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Da janela do carro as laranjeiras nos passeios, grafitis nas paredes, muito azul, muito cinza, e muita pedra branca. Pedra não - peso, ancestralidade, eco das Deusas. Atenas: cidade-cultura, terra-generosa, capital da língua-mãe, quase que cantada, saboreada à ponta da língua. Quando chegámos à casa branca de esquina onde iríamos ficar os próximos três dias, chamada “La Maison du Bonheur”, vimos que à porta, no chão, dizia “bem-vindos” em grego com pedras azuis desenhadas a meio da calçada branca - expressão-bandeira do assunto que nos levou a viajar até ali: a chegada diária de centenas de pessoas, fugindo da guerra, através do mar Egeu - 1000 a 2000 por dia naquele ano de 2016. A maior vaga de refugiados desde a II Guerra Mundial.

Não fomos úteis na nossa viagem, nada mudámos, meros turistas olhando de frente o sofrimento dos outros. Por cortesia da Embaixada Portuguesa na Grécia conseguimos ter acesso privilegiado às informações que procurávamos e gratos somos por essa oportunidade. Foi assim que soubemos pela primeira vez que os contrabandistas vendiam coletes salva-vidas feitos de material que afundava. Para onde vão tantos coletes falsos? Para onde vai tanta gente? Como fazer conversa de salão, com famílias ao frio nos pequenos barcos de borracha? Como jantar com tantos talheres e pratos enquanto chegam bebés sozinhos, sem ninguém, a uma terra desconhecida? Como ignorar as 40 pessoas que se tinham afogado nesse mesmo dia, naquele mar-cemitério?

Só vimos o porto de Piréus na noite seguinte, à hora da chegada do segundo barco do dia, que trazia sistematicamente sobreviventes da travessia até às ilhas, de corpo colado à porta movediça, cara lançada para a frente, olhar já na urgência de futuro. Os voluntários-heróis aguardavam, com gestos de quem se habituou à situação, reagindo a uma velocidade alucinante, à chegada rápida de toda a gente, sabendo que tinham de tentar ser úteis em pouco tempo de interacção. Uns traziam chá para dar ao maior número de pessoas possível, outros distribuiam e apertavam marsúpios, com gestos velozes e leves, a quem trazia crianças. Um rapaz jovem de sorriso luminoso disse: “posso ter um para levar a minha namorada”? E nós, desajeitados e surpresos, rimos. Ele fez-nos rir. Num canto, sentada no chão, uma mulher exausta, cara já sem nada, espera. Não há velhos. Os velhos não podem fugir.

Por trás de nós os desejados autocarros e os seus condutores violentos que gritam, apressam e expulsam: “Têm bilhete? Têm bilhete?” (e tudo sempre tão caro, o dinheiro todo dado aos traficantes, pelos barcos sem gasolina, pelos coletes falsos, pelos inflacionados bilhetes de autocarro, em troca de portas fechadas, de perda de papéis, de mentiras duras). Uns vão para a Macedónia outros para Idoméni, outros para a praça Victoria, sempre para chegar à próxima fronteira e depois para ir até à outra, uma de cada vez, como se o mundo fosse um planeta só, de pessoas livres.

Já no carro de regresso, só vemos pessoas e pessoas a andar a pé, carregando malas e filhos. Lá mais ao fundo um homem de costas, com as mãos numa grade que o separa do mar. Pensei no E la nave va de Fellini - a multidão dizendo adeus ao navio plúmbeo que passa e leva os privilegiados para longe, sem data de regresso.

De noite dormi mal. Ao longe o guincho desesperado de um gato em aflição parece chorar tudo de uma vez. Estava lua cheia.

Na praça Victoria, no dia seguinte de manhã, uma enchente de gente conversa em línguas diferentes. Terá sido para isso que se desenharam as praças. Reparamos que as caixas de electricidade da rua têm extensões de cabos onde é possível carregar os telemóveis. Algumas perguntas se ouvem sobre como chegar à Alemanha ou como transferir dinheiro de países longínquos até ali. “Insha’Alla possamos ir para a Europa!” Um carro encosta-se por perto, uma mulher abre o porta-bagagens e lá dentro traz cestos com sandes. De súbito a praça esvazia-se em torno do carro - nós, brutos estúpidos, achávamos que quem tem fome tem ar de vítima e não adivinhámos o quanto quem ali estava precisava de comer.

