Mudou-se para Portugal para pôr em prática a sua visão do que é, ou pode ser, um ecossistema da arte sustentável. Estudou em França e na Irlanda, trabalhou durante vários anos em Londres, tornou-se curadora independente. Alice Bonnot sabe que os recursos do planeta estão a acabar e que a área em que se move é não só bastante poluente, mas também aquela em que pouco questionamento existe sobre o assunto. 

Porque a mudança não se faz sem uma identificação concreta dos problemas, Alice tem vindo a fazer estudos que lhe permitem dotar profissionais das artes com as ferramentas de que precisam para se tornarem mais sustentáveis. Convida-os a pensar em como se deslocam para o estúdio, que materiais utilizam, que tipos de viagem fazem e por que meios de transporte se deslocam as suas obras para exposições. É que de facto, todas as escolhas, por mais pequenas que sejam, contam. 

Para Alice, o processo curatorial não se limita a escolher obras que, no seu conjunto, façam sentido para uma determinada exposição. Um curador, hoje, precisa de ter a capacidade de fazer leituras do mundo, acompanhar as questões fraturantes, questionar e apoiar os artistas. É isso que tem feito com o curso Curating an ecologically sensitive exhibition, que serviu de mote também ao curso da Academia de Verão do Gerador, Sustentabilidade na concepção e produção de exposições. 

Tendo como base o percurso de Alice, bem como o seu mais recente estudo sobre sustentabilidade nas práticas artísticas, Environmentally sustainable artist studio practices [Práticas de estúdio de artistas ambientalmente sustentáveis], conversámos com a curadora independente. Bonnot dá algumas pistas sobre aquilo que pode ser um futuro de boas práticas, mas não nega que o mundo da arte está com dificuldades em encontrar uma transição ecológica.  

Gerador (G.) - És a diretora e fundadora do projeto villa villa, um programa sustentável e de consciência climática nas artes dedicado ao apoio de artistas contemporâneos, curadores, escritores, pensadores e outros agentes culturais e do ambiente, empenhados em desenvolver práticas mais ecológicas. O objetivo deste programa é tornar possível que os artistas tenham acesso a práticas mais ecológicas. Qual foi o motivo, no teu caminho, que te fez focar nestes assuntos enquanto profissional independente, ao invés de trabalhares numa instituição?
Alice Bonnot (A.B.)  - Em 2018/2019, quando comecei a olhar para o impacto negativo do setor das artes no ambiente, não existiam assim tantas organizações artísticas a olhar para este assunto. Enquanto curadora de arte independente a investigar assuntos socio-políticos, foi natural para mim conduzir a minha própria investigação no impacto ecológico das exposições de arte contemporânea.  Desenvolvi uma metodologia de quatro passos, para entender os desafios ambientais associados à curadoria, medindo esses impactos e percebendo como os reduzir. Comecei a dar aulas, com o curso Curating an ecologically sensitive exhibition, e a espalhar a mensagem através de vários workshops, palestras, webinars, para tornar acessíveis as ferramentas para que curadores pudessem ter práticas mais sustentáveis e fazerem o seu trabalho curatorial com uma consciência do seu impacto ambiental. Hoje, três anos mais tarde, o setor das artes começa a estar cada vez mais consciente  da urgência destes tópicos e muitas organizações de arte sem fins lucrativos e instituições começaram a surgir nos últimos meses, mostrando que um movimento verde está a começar a ganhar forma. 

