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Agir: “Não há nada mais perfeito do que a verdade”

Cantar Carneiros é o novo disco de Agir que conta com as colaborações de Milhanas, Bárbara Tinoco, Tainá e Isabel Ruth nas vozes. Alguns dias após o disco já ser de todas as pessoas, o Agir recebeu-nos em estúdio, onde partilhou algumas histórias que existem por detrás de cada canção.

©David Cachopo| Gerador

“Cai a noite, cantando carneiros palavras dançam”, assim surge o novo disco de Agir em alegoria às suas insónias que tenta tornar produtivas por via da criatividade. Trata-se de um disco completamente acústico, um registo que experimenta, pela primeira vez, num álbum em nome próprio. Assim, o músico procurou dar tempo e espaço a reflexões aprofundadas, abdicando da perfeição em prol da verdade, que é, por si, perfeita, cuidando da escolha das palavras que, desta vez, surgiram antes de qualquer melodia.

Das 11 canções que compõem "Cantar Carneiros", apenas uma não é da autoria de Agir. “Madalena”, canção de Isabel Ruth, surge em registo autobiográfico da atriz cantada a meias com Agir. Ouvimos ainda a voz de Milhanas na canção de abertura, “Constelações”, e canções escritas e cantadas com Bárbara Tinoco, em “Morada”, e Tainá, em “Tem Mais”. A capa do disco conta com uma fotografia de Arlindo Camacho e arte de Bordalo II.

Este registo mais íntimo de Agir chegará ao Teatro São Luiz, em Lisboa, no dia 25 de outubro, um concerto que contará com todas as pessoas com quem dividiu esta obra. Até lá, junta-te à nossa conversa, em que tentámos saber mais sobre a forma como se foi construindo o Cantar Carneiros, a forma do músico se relacionar com o pequeno mundo que o rodeia e pensamentos por detrás das palavras cuidadas de cada canção.

©David Cachopo | Gerador

Gerador (G.) – A noite costuma trazer-te um pico de criatividade que te dá espaço para pôr por ordem o bloco de notas que preenches com áudios. Cantar carneiros é a forma que encontras de fazer das insónias algo produtivo?

Agir (A.) – Sim, é quando consigo aproveitar e, já que não consigo dormir, tento tornar essas insónias produtivas de alguma maneira, umas vezes com sucesso, outras com menos, mas acho que isso é um bocadinho transversal a qualquer pessoa minimamente criativa. Normalmente, a noite e o silêncio que esta proporciona acalmam. Não serei o único a usufruir assim da noite.

G. – Já tinhas um disco preparado que seguia a linha de discos anteriores, mas avançaste com o Cantar Carneiros, com um registo diferente do que já editaste em nome próprio. Para ti, é importante, a cada projeto, descobrires e propores-te experimentar novos territórios musicais?

A. – Sim, e principalmente tentar, dentro do que me é possível, não me repetir. Estava a sentir que esse tal álbum, que já estava feito, para além de, à partida, ser um lugar mais seguro, o que também não me agrada por aí além, era um 2.0 do álbum anterior, e acho que, até ao nível do estímulo, é fixe tentar fazer coisas de maneiras que ainda não tenhamos feito, correndo o risco de resultar melhor ou pior, mas, pelo menos, para nós, é estimulante.

G. – Tens vindo a produzir vários/as artistas com registos diferentes do teu e, alguns/algumas até em início de carreira musical. Trazeres para junto de ti, musicalmente, esta diversidade de pessoas ajuda-te a teres também contacto com os mundos musicais que ainda possas querer explorar de forma mais profunda, em nome próprio?

A. – Sim, também, mas principalmente porque acho que fazer música sozinho é uma chatice, como quase tudo na vida. A música já me trouxe muitos e bons amigos, momentos e faço questão que continue a ser assim. Com pessoas que admiro, outras que vou conhecendo e passo a admirar como pessoas também, para além daquilo que fazem profissionalmente. E muitas já se tornaram efetivamente íntimas e amigas de casa, portanto, a música já me deu a conhecer muita gente fixe.

