Os processos colaborativos interessam-me. É através destes que consigo muitas vezes organizar as ideias que tenho para desempenhar as minhas funções profissionais e até as pessoais. 

Sou uma pessoa que estou sempre a pensar em tudo, custa-me parar de pensar e de fazer. 

A minha cabeça e corpo raramente param e tenho vindo a perceber que é bom ter por perto com quem falar e partilhar. São nesses momentos de discussão que surgem, na maioria das vezes, melhores ideias e soluções para avançar com processos e tarefas. E há fases que sem certos colectivos e ideias não sei se conseguiria avançar.

Este século tem-se imposto como época de individualidade, onde em muitas situações se ensina e faculta ferramentas para conseguirmos sozinhos pensar e concretizar, minimizando custos e tempo. 

Eu sempre fiz questão de ser independente e desenvolvi em mim essa capacidade. E por tal acho que tenho de conseguir ter sempre o controlo das minhas acções e que nem sempre preciso de outros para alcançar objectivos. Parece contraditório assumir isto agora, visto que sou em simultâneo uma pessoa que precisa de outros para avançar e sempre que tenho participado em processos colaborativos: é fantástico! Mas não me é fácil assumir, em determinadas situações, que preciso do auxílio de outros e que sem o qual tudo pode ser bem mais pesado.

Mas a verdade é que muitas vezes me sinto inibida em pedir ajuda, em organizar “ajudadas”, e penso que é um sentimento geral. Estarei equivocada? 

No século passado falava-se muito em “Ajudada”, expressão muito usada pelos pequenos agricultores quando prestavam auxílio reciprocamente nos trabalhos do campo. Esta expressão foi depois adotada em movimentos associativos e em causas de solidariedade social e voltou a cair, numa fase, em desuso. Agora, felizmente, volta a ser usada em processos e colectivos de diferentes naturezas.

São muitas vezes estes processos de colaboração colectiva que fortalecem movimentos de cidadãos e empoderam indivíduos, potenciando-os individualmente no movimento de grupo. O trabalho de grupo gera força e energia individual. 

É incrível o grau de envolvimento individual num processo colectivo, sem nos apercebermos e, muitas vezes, pensando que estamos a fazer para os outros, estamos a alimentar-nos e a empoderar-nos a nós mesmos.

E ao nível individual quando temos a capacidade de admitir e de avançar com o pedido de ajuda e organização da “Ajudada” podemos minimizar esforços e levar avante grandes feitos e mudanças!

Eu fico feliz por conseguir dar esse passo e assim concretizar objectivos pessoais que requerem muito tempo e esforço e, em simultâneo, perceber que tenho uma rede de pessoas e de boa energia à volta, e que é esse colectivo que me permite ser quem sou e me dá energia para avançar percebendo que juntos somos muito!

O ideal será sempre dar mais um passo e tornar este colectivo mais forte para que individualmente consigamos concretizar feitos pessoais, sociais e profissionais.

Não podemos ter receio de estar e trabalhar em colectivo.

As Ajudadas têm de prevalecer ao ego e à inibição individual.

Juntos somos todos bem mais capazes!

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
gerador-gargantas-soltas-marta-guerreiro