Fomos à praça por causa do Nour, que tínhamos conhecido em Lisboa e nos disse que era lugar obrigatório. Contou-nos da sua vivência naquele mesmo sítio: depois de ter conseguido distribuir 60 sacos de medicamentos a quem encontrou, cruzou-se com uma rapariga afegã, da idade da sua irmã, que apontou para o seu próprio nariz, dando a entender que estava doente. Nour, não querendo deixá-la sozinha, pediu que fossem por ele à farmácia mas o pai da rapariga começou a tentar puxá-la para se irem embora. Neste momento do seu relato houve uma pausa. “Fui eu próprio a correr à farmácia e quando regressei estive 40 minutos à procura da rapariga que já deveria ter apanhado o autocarro com a família para continuar a sua viagem. Até agora, todas as noites, quando tento adormecer, vejo a sua cara à minha frente a pedir-me medicamentos e só rezo para que ela esteja bem agora.”

Da praça pode apanhar-se o transporte para Elaionas - o centro de acolhimento de refugiados de Atenas - recusam chamá-lo de campo (embora que não deixe de ser um sítio inventado para isolar estas pessoas da sociedade, suspendendo-lhes os direitos): 4 hectares, 100 contentores, 600 pessoas, 7 voluntários…

Quem nos recebe é o muito jovem Mahmud Abdelrasoul: “sou do Sudão, vivo na Grécia e sou médico, de doenças cardiovasculares” - será ele quem nos vai acompanhar nesta visita, se é que se pode “visitar” um sítio assim. Em cima da terra batida uma série de pré-fabricados: “Aqui ficam as famílias, aqui as famílias com crianças e aqui os homens solteiros”. Cada pessoa que chega ao centro recebe um kit e uma chave com o número do seu contentor. Mais à frente entramos numa grande tenda branca presa ao chão, “aqui é o nosso recreio para as crianças”, diz Mahmud. Uma bola na garganta. Nunca na minha vida me vou esquecer daquela tenda: alguns brinquedos a um canto e uma mesa comprida com crianças, no topo da qual um menino muito direito diz num inglês perfeito “good afternoon”. Bola na garganta. Voluntárias dão folhas, canetas e tesouras de papel para trabalhos manuais em conjunto. Uma das meninas que recorta flores sorri enquanto aponta a sua tesoura na minha direcção como uma arma e faz “pum, pum!”. Uma parte de mim ficou ali ou querendo ficar e não o fazendo perdeu por lá um pedaço. Escrevo isto e só quero voltar, brincar com aquelas crianças, dar-lhes amor. Sair daquela tenda para continuar a visita foi dilacerante. Quis trazer toda a gente de avião para as nossas casas.

Ao lado, a tenda que serve de sala de refeições e espaço de actividades: “Temos um sistema de som e aqui se tocam diferentes músicas de cada país aqui representado. Depois de uma ou duas horas toda a gente fica feliz, dançando em conjunto.” Afeganistão, Irão, Síria, Marrocos, Nigéria, Líbano, Sudão, Iraque, Palestina, Nepal. Será que posso levar isto para a minha profissão? Será possível representar tudo isto num espectáculo? O centro oferece ainda aulas de inglês, celebrações religiosas, dentista. Vejo sacos de smarties nas mãos de alguns homens e rapazes jogando futebol. Toda a gente pode sair e regressar livremente.

À entrada chega um carro militar com 6 pessoas. O homem mais velho do grupo, sai lentamente e assim que percebe que se encontra finalmente (ainda que por momentos) num local protegido, terra firme, desmaia.

