Diz-se que um dos dias em que uma tal rapariga chamada Madalena se empoleirou à janela da casa de seus pais na Rua Gago Coutinho em Viana do Castelo, passou de carro um rapaz chamado José que, embasbacado com a visão dela, subiu com as suas quatro rodas os degraus da igreja que se encontra a meio do cruzamento no fim da rua (qual Gago Coutinho ou Sacadura Cabral ele próprio, aviador rasteiro de coração a palpitar).

Foi assim que os meus avós começaram todo um romance que durou até morrerem. Possivelmente a história é mentira, ou terá sido a Madalena, exagerada e teatral, a contar. Ainda assim é um dos mais belos mitos que a minha família guarda e decide eternizar. Ele trabalhava nos estaleiros de Viana, ela escrevia na coluna social do jornal - assinando com pseudónimo. Ele era meigo, envergonhado, charmoso, ela espalhafatosa, exuberante, metediça. Ele não viu a Ana do Castelo mas viu do seu carro a mulher mais linda à janela.

Vou andar um pouco mais para trás na História. Domingos Roriz, pai de Madalena, alugou aquela casa, de 3 andares, para dela fazer dois poisos: um lar para a sua família e um estúdio de fotografia, alegadamente por causa da fantástica clarabóia no tecto do último andar. A casa que foi primeiro dele, depois dos amores à janela, foi mais tarde sítio de verão para as filhas da Madalena e do José, e por fim também o meu quando era criança, mas desta feita, como loja de fotografia no rés-do-chão, agora do Joaquim - sobrinho do Domingos Roriz, herdeiro da sua mestria. Impossível não me lembrar de espreitar o balcão da sala escondida aos clientes, onde se retocavam as fotografias, à mão, de lupa e de pincel, e eu Hedvig, a menina do “Pato Selvagem” de Ibsen, encantada com tal arte. Ao andar de cima só subi mais tarde, já adulta, com a filha da Madalena, minha mãe, que ia apontando para as salas fantasma: “aqui era a sala de jantar, aqui o quarto de dentro, aqui em cima era onde o meu avô tirava os retratos”. E eu de boca aberta, entre o espanto e a incredulidade - será possível que tivesse sido ali, no cimo de uma escada curva, a meio de corredor, encurralado entre uma parede e outra que o meu bisavô tivesse tirado todos aqueles retratos?

Levo-vos agora pela mão, calor lá fora, saímos da Foto Roriz e subimos a rua, não embatemos na Igreja de frente, viramos à esquerda, e um pouco mais acima vamos dar à Praça da República. Aqui… tanta coisa. Ali ao fundo as esplanadas, os restaurantes maravilhosos onde é obrigatório comer até rebentar, e aqui os Antigos Paços do Concelho onde a minha avó conseguia arranjar forma de nos colocar, à varanda, para ver e ouvir os bombos a tocar nas Festas da Nossa Senhora d’Agonia. Isso, para mim, é Agosto. Troco a praia, os gelados, o mergulho no mar, pelo som dos tambores na praça, o som a reverberar no peito, a aceleração desenfreada do coração, qualquer coisa ancestral, ensurdecedora, que se instala no ser humano e faz vibrar o centro da terra sem parar. A praça cheia de gente, os Gigantones e os Cabeçudos e os grupos de homens tocando cada vez mais depressa, cada vez mais alto.

De noite, durante as festas, eu e a minha avó ficávamos a dormir numa casinha pelo centro. Mas ir a Viana em Agosto também era ficar na Casa do Cachimbo a uns quantos quilómetros da cidade - a casa do Joaquim e da Matilde, a outra mulher desta história. Ela não era exuberante e barulhenta como a Madalena, ela era, para mim, a invisível, a que cuidava, a que cozinhava para quem precisasse, a mãe, ela própria a casa. Lembro o seu olhar azul, a sua delicadeza ágil, a sua voz cantada de sorriso envergonhado, a forma como sempre tratou de nós. Lembro também os imensos cães negros que guardavam o terreno (que grande fobia me deram), lembro a relva muito verde, os degraus vários dentro e fora de casa, os vitrais cheios de cor à entrada, a grande sala de estar e de jantar com a lareira - o Joaquim vestido de branco todo o ano, ainda fumando cachimbo - e à mesa as “batatinhas da Matilde”, o queijo flamengo cortado com mestria, a comida farta, o sotaque doce, a família grande, e o quarto de brincar, a seguir à cozinha…

Quando lá voltei há poucos anos tudo era como um rascunho do que a minha memória tinha desenhado, e também na Matilde a memória se estava a escapar, mas sentámo-nos ao lado uma da outra, e ela falou muito, mais talvez do que todas as vezes que me cruzei com ela na vida. As duas lado a lado olhávamos a grande sala como quem olha para um cenário que não é real. A realidade a fugir. Este texto é para ela.

Estamos longe agora. Tenho medo que sem Matilde e sem Madalena ninguém nos faça lá voltar. Todos os anos penso que é desta que havemos de ir a Viana.

Quase Agosto de agora

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos
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