maiores preocupações foram interpretar, respeitar o texto e direcionar a ilustração para o leitor. “Acho importante que a ilustração funcione de forma isolada, mas que se baseie nas pistas presentes no texto. Depois acrescento algum ‘ruído’ e tento compor cada página de forma harmoniosa e ritmada”. Quando à técnica utilizada optou pelo desenho manual e tinta-da-china, tratado e colorido digitalmente.

Ao desafio de abraçar geografias distantes responde dizendo que entre Lisboa e Porto não existem diferenças muito acentuadas ao ponto de levar a interpretações erróneas do seu trabalho. Ainda assim, recorreu a elementos do conhecimento geral ou optou por criar situações onde a distância geográfica não fosse relevante. “Acho que existe um debate interno permanente sobre a eficiência do produto final, sobre o que tem de estar presente e sobre o espaço que sobra para adicionar elementos de um universo de alguma forma pessoal”.

Quanto à sua ilustração favorita escolheu a que ocupa as páginas 84 e 85 da agenda. “Elaborei esta ilustração com uma premissa bastante simples – juntar os dois textos que compõem a dupla numa única ilustração. O segundo texto é algo complexo de traduzir numa ilustração, por isso reduzi-o à ideia de ‘fuga’ e aliei-o ao fonógrafo e seu inventor, presente no primeiro texto. O objetivo era criar uma composição que ocupasse ambas as páginas e transportasse o fonógrafo para o universo dos objetos voadores propulsionados por música e manobrado por Bach em plena fuga!”.

Ilustração de Hugo Henriques

Fora de série com Margarida Esteves

Nesta última secção da agenda encontramos informações acerca de Projetos, Ensaios Abertos, Hot Spots e Itinerâncias.

A ilustradora Margarida Esteves ficou encarregue de ilustrar estas iniciativas. Se por um lado sente que é gratificante ter uma entidade conhecida internacionalmente no seu portfólio, por outro afirma que gosta sempre de ter um cliente português. “O facto de trabalhar e viver fora de Portugal, faz-me sentir um pouco distante e sinto-me privilegiada por oportunidades como esta, faz-me sentir perto mesmo estando longe”.

A sua principal preocupação foi ilustrar as páginas a si destinadas com uma estética coerente. “Gosto sempre de transmitir algo mais com o meu trabalho que complemente o texto que acompanha e que faça as pessoas descobrirem novos elementos”, explica.

Quanto ao desafio de desenhar propostas específicas para diferentes grupos e perfis de cidadãos, abraçando geografias distantes pelo caminho, Margarida afirma que comunicar com imagens é uma linguagem universal. “Acho que o mais importante sempre é fazer propostas que incluem toda a gente. Neste momento vivemos num mundo com tanta diversidade, observamos e convivemos com culturas completamente distintas diariamente. Acho inevitável e fulcral para o nosso desenvolvimento social a inclusão das mesmas. E qualquer meio usado para passar essa mensagem, seja ilustração, música, performance, é muito bem-vinda!”.

Como ilustração preferida nomeia aquela que acompanha o texto “Projetos”. “O edifício da Casa da Música é tão inspirador! Gosto de conjugar a arquitetura inovadora com a típica caixa de música. Ambas produzem bonitas sinfonias e novos projetos são sempre como uma caixinha de música, cheia de surpresas”.

“Projetos”, ilustração de Margarida Esteves

A surpresa é o que caracteriza o início de cada ano letivo com a agenda ilustrada do Serviço Educativo da Casa da Música, digna de ser guardada como um objeto de coleção. Jorge Prendas afirma que todos os anos são surpreendidos pelas ilustrações – “o bom das expressões artísticas é isto mesmo: a capacidade de sermos surpreendidos pela criatividade do artista. E, nestes seis anos de agendas e de mais de uma dezena de ilustradores, temos sentido este espetacular sentimento da surpresa”.

Texto de Andreia Monteiro
O Gerador é parceiro da Casa da Música

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