©David Cachopo | Gerador

G. – Procuras ser mais livre nas tuas coisas, não sendo tão livre nas coisas que fazes para/e com os outros. De que forma a menor liberdade com os outros te permite ser mais livre, em termos criativos, na tua obra?

A. – Isso tem que ver com o facto de eu encarar a maioria das coisas que faço para outros colegas de profissão mais como um trabalho e aproximar-me daquilo que esse colega procura, portanto sou capaz de ceder mais aí. Já tenho conseguido, nos últimos tempos, não fazer nada de que não goste mesmo. Agora, se fosse para mim, se calhar fazia de outra maneira. Depois, isso permite-me, até a nível financeiro, estar minimamente independente para não ter de ceder na minha música. Se quiser fazer uma música de 10 minutos, faço; se quiser fazer uma música que nem refrão tem, [faço]. Por exemplo, esta música que saiu com a Milhanas [“Constelações”] tem ainda uma boa parte à capela. À partida, não seria uma coisa para rádios. Curiosamente, há uma rádio ou outra que está a agarrá-la, mas, na minha cabeça, isso não iria acontecer. Não quero viver naquela prisão, tanto ao nível da quantidade, de já não lançar música há não sei quanto tempo, ou de ter de fazer músicas mais ou menos assim porque é o que se está a fazer e, se calhar, na rádio é o que resulta melhor. Quero fazer essas coisas no dia em que me apetecer e não como uma prisão porque tem de ser. Ter um trabalho secundário, que não deixa de ser fazer músicas para outros, [permite-me], depois, estar mais livre na minha para fazer como e quando me apetece.

G. – Já te aconteceu fazeres algo de forma diferente àquilo que farias, mas, no final, gostaste do resultado e viste isso como uma possibilidade para o teu trabalho em nome próprio?

A. – Certo. Até [me acontece isso] com coisas mais antigas, em que digo que naquele momento não me está a fazer muito sentido e, quando dou por mim, passados cinco anos, vou ali à livraria [das minhas músicas] e penso – “isto até era fixe”. Isto tem que ver com o timing e com o que se está a sentir na altura, ou não. Por exemplo, esse álbum que foi à vida e que, depois, acabei por fazer este [“Cantar Carneiros”] – tenho a certeza de que, não será o álbum inteiro, mas uma ou duas [canções], provavelmente, mais tarde hei de pegar nelas, nem que faça outra produção. Mas nunca são totalmente deitadas à rua, portanto é só uma questão de fases.

G. – Este é “um disco mais verdadeiro do que perfeito”, dizes. Que perfeições encontraste nesta tua verdade?

A. – A perfeição é essa mesma: assumir o erro. Olhar para trás, quando for mais velho, e lembrar-me das situações em que estava quando as gravei. As tatuagens, por exemplo, também têm isso – mais do que estarem na minha pele, é [sobre] o momento em que as fiz, quem lá estava nesse dia, o que aconteceu antes e depois. Os meus discos sempre foram muito solitários, porque eram muito eletrónicos e era eu quem os fazia. Este disco, já contou com muita gente, tanto que até quis fazer, na parte de dentro do disco, um tipo de booklet que tinha as fotos das sessões, como via em muitos discos antigos, como nos dos Beatles, por exemplo. Eles agora devem olhar para trás e dizer – “que giro, isto foi naquele dia em que estivemos em estúdio a gravar, àquela hora”. Quis fazer isso com pessoas que tocam comigo e que tenho a sorte de serem também amigos. Quis guardar esses momentos em que estávamos juntos, correndo o risco de, quando estávamos a tocar todos, o take de um poder não ter sido tão perfeito e, depois, não é editado até à exaustão, mas vou-me lembrar das parvoíces que dissemos nesse dia, de alguém ter dado uma ideia que fez com que a música ficasse assim. Era isso que queria guardar.

