Surpresa é uma daquelas, poucas, palavras que pode significar algo de muito mau ou algo de muito bom. Quando nos ocorre este termo, cada um de nós tem determinadas associações, mais negativas ou mais positivas, dependendo das nossas próprias experiências. Será, sempre, no entanto, uma palavra com dois sentidos de interpretação.

Eu sinto-me apreendido nesse sentimento dual quando penso nos efeitos que a pandemia traz para a sociedade e, mais especificamente, para a cultura. As consequências deste vírus foram inesperadas, imprevisíveis, arrebatadoras e colocaram tudo em causa. Mas, tal como a palavra surpresa, podem ser expostas de duas formas.

É óbvio o seu lado negativo. Esta tem sido uma altura perturbadora, de dor, de angústia, de sofrimento. Também de incerteza sobre o futuro, uma nuvem de insegurança que desafia a nossa felicidade e estimula o esgotamento mental.

Mas, por estranho que pareça, vou sendo assoberbado por algum optimismo. Sem que nada o previsse, assim de surpresa, abre-se um ciclo de oportunidades único para a cultura. Inclino-me, mesmo, a afirmar que este pode ser um ponto de viragem irrepetível. Porquê? Por dois motivos.

Primeiro, a pandemia obrigou a que toda a cultura se instalasse de um lado da barricada. Todos os artistas, técnicos, produtores, programadores e decisores estão a convergir nos mesmos diagnósticos e no mesmo tipo de soluções. Não sei se este movimento alguma vez aconteceu no passado e suspeito que não acontecerá todos os dias no futuro.

Segundo, a população portuguesa ampara as preocupações do ecossistema cultural. Os portugueses afirmam, no estudo Barómetro Gerador Qmetrics que será publicado a 18 de junho, que a cultura é fundamental para compreender este momento pandémico, que a cultura é uma forma de educação e que a cultura é importante para ajudar a resolver criativamente problemas pessoais e profissionais.

E destaco, ainda, o facto dos portugueses, apesar de avaliarem positivamente as medidas genéricas de resposta à pandemia implementadas pelo Estado, são muito críticos em relação às iniciativas específicas previstas para a cultura.

Ora, temos toda a comunidade artística unida e os portugueses a clamarem por mais força para a cultura. Não é de aproveitar?

Esta é a ocasião perfeita para, finalmente, mudarmos o paradigma da cultura. E considero que existem três pontos fundamentais que devemos endereçar:

1. Estratégia

Não há melhor pretexto que este tempo para consolidarmos uma estratégia cultural clara para o país. É preciso auscultar autores, pensadores, decisores culturais, de sensibilidades artísticas distintas.

Não é um processo simples, claro. É uma tarefa hercúlea que, neste momento, tem abertura para ser concretizada. Toda a comunidade cultural está disponível para reflectir e agir. Só temos de ter coragem para dar os primeiros passos.

Julgo que o Gerador está a fazer o seu papel com a criação de um fórum de discussão de ideias, o Oeiras Ignição Gerador, e a consequente vontade de criar um Livro Branco para a cultura com os resultados desse debate.

2. Orçamento do Estado

Chegou a hora de pensarmos o orçamento para a cultura de uma forma mais alargada, de fugirmos dos dogmas actuais, estrangulados apenas na sua função mais objectiva.

Se o turismo tem sido uma das alavancas económicas de Portugal, então a cultura deve receber a quota parte desse sucesso. A cultura, nomeadamente o património, tem grande responsabilidade no interesse internacional.

Se, como os portugueses afirmam no Barómetro Gerador Qmetrics, a cultura é fundamental para a educação e para a resolução de problemas pessoais e profissionais, então temos uma oportunidade de melhorar o desenvolvimento humano e a cidadania. Basta investir na cultura.

3. Investimento Privado

É importante chamar as marcas a participar neste esforço. Quem está do lado da cultura deve empenhar-se neste desígnio e as empresas devem respeitar os desejos dos portugueses. O Barómetro Gerador Qmetrics deixa claro que 85% da população nacional considera que os privados deveriam apostar mais na cultura.

Mais tarde ou mais cedo, os portugueses começarão a privilegiar as marcas que assumidamente apostam na cultura e a deixar para segundo plano aquelas que se ausentam deste propósito nacional.

Este é o instante ímpar que temos de aproveitar. Há que lutar por esta transformação como se fosse a última chance. Agora ou nunca.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Começou a trabalhar aos 22 anos na Telecel e, pouco depois da mudança de marca para Vodafone, resolveu ir fazer estragos iguais para a PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca. Hoje é o Presidente da Direção do Gerador, a plataforma que leva a cultura portuguesa a todos.

Fotografia de David Cachopo
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