Muitas vezes, baixinho, pensei: “Não te esqueças disto, não te esqueças disto”. “I hope I will never forget how much I have learned. I hope I always appreciate all that I have.”[2] escreve Angelina Jolie no seu diário de viagem de voluntariado junto a refugiados em África, no Camboja, Paquistão e Equador. A verdade é que a nossa vida deste lado do mundo vai sendo invadida por corriqueiras coisas que nos afastam mas que não apagam (se não deixarmos) o que sentimos de essencial perante o que testemunhámos. Quando regressei de Atenas nada estava em seu lugar. A única coisa que soube fazer foi continuar a falar sobre o que vi, e ouvir quem me pudesse falar mais sobre a realidade, pessoas com quem aprendi muitíssimo, que tentarei por fim partilhar, em parte, com quem me lê:

Jamila Raqib, braço direito de Gene Sharp - autor do livro “Da ditadura à democracia” que de tão brilhante causou a prisão de activistas que o liam, em Luanda, entre os quais Luaty Beirão. Directora executiva do Albert Einstein Institution, entendida em técnicas de lutas não-violentas em resposta a regimes ditaturiais e conflitos mundiais, foi sempre generosa no seu diálogo comigo à distância - já por tantas vezes quase nos cruzámos em Portugal;

Rania Mustafa Ali, jovem corajosa, agora jornalista, que filmou aos 20 anos, a sua fuga da Síria - Escape from Syria: Rania’s odyssey, foi outra das pessoas que me escreveu de longe, dizendo que infelizmente não se poderá nunca deslocar da Áustria, onde conseguiu chegar, porque será repatriada se o fizer;

Anaísa Guerreiro e Marta Félix, mulheres de teatro que me contaram das suas viagens aos campos (impossível de resumir), e o quão difícil lhes foi voltar para as suas vidas, para os seus filhos, tendo formado A Solidariedade não conhece Fronteiras por não se identificarem com nenhuma outra organização pelos refugiados por onde passaram;

Sandra Ribeiro que conheci por causa da Anaísa e da Marte, foto-jornalista de quem guardo uma fotografia à minha mesa, tirada nos campos de refugiados na Macedónia (da sua exposição Rostos como os nossos), que me cravou na cabeça várias imagens do que viveu: o dia em que assistindo à violência da polícia perante os refugiados, puxou a máquina para os seus olhos e viu do outro lado da lente uma espingarda virada para si - uma arma e uma máquina guerreando por quem dispara primeiro;

Filipa Cê (Projecto Arzo) trabalhou como psicóloga num campo de refugiados afegãos do qual me escreveu um relato em forma de carta: “Entro numa sala descomposta. Vazia. Fria. Cabe-me a responsabilidade de tornar as próximas horas numa aula sobre ansiedade e como a contornar. Sinto-me sempre pequena, de discurso inútil face àquilo que vivem.”;

Sofia Lobo, actriz com quem nunca conversei ao vivo sobre isto mas que através do seu livro Diário da Sofia foi falando comigo: “Há um senhor mais velho, nunca o vi antes. Fato completo, talvez a única roupa que trouxe. (…) Observa o processo. No fim, quando nem sei se houve comida que chegasse para ele, vem pedir um copo. Sugar? Aponto. Mostra quatro dedos. Prova. Os olhos azuis, tão claros, as rugas profundas quase sorriem. Sweet, diz. And you, ladies, sweet, a mão no lugar do coração. Agarro-me ao copo seguinte, para não me esbarrondar. A minha vida em Coimbra é de uma completa inutilidade.”;

Nour Machlah. Tenho de acabar com ele (de quem já falei atrás), refugiado em Portugal graças às bolsas para estudantes refugiados dadas por Jorge Sampaio e que entre outras lições despediu-se da nossa conversa dizendo: «Não sei como é possível as pessoas recusarem-se a ajudar a terra onde tudo começou. É a vossa casa. Toda a gente do planeta tem duas nacionalidades, a sua e a síria. A Síria é o país mais antigo de todos. É a origem.”

Fizemos um espectáculo chamado Limbo que nasceu lá, naquelas tendas em terra batida, e que muito quero que possa, ainda que por uma última vez, ir a Atenas, dar de volta um pouquinho do que eu recebi de tudo isto, que ainda não sei relatar por completo. 

Outubro de 2021, quase 6 anos depois.


[1] Título roubado a José Tolentino Mendonça e ao seu “Perdoar Helena”; Assírio e Alvim; Lisboa; 2005.

[2] “Espero nunca esquecer o que aprendi. Espero ser sempre grata pelo que tenho” in Joie, Angelina; “Notes from my travels”; Pocket Books; NY; 2003

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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