©David Cachopo | Gerador

G.Agora que já tens o disco cá fora, que as pessoas já o ouviram, e que tens todas as recordações, achas que esses erros, essa verdade, acabam por trazer a perfeição através das pessoas, das músicas e dos lugares em que partilhaste tudo isto?

A. – Sim, porque, sabendo que a perfeição, no total, não existe, acho que não há nada mais perfeito do que a verdade. Ou seja, o ser humano é falível, também. Até quando falha a voz, quando o som duma guitarra [aparece com] uma corda que se pisou mal, todas essas coisas dão carácter [à música]. Estamos a viver uma altura em que tudo é suposto ser tão perfeito, toda a gente tem uma vida perfeita no Instagram, toda a gente tem a pele perfeita e, nitidamente, isso não corresponde à verdade. Ninguém é perfeito 24 horas por dia, nem pouco mais ou menos. Nos tempos que correm, acho que é fixe tentar procurar alguma verdade no meio disto tudo.

G. – De que forma consideras que uma tour de concertos em auditórios se coaduna com este registo mais acústico de Cantar Carneiros?

A. – Pela formação, é um disco que, eu pelo gostava, que quem o ouvisse, que até podem ser menos pessoas, mas as que o fizessem fossem pessoas que quisessem mesmo parar para ouvir um disco e estarem mais atentos às letras, aos arranjos. Há de ser defeito de profissão, mas irrita-me a música ser, nas artes, a única coisa que fica como ambiente. Ou seja, nós não estamos a dar um jantar e pomos um filme-ambiente na televisão. E com a música, muitas vezes [é isso que acontece] – e ainda bem porque ajuda a juntar pessoas, a criar um mood. Mas cada vez sinto que é mais raro as pessoas pararem para ouvir um disco. Os auditórios têm um pouco isso. Não é um festival, com o stand da cerveja ao lado. É uma coisa em que as pessoas se predispõem, durante uma hora ou hora e meia, a ver isto com calma. Gostava que este disco conseguisse ter a atenção das pessoas.

©David Cachopo | Gerador

G. – “Podemos mudar o pequeno mundo à nossa volta”, partilhaste numa entrevista. O que tens procurado fazer para mudar o teu?

A. – Quando falei sobre isso, fi-lo ao nível de se ter alguma representatividade, de inclusão. Acho que não nos podemos considerar inclusivos, mas achar que só os outros é que têm de ser inclusivos [na prática]. Se disser que sou inclusivo e, depois, à minha volta só tenho homens heterossexuais e brancos, alguma coisa há de estar errada nessa tentativa de inclusão, portanto acho que, naturalmente, sem tentar forçar, gosto de ver, à minha volta – tanto em minha casa, como nos trabalhos que faço na empresa que tenho já a sorte de conseguir construir –, que [em relação a] todas as pessoas, de alguma maneira, essa representatividade é uma prioridade. Não tenho quotas, mas [é a tal coisa de] não conseguir mudar o mundo inteiro, mas se já tenho, na minha vida privada e profissional, algumas oportunidades e capacidade de decisão, a inclusão tem de fazer parte dessas decisões, também.

G. – Pegando neste tema da representatividade, deste por ti rodeado por mulheres no que diz respeito às colaborações que incluíste neste disco, mesmo que não tenha sido algo premeditado. O que te foi fazendo trazer estas mulheres, especificamente, para o Cantar Carneiros?

