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Ana Amélia Carvalho: “Hoje é fácil encontrar informação, mas ninguém aprofunda nada”

Abundância de informações, notícias falsas e programas de inteligência artificial que geram trabalhos académicos: a tecnologia e a educação podem andar lado a lado? Ana Amélia Carvalho, Professora Catedrática da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (UC), não tem dúvidas dos benefícios da tecnologia educativa: “O pior erro que um professor pode cometer é ignorar o que está à sua volta”, afirma, ao Gerador.

Texto de Analú Bailosa

Fotografia da cortesia de Ana Amélia Carvalho

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Mestre em Educação e Mass Media e doutora em Educação pela Universidade do Minho, além de responsável pelo Laboratório de Tecnologia Educativa da UC, Ana Amélia Carvalho foi oradora na EdTech Summit Portugal. Organizado pela Universidade de Coimbra, o evento teve lugar nos dias 10 e 11 de março, com o objetivo de promover um espaço de reflexão sobre a educação e uma mostra de tecnologias aplicadas ao contexto de aprendizagem.

O programa juntou mais de 300 educadores no Convento São Francisco, em Coimbra, e contou, na sessão de abertura, com o pronunciamento da Comissária Europeia para a Inovação, Investigação, Cultura, Educação e Juventude, Mariya Gabriel, que destacou o trabalho europeu no âmbito da transição digital através do Plano de Ação para a Educação Digital da União Europeia. A intervenção de Amílcar Falcão, Reitor da UC, definiu o desconhecimento como motivação para o encontro e evidenciou a necessidade de uma maior ligação entre o ensino pré-universitário e universitário.

Após a sua participação na mesa-redonda "O papel do professor no novo contexto de aprendizagem", Ana Amélia Carvalho conversou com o Gerador sobre a adaptação do sistema de ensino português no período da pandemia, como dinamizar as aulas com técnicas de jogo e os desafios da nova geração de professores.

Fotografia de Paulo Amaral
Gerador (G.) – Sendo especialista em tecnologia educativa, como avalia, nesse sentido, a realidade em Portugal? Considera que o ensino no país tem acompanhado as tendências da área?

Ana Amélia Carvalho (A. A. C.) – Sim. Da parte do Ministério da Educação e da equipa da Direção Geral de Educação há uma preocupação muito grande a nível da capacitação digital. Nós, desse ponto de vista, estamos muito bem. Não quer dizer que todos os professores, depois da formação, acabem por usar a 100% [as técnicas aprendidas], é impossível, mas sensibilizamos muito [para o tema] e o acompanhamento que atualmente está a ser feito permite que não desistam. Com alguém dentro da escola e do agrupamento que pode acompanhar os projetos que estão a ser desenvolvidos, as pessoas sentem-se mais seguras.

G. – Com relação ao tema do painel que integrou, qual acredita ser o papel da tecnologia no novo contexto de aprendizagem?

A. A. C. – É uma parte importante que nos dá acesso a informação. Dantes, o professor era o detentor do saber, que ia às bibliotecas procurar informação para transmitir aos alunos, por isso ele era o mestre. Mais tarde, aparecem os manuais e ele dava as aulas com o apoio do manual que os alunos trabalhavam em casa. Atualmente, além do manual, há imensas coisas.

Temos de perceber que os alunos têm acesso à informação e que as aulas têm de ser motivadoras para eles, criando um problema de raiz. Ao abordar um assunto, o professor pode dar alguns sites para consultar e sugerir vídeos, mas tem de ser mais criativo, porque qualquer coisa muito concreta é encontrada [na internet]. Hoje é fácil encontrar informação, mas muitos ficam pela superficialidade, não aprofundam*.

G. – O papel dos professores passa por esse aprofundamento, então?

A. A. C. – [O papel] é muito mais desafiante. Primeiro, porque os alunos estão habituados a um dispositivo móvel, às redes sociais e a ter respostas imediatas às coisas que procuram. O professor vai orientar, como um curador de conteúdo: tem de ver porque a informação é válida, comparar com a que [os estudantes] encontraram, onde há desfasamento e o que têm em comum, porque as fake news dão cabo da vida das pessoas, que acabam por ser manipuladas, principalmente as que não são muito cultas – daí que eu achei muito importante quando a escolaridade obrigatória alargou, assim como o estímulo que existe hoje em dia para o ingresso no ensino superior, porque alarga horizontes.