G. - Este projeto é um convite para que os artistas se reconectem com o ambiente e repensem o seu caminho?
A.B. - O nosso objetivo no projeto villa villa é criar um lugar seguro e sustentável para que pessoas que trabalhem com arte possam envolver-se em ideias de sustentabilidade contemporânea e crescer enquanto comunidade que se importa com as pessoas e com o planeta. Através de um programa de residências artísticas com um final em aberto, exposições, conversas, workshops, e pesquisa de culinária plant-based, a nossa missão é conseguir os seguintes objetivos: primeiro, contribuir para o desenvolvimento de novas práticas artísticas que sejam sensíveis, tanto no campo ambiental como social, que sejam éticas e conscientes; depois, comprometermo-nos com ideias de vida e modos de fazer lentos; em terceiro, reduzir e melhorar o nosso impacto ambiental e social; e por último, inspirar outros indivíduos a juntarem-se às nossas ações. Isto pode ser entendido tanto como um convite para uma reconexão com a natureza, como para abrandar e permitir uma conexão com o tempo geológico de processos naturais. 

G. - Quais são os maiores desafios quando pensamos em arte e ecologia? A indústria cultural e artística são uma grande parte do problema (global)? 
A.B. - Os artistas, curadores, instituições, galerias, colecionadores e todos os profissionais das artes têm um papel crucial para tornar o mundo da arte mais sustentável. Enquanto outros setores têm estado a mover-se no sentido de se tornarem mais sustentáveis há já algum tempo, a indústria da arte parece estar a ter dificuldades em construir a sua transição ecológica. No entanto, para combater a séria crise ambiental que enfrentamos hoje, cada um de nós deve repensar a maneira como operamos. A pegada de carbono e o desperdício gerados pela organização de feiras de arte e exposições é enorme. Todos os dias, centenas de obras de arte são embaladas e enviadas para todo o mundo, energia não renovável é usada para armazenar obras em unidades de clima controlado, toneladas de CO2 são libertadas quando se voa para feiras de arte — paralelamente a outros hábitos que consomem muita energia e produzem muito desperdício. 

G. - Alguns designers de moda em Portugal, e por todo o mundo, estão a usar desperdício têxtil para criar as suas peças, mas não vemos tanto isto a acontecer na arte contemporânea. Achas que existe uma ideia de perda de valor para compradores quando sabem que uma peça foi criada através de desperdício ou materiais reciclados, no mercado da arte?
A.B. - Muitos artistas contemporâneos usam produtos naturais, reciclados, que não são tóxicos, sem que isto tenha um impacto no valor económico do seu trabalho — já que o valor de uma obra de arte não se baseia necessariamente no preço dos materiais. Mas tens razão, ultimamente os colecionadores têm muito poder no tipo de arte que é considerada bem sucedida em termos económicos. Portanto, os colecionadores têm o poder de compra para defender um mercado da arte sustentável, e devem usá-lo para exigir mais transparência por parte dos museus, galerias, instituições e leiloeiras, e para pressioná-las para adoptarem métodos de trabalho mais sustentáveis. Elas devem encorajar os artistas conscientes das questões climáticas ao dar-lhes o apoio de que precisam para transmitir a sua mensagem e continuarem a aumentar a consciencialização sobre a importância de respeitar e proteger as pessoas e o planeta. Os colecionadores podem, mais do que pensamos, ter um papel de liderança para transformar o mercado da arte numa economia verde.  

G. - E quais é que são, afinal, as práticas artísticas mais poluentes?
A.B. - Gostava de poder responder a essa pergunta de uma forma tão simples. Caso fosse possível, seria muito mais fácil resolver a crise climática e ecológica. Infelizmente, a situação é muito mais complexa. A prática de um artista pode ter um impacto negativo no ambiente por muitas razões diferentes, desde a toxicidade, nocividade e desperdício dos materiais utilizados, a dependência de recursos não renováveis nos processos, através da energia usada no estúdio, ao número de voos internacionais feitos para enviar obras de arte ou viagens para inaugurações de exposições, o que torna muito difícil comparar a pegada de carbono de uma prática comparativamente de uma forma tão generalizada. Se nos focassemos apenas em materiais, por exemplo, a toxicidade dos produtos nocivos poderia variar tremendamente, dependendo do seu nível de compostos orgânicos voláteis (COV), o seu nível de dano ao meio ambiente e à saúde dos usuários, as suas embalagens plásticas de uso único, se foram (ou podem ser) reciclados, etc. As práticas de arte digital, embora não dependam do uso deste tipo de materiais, também têm uma pegada de carbono significativa e, portanto, não são uma alternativa de baixo carbono.