A. – A principal coisa foi a admiração pelo trabalho e pelas pessoas que são. A Milhanas é uma pessoa que também já é muito amiga, estamos inclusive a trabalhar no álbum dela, pelo que foi natural. Estávamos neste estúdio, mostrei-lhe a música [“Constelações”] e perguntei-lhe se gostava de a cantar comigo. Temos essa facilidade um com o outro. A Tainá foi uma artista que descobri através de amigos e andei com o disco dela durante meses, no carro, em repeat e, depois, fui metendo conversa com ela e, após algumas conversas, acabámos aqui no estúdio e compusemos a música em conjunto. A Bárbara Tinoco, neste momento, há de ser uma das mulheres que mais está a escrever canções, temos amigos em comum, e escrevemos essa música em conjunto. Até tivemos uma discussão ou outra a nível da conceção da música, mas tudo discussões saudáveis. E, depois, a história mais fora é a da Isabel Ruth, que a maioria das pessoas há de conhecer como atriz. Certo dia, o meu pai ligou-me e disse-me que a Isabel Ruth gostava que ouvisse umas músicas dela. Nem sequer conhecia pessoalmente a Isabel Ruth e muito menos sabia que ela compunha canções. Fiquei surpreso do porquê de ela ter vindo falar comigo, mas fui até casa dela, ouvi esta “Madalena”, entre várias músicas, que é a única música do disco que não é escrita por mim, e desafiei-a para a cantar no disco, e ela disse que sim, foi muito fixe.

G. – Neste disco, ouvimos-te insurgir sobre várias temáticas que notam alguma reflexão tua e o cuidado com as palavras. Achas que estas 11 canções acabam por surgir em forma de crónicas musicais do teu dia a dia, até por teres escrito primeiro os poemas e só depois os teres musicado (com exceção da “Madalena”)?

A. – Sim, até esse exercício de escrever os poemas sem qualquer tipo de melodia na cabeça e de como isso ia encaixar em termos de métrica, ou não, e simplesmente escrever e, depois sim, ter de adaptar a uma melodia e arranjo, não era, de todo, o método mais usual que usava, era totalmente o contrário. Depois, isto coincidiu com estes confinamentos que tivemos nos últimos dois anos. Até lá, andava cheio de trabalho, o que é bom, mas quando andas numa velocidade cruzeiro no trabalho todos os dias não te resta muito tempo para refletir, maturar ideias, pensar. Acho que foi das poucas coisas boas que esse ficar em casa, ainda que imposto, trouxe – poder refletir e parar para pensar numa data de coisas. Já as tinha mais ou menos na minha cabeça, mas não as tinha aprofundadas.

G. – E gostaste deste novo método e do que ele te trouxe ou achas que é uma experiência para ficar no Cantar Carneiros?

A. – Já tenho feito mais canções assim, para outros colegas. Acho que tem que ver muito com o estilo musical. Ou seja, neste estilo [mais de] autor, à guitarra, é mais fácil ir para aí. Quando estou a compor para um artista que é mais pop e eletrónico é mais fácil começar pela produção, pelo instrumental, e depois começar a fazer melodias por cima do instrumental. Portanto, tem muito que ver com o colega para quem vou escrever. Se é para uma pessoa que faz coisas mais acústicas, mais eletrónicas, e aí vou separando. Mas posso dizer que, mesmo que nunca venham a sair músicas, tenho escrito muito mais do que antes. Dantes fazia muitas melodias e só escrevia porque tinha de arranjar letras para as melodias que fazia. Ao dia de hoje, se for preciso, estou a escrever coisas que, provavelmente, nem são para musicar.

©David Cachopo | Gerador

G. – Depois da prosa e das rosas que nos chegam como canções, “nada mais é como d’antes” (“Constelações”)?

A. – Sim. Essa música começa com “corpos não são matéria de somenos importância”, porque damos muita importância, e bem, à alma e ao interior das pessoas, mas, efetivamente, quando as pessoas se vão embora, nós sentimos falta da matéria, do abraço e do poder tocar. Ainda que não explícito, fala da saudade que temos quando se vão embora pessoas, não só da parte interior, mas também da parte carnal.

G.Portanto, essa canção fala-nos também de como a presença do corpo nos altera, quando está e quando não está presente?

A. – Claro. É o conjunto que vai culminar numa cena fixe.

Videoclipe de "Constelações"

G. – “Não soltes palavras, por melhor que fiquem” (“Olhos Da Alma”). Notas que hoje é mais fácil soltar palavras não sentidas, muito em parte pelo ambiente digital em que falamos sem os olhos da alma à vista?