G. – Naturalmente, a discussão sobre a necessidade de diálogo entre a educação e a tecnologia aumentou bastante durante e depois da pandemia. Considera que Portugal se adaptou bem a esse contexto?

A. A. C. – Durante a pandemia houve um esforço notável. Eu, por exemplo, já usava o Zoom para reuniões com colegas de outros países e até estava à vontade [com a plataforma], por isso, quando veio [a pandemia], dei formações e ajudei com as avaliações online. Sentia-me bem e preparada – não propriamente para a pandemia, mas para a utilização de tecnologias –, mas vi que professores de outros níveis, embora também houvesse gente que estivesse à vontade, fizeram um esforço sobre-humano, porque não usavam nada, mesmo no ensino superior.

Não parece, mas ainda estamos na pandemia e há pessoas que me deixam um bocadinho assustada, querendo esquecer tudo que aprenderam para voltar quase à estaca zero. Isso é preocupante.

A pesquisadora Maria Vieites Casado apresentou o projeto INCLUD-ED. Fotografia de Paulo Amaral.
G. – Porque acha que isso está a acontecer? Tem que ver com as idades avançadas da maior parte dos professores?

A. A. C. – Infelizmente, não. Algumas pessoas muito jovens, ou seja, futuros professores, são reativas à tecnologia. Ao longo da minha experiência, verifiquei, em vários mestrados em ensino, professores que sentiam necessidade de aprender outras coisas para dar aulas diferentes e não perder [a atenção dos] alunos, e esses eram muito recetivos à integração da tecnologia – já dominam os conteúdos, enquanto os mais novos ainda não, normalmente. Mas eu esperava, nos dias de hoje, tão à vontade que estão com os telemóveis, que [os jovens] fossem mais recetivos. Por isso, não é propriamente só o fator idade. Há pessoas que estão já numa fase avançada, que dizem já não ter vida para aprender estas coisas. Acontece que os aplicativos são fáceis [de usar], desde que se perceba a lógica, e depois são muito semelhantes uns aos outros. Agora, se a pessoa nunca usou nada, pode sentir-se um bocadinho inibida, verdade.

G. – Essa preocupação com os conteúdos pode ser uma razão para a reatividade dos mais novos à inovação?

A. A. C. – Acho que muitos deles tiveram uma educação muito clássica e sempre ouviram a professora a falar enquanto tomam nota. Eles têm de perceber que vão ter alunos com dificuldade em manter a atenção e que, por isso, vão ter de ser criativos e arranjar dinâmicas, na própria aula, que os motive.

G. – Recentemente, publicou um artigo sobre as perceções dos estudantes acerca do ensino remoto que indicava os aspetos que, do ponto de vista deles, poderiam ser mantidos ou deixados de lado após a pandemia. Pode comentar um pouco sobre esses resultados?

A. A. C. – Curiosamente, os alunos, em relação às avaliações, preferem as presenciais. Essa é uma parte interessante que não era esperada pelos professores. Eles [os estudantes] ficaram mais estressados, porque às vezes as perguntas eram mais difíceis no online. A maior parte deles ficou muito saturada de aulas remotas com os quadradinhos todos que ficaram a ver – o que eu compreendo, embora ache que [a aula à distância] pode trazer muitas vantagens no caso de uma pequena exposição ou discussão. Claro que, quando a pessoa tem muitos alunos, 60 ou 90, não vale a pena, mas devíamos tirar o melhor dos dois mundos. Algumas pessoas têm problemas com os horários – aulas que já são mais ao fim da tarde ou muito cedo de manhã – e, estando em casa, podem aceder com facilidade.