O que é mais fácil de definir, no entanto, é o que é uma prática artística ecologicamente sustentável. É uma prática que considera o impacto de cada decisão artística, visa utilizar uma maioria de materiais, produtos e processos que sejam amigos do ambiente, éticos, produzidos localmente, reutilizados ou encontrados; uma prática que incorpora noções de circularidade, que ao criar loops e ligações locais ajuda a reduzir a quantidade de recursos utilizados e gerar valores locais dentro das comunidades. É também uma prática que se esforça por alcançar um impacto neutro através de múltiplas ações e soluções sustentáveis, como melhorar a gestão de resíduos, manutenção de estúdios e consumo de energia, reduzir ou melhorar as necessidades de transporte e fazer uma mudança para materiais naturais.

G. - Em março de 2021, através do estudo “Quão Sustentável é a tua Prática de Estúdio”, a villa villa recolheu informação de 131 artistas sobre os seus esforços para tornarem a sua prática de estúdio mais sustentável do ponto de vista ambiental. Uma das questões era “como é que te deslocas para o estúdio?”. Quando pensamos no transporte de obras de arte para exposições de todo o mundo, que já referiste aqui por diversas vezes, quais são as maiores preocupações que devemos ter em mente?
A.B. - O resultado deste questionário mostra que 33.6% dos inquiridos não têm um estúdio ou trabalham a partir de casa, 20.6% vão a pé até ao estúdio, 19.1% vão de bicicleta, 13.7% conduzem, 7.6% vão de comboio, 1.5% apanham o autocarro e 3.8% usam outros transportes públicos. Essa questão, embora talvez não seja tão crítica quanto as viagens de longa distância – são viagens que artistas, profissionais de arte e todos os indivíduos devem considerar. Estas viagens [de longa distância] podem ser ocasionais, o deslocamento para o estúdio é diário. Trata-se de encontrar um equilíbrio na emissão global de CO2 resultante de uma prática. Dito isto, se um artista pudesse focar-se apenas no aspecto mais poluente do transporte, então sim, por causa do clima, devemos desistir de voar. Se voar é, no entanto, absolutamente necessário, pode ser mais eficiente em termos de carbono, por exemplo, fazendo viagens mais longas, fazendo malas leves e evitando conexões e voos de negócios, que emitem mais CO2.

G. - “Tenho feito obras menores e mais fáceis de transportar, para poder enviá-las para uma exposição em vez de ter que viajar eu mesma. Então, um grande desenho pode ser composto de muitos pequenos desenhos, por exemplo” - disse uma artista na tua pesquisa. Os artistas devem pensar em como o tamanho e a ambição de seu corpo de trabalho interferem em sua pegada ecológica?
A.B. - O nosso relatório de pesquisa Práticas de estúdio de artistas ambientalmente sustentáveis contém muitos conselhos úteis, dicas e recomendações de artistas. Neste caso, a artista radicada em Bruxelas, Rachel Bacon, faz belos desenhos de grafite de 47 x 83 cm em papel alumínio que, combinados numa grade de 24 desenhos, tornam-se numa grande paisagem de 503 x 191 cm. Este é um excelente exemplo de uma prática que consegue manter a produção de obras de grande porte, ao mesmo tempo em que encontra uma solução prática para o transporte. Poder enviar obras leves por correio, preferencialmente por transporte ferroviário, é muito vantajoso. Isso mostra que as decisões ecológicas não têm que interferir no tamanho e na ambição de uma obra de arte.

O Gerador divulgou recentemente os resultados da sondagem sobre práticas artísticas sustentáveis, realizada pelo projecto villa villa.  O documento encontra-se em Inglês e pode ser consultado aqui. Sabe mais sobre Alice Bonnot, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia de Alice Bonnot