A. – Sim, e principalmente parece que é muito difícil encontrar pessoas com quem o silêncio não é confrangedor. Quando as encontramos, acho que é de estimar, independentemente de ser uma relação amorosa, um amigo. Acho que não há nada que prove mais cumplicidade do que duas pessoas conseguirem estar em silêncio na mesma sala e não ser confrangedor. Depois, é deixar que os olhos falem. Há pessoas que sabes perfeitamente o que estão a pensar e o que estariam a verbalizar só de olhar para elas, e essa cumplicidade é fixe.

G. – Que meio-termo tens encontrado entre a eterna insatisfação dos sonhos por alcançar e o momento presente com que já contas?

A. – Tem sido uma desconstrução lenta. Sempre vivi muito a não desfrutar do agora, a pensar no que ia viver a seguir, e isso deu para ter muitas memórias fotográficas das coisas que já vivi, mas, depois, não ter memórias sentimentais, porque, na verdade, não estava ali a 100 %, por já estar a pensar no que ia viver a seguir. Então, tenho-me obrigado a viver o agora, desfrutar e depois logo vemos o que vem a seguir. É um bocado clichê, mas é tentar viver um dia de cada vez.

©David Cachopo | Gerador

G. – O que faz de uma casa o teu ninho (“Mesa Para Dois”)?

A. – A pessoa com quem a partilho, os objetos, seja um livro, a mobília. São as coisas que, em conjunto com essa pessoa, vão entrando naquela casa ao longo do tempo. Não sou uma pessoa de [acreditar em] energias e assim, mas efetivamente há casas em que entramos e sentimo-nos logo bem e há outras que, por mais que lá estejamos, não nos sentimos bem nelas. Tal como acontece com pessoas. Há pessoas que mesmo que não as conheçamos há muito tempo há qualquer coisa que nos faz sentir bem ao pé dessa pessoa e acho que tem que ver com isso.

Videoclipe de "Mesa para dois"

G. – “Não somos todos iguais” (“Prescrever”), ou há quem também já tenha escrito que “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros” (George Orwell). Se pudesses baixar “as garras da justiça que nunca vem” o que não deixavas prescrever?

A. – Há tanta coisa que prescreve, mas acho que a coisa mais gritante é a desigualdade extrema de haver tanto dinheiro em tão pouca gente. Sou da opinião que o mundo tinha mais do que recursos para todos podermos viver bem, e ainda assim haver pessoas com um bocadinho mais do que outras. Tal como conseguimos sentir amor, também conseguimos sentir inveja. O ser humano tem todos esses lados bons e menos bons, que fazem com que, às tantas, o mundo tenha capacidade para estarmos aqui todos tranquilos e não estamos, infelizmente, porque não pensamos uns nos outros e pensamos em nós. Acho que essa desigualdade era o que tentaria mudar.

Videoclipe de "Prescrever"

G. – “Tu gostas de mudar e fazes tanta questão” (“As coisas estão bem como estão”). Achas que a mudança pode ser um vício da insatisfação?

A. – Sim, e acho que, embora quando é um vício não é moderado, com alguma moderação, para uma pessoa criativa, esse grau controlado de insatisfação criativa, conseguindo na mesma desfrutar dos momentos, não é assim tão mau quanto isso.

G. – “Só não queiras mudar o lugar do coração” (“As coisas estão bem como estão”). Que lugares já encontrou o teu e quais não queres mudar, porque estão bem como estão?

A. – Estou com trinta e poucos anos e, com esta idade – pelo menos está a acontecer-me –, começamos a fazer uma seleção de quais são as pessoas que muito provavelmente vão ficar na nossa vida para sempre e quais são aquelas que foram mais passageiras. Há muita coisa que se pode mudar na vida, mas há um conjunto, que são principalmente pessoas, que gostava que não mudassem, que se mantivessem e que acompanhassem de perto todas estas mudanças e eu as delas.