G. – Esse esgotamento sentido pelos estudantes está relacionado com a questão da atenção que falou há pouco?

A. A. C. – Também. É por isso que eu acho que as metodologias ativas, mesmo à distância, funcionam bem, desde que os alunos já tenham lido um determinado conteúdo. Gosto de lançar uma pergunta e fazer uma atividade em que, primeiro, a pessoa responde e, depois, conversa com o colega do lado ou com um pequeno grupo antes de cada um, individualmente, voltar a responder à mesma questão. Assim vemos o que realmente compreenderam e eles gostam disso. Quando era online, usava as salas do Zoom, ia acompanhando [os grupos] e funcionava muito bem.

Fotografia de Paulo Amaral
G. – Da mesma forma, estudou a reação dos professores às avaliações à distância. O que a vossa pesquisa concluiu?

A. A. C. – Os professores pretendem manter os quizzes e os formulários online que usaram, porque, muitas vezes, os alunos mudam a própria atitude e estão mais atentos [à aula] por saberem que o professor pode pedir para responder a determinada questão. Eu tento criar alguma dinâmica nas aulas porque compreendo que eles estão habituados a várias coisas e, pessoalmente, também não consigo estar muito tempo a ouvir uma pessoa a falar – tendemos a desligar se o comunicador não apresenta coisas que ninguém está à espera.

G. – A gamificação é, igualmente, um tópico que investiga. No que consiste e quais são os seus benefícios?

A. A. C. – A gamificação inspira-se nos games. Tem que ver com as técnicas de jogo que levam ao envolvimento das pessoas. Normalmente, utilizo o modelo Octalysis, proposto por Yu-Kai Chou, centrado nas emoções. As pessoas têm de se sentir envolvidas para fazer as coisas: ajudar o outro, ser melhor que o outro ou contribuir para um bem maior. Um exemplo de história seria o roubo d’Os Lusíadas, em que tínhamos de nos organizar para impedir isso – algo superior a nós próprios, porque era de interesse nacional manter a obra.

[A gamificação] trabalha o espírito de equipa da turma e todas estas dinâmicas, incluindo as pontuações e níveis que o professor pode atribuir, os deixa contentes e são uma forma de emocionalmente comunicar ao aluno como é que vai o trabalho dele, envolvendo-o mais na aprendizagem. Há quem seja muito mais criativo e, para gamificar uma aula, resolve mudar a unidade curricular na íntegra para criar um projeto cujo objetivo é X e os alunos têm de concluir uma série de etapas. São tudo abordagens possíveis que levam a um ensino diferente, não é uma brincadeira. E exige alguma criatividade da parte do professor, o que é bom para não ficar sempre igual.

G. – Não podemos deixar de falar de tecnologias como o Chat GPT, que já inspirou o desenvolvimento de plataformas para identificar textos gerados pelo programa. Na educação, há espaço para a incorporação da IA?

A. A. C. – Vamos dizer antes assim: não há como fugir dela (risos). Houve uma altura em que se comentava que a IA iria substituir um professor – não, mas um professor que usa a IA pode substituir outro que não usa. Ela ajuda-nos em várias coisas. O Chat GPT ainda está no início, mas vai evoluir muito rapidamente e nós não podemos estar alheados disto. O pior erro que um professor pode cometer é ignorar o que está à sua volta. As respostas que [o programa] dá são impressionantes e rápidas, em boa verdade. Agora, enquanto nós temos vários formas de detetar plágio, penso que, como não está online, elas não o apanham, embora possa haver ideias que consigam identificar noutros autores. Acima de tudo, temos de educar [os alunos] para serem honestos, porque pôr nas referências que consultou [a IA] não é nenhum crime, mas pode aprofundar esse trabalho [feito pela plataforma]. Não é vergonhoso deixar uma parte [do texto] que foram buscar entre aspas. Usar o texto do Chat [GPT] sem referir, isso sim é plágio e é grave.

*A frase inicialmente publicada era "Hoje é fácil encontrar informação, mas ninguém aprofunda nada.", alterada para "Hoje é fácil encontrar informação, mas muitos ficam pela superficialidade, não aprofundam." a pedido posterior da entrevistada. No entender do Gerador, essa atualização não afeta a intenção do conteúdo inicialmente recolhido.

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