©David Cachopo | Gerador

G. – Gostas mais do conforto da tua morada. É lá que a tua história melhor se vai contando “grão a grão” (“Morada”, com Bárbara Tinoco)?

A. – Sim. Não sendo a pessoa mais aventureira, no sentido de viajar [e afins], até porque metes-me num avião e começo a ter ataques de pânico, ainda que possa parecer parado, o [meu] viajar vai ser sempre a fazer música, a ler um livro, a ver um filme. Tento viajar mais na cabeça e não tanto fisicamente. Acho que há várias maneiras de viajar e a minha será mais essa.

G. – Gostas “dela assim, real, como ela só” (“Nas Novelas”). Achas que é difícil acedermos ao real das pessoas com quem nos vamos cruzando, mesmo fora da tela, e que há cada vez mais uma tentativa de sermos à imagem do que alguém, já não sabemos sequer quem, ditou?

A. – Acho que há muita coisa que fazemos, que acredito piamente que foi [fruto de] construções, umas intencionalmente, outras não, mas que vivemos por repetição, e nem sequer nos questionamos porque é assim. Temos de ir para a escola, depois para a faculdade, depois ter marido ou mulher, depois filhos. Acho que há aqui coisas que são fruto da visão que nos foi incutida e que nós não paramos para pensar naquilo que efetivamente gostávamos de ser, ter e fazer e tudo o que possa ajuda a desconstruir isso é fixe.

Videoclipe de "Nas Novelas"

G. – Como é que no teu pequeno mundo, do teu dia a dia, consegues, ou não, desconstruir essas construções?

A. – As principais são em conversas com amigos, que não têm necessariamente de acabar com os meus amigos a concordar com tudo o que digo, nem era saudável, mas a tentar, mais do que falar, praticar isso. Obviamente, sei que sendo cantor consigo chegar a mais pessoas nas redes sociais, mas uma coisa de que já me apercebi é que, tirando uma coisa muito pontual, as coisas não se mudam nas redes sociais. As verdadeiras mudanças estão na forma como lido com as pessoas que me rodeiam, com que seriedade faço a minha profissão, com que seriedade respeito e promovo que as pessoas sejam o que lhes apetece. Às vezes, fazer barulho em conjunto também ajuda, mas já me apercebi de que não é o estar a mandar vir com tudo sem pensar, e sem critério, no Instagram, que faz com que as coisas efetivamente mudem. Às vezes, até pioram.

G. – Amar às prestações é uma estratégia de saborear o bom da vida mais lentamente, prolongando-o (“Prestações”)?

A. – Sim, tem que ver com, até uma certa idade, ser muito apressado, fazer tudo a correr, tudo por impulso, e, agora, querer aproveitar as coisas e de estas não terem de ser todas de uma vez, podem ser repartidas ao longo do tempo, com pessoas, e ter um bocadinho mais de calma a saborear as coisas.

©David Cachopo | Gerador

G. – Achas raro encontrar alguém que nos queira “com o limbo e as trincheiras, com as noites mal dormidas”, que nos apanhe os telhaços, que nos olhe até às entranhas com respeito (“Quero-te”)?

A. – Sim, até porque as noites mal dormidas normalmente dão em ser um bocado maldisposto, portanto encontrar alguém que consiga aturar isso... [risos]. É principalmente difícil, e quando se encontra deve estimar-se, encontrar alguém com quem te permites ser vulnerável, com quem não estás sempre no teu melhor e a pessoa ou pessoas em questão, também. Acho que estamos a viver numa altura em que, quer queiramos quer não, vivemos para alguma aparência e encontrar um grupo de pessoas, ou uma pessoa, com quem nos permitimos ser o que tivermos de ser, a fazer uma cara feia enquanto choramos, quando essas imperfeições vêm ao de cima, quando a encontramos é muito importante e é de estimar.

G. – Achas que hoje temos tempo para olhar para o outro e ajudar a cuidar das suas feridas?

A. – Sim, acho que devemos obrigar-nos, pelo menos a tentar, não ser tão autocentrados. É normalmente difícil, para um artista, não ser autocentrado. Quase todos os artistas são-no bastante, mas sendo mais ou menos, é tentar partir para as coisas com um ponto de empatia, tentar pôr-nos no lugar dos outros e perceber que o mundo não gira só à nossa volta.

G. – São esses “recantos da alma” que descobrimos em cada pessoa que, na verdade, acabam por nos fazer querer ficar ali até “não mais acordar” (“Quero-te”)?

A. – Sim, há pessoas que, por mais que as conheçamos e achemos que as conhecemos, têm a capacidade de, de dia para dia, terem uma coisa nova para acrescentar e uma atitude nova para ter. E serem cada vez menos autocentradas, deixando-se mostrar mais e querendo ouvir mais. As relações são orgânicas, vão evoluindo. Umas vezes, estão melhores, outras piores, mas é isso que, depois, as torna especiais quando olhamos para trás e vemos a história toda com essas pessoas.

G. – O que aconselharias a alguém que tem medo de se abrir e que não pise o seu chão, com medo de mostrar o que aí/ali tem mais (“Tem Mais”, com Tainá)?

A. – Tentar, de alguma maneira, dentro do que é possível, ler as pessoas à sua volta e ser mais seletivo para ter a certeza de que tem pessoas à sua volta a quem se pode mostrar e que são pessoas que, genuinamente, querem ver mais da pessoa, independentemente do que esse mais é e ter as prioridades no sítio. Acho que isso é o mais importante. Não me faz sentido, ao dia de hoje, estar com pessoas com quem não possa ser eu e com quem a pessoa também não se sinta também com à-vontade para ser ela própria. Portanto, essa deve ser uma prioridade – termos um círculo de pessoas próximas com quem possamos ser o que quisermos.

G. – Há alturas ou sítios em que sentes que ainda tens essas amarras e não consegues mostrar o que tens mais?

A. – Sim, e vai ser uma desconstrução até ao fim dos meus dias. Eu próprio, por exemplo, tinha muita dificuldade em verbalizar um “gosto de ti”. Achava que através de atitudes as pessoas percebiam que gostava delas, mas algumas pessoas precisam de o ouvir. Isso era uma coisa que me deixava desconfortável, dizer a alguém nos olhos que “gostava de ti”, mas agora não custa tanto e quero acreditar que, daqui para a frente, ainda vai custar menos.

©David Cachopo | Gerador

G. – Ser músico é, também, muitas vezes, dar voz e corpo às histórias de outras pessoas. O que encontraste, em ti, ao encorpares esta Madalena-Isabel (“Madalena”, com Isabel Ruth)?

A. – Essa música, segundo a Isabel, é autobiográfica dela e o que encontro nessa Madalena, logo nessa Isabel Ruth, é que se fosse possível personificar a liberdade acho que se iria chamar Isabel ou Madalena, porque conhecendo a Isabel é uma pessoa superlivre que diz o que lhe apetece, mas sempre duma maneira empática. Que nunca viveu a sua vida de acordo com as regras do que é suposto, sempre foi à vida dela fazer o que queria e da maneira que acreditava e continua, hoje, a fazê-lo. Acho que qualquer pessoa que esteja cinco minutos com ela percebe isso e ela é muito carinhosa, preocupada com os outros e muito livre na sua cabeça e atitudes.

G. – Foi, de alguma forma, pensado esta música [“Madalena”] vir em último e a seguir ao “Tem Mais”, quase como reposta a uma pessoa que não consegue mostrar o que tem mais e, de repente, tem aqui o exemplo de alguém que foi/é livre também por o ter mostrado?

A. – Aí vou dar-te props, porque, boa, gosto dessa observação, não a tive. Aconteceu por, para já, sonoramente, achar que fazia sentido estar ali, mas porque foi a última música [a entrar no disco]. As outras músicas, já as tinha todas. Essa, provavelmente nem iria existir, foi mesmo uma coisa de me ligarem e ter acontecido o que já contei.

©David Cachopo | Gerador

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