Almada recebe de 21 de setembro a 10 de outubro, a 27.ª edição da Quinzena de Dança de Almada, festival que promete oferecer ao público “o melhor que se faz pelo mundo em dança contemporânea” através de uma programação que inclui diversos espetáculos e atividades relacionadas com dança, como workshops, exposições, encontros ou vídeodança.

Em entrevista ao Gerador, as diretoras do festival, Ana Macara (esquerda) e Maria Franco (direita) falaram do percurso deste festival criado em 1992. Passados 27 anos, Almada é autalmente uma cidade mais ligada à área da dança, onde a reabilitação de espaços contribuiu para um uso mais eficiente dos equipamentos para as diversas áreas da cultura.

Por outro lado, as responsáveis realçam que embora exista hoje um público mais educado para certas áreas, continua a existir alguma falta de “familiaridade” face à criação contemporânea, que o festival tenta promover.

Gerador (G.) – Chegam este ano à 27.ª edição da Quinzena de Dança de Almada. Qual o balanço que fazem do percurso trilhado ao longo dos anos?
Quinzena de Dança de Almada (Q. D. A.) – Quando em 1992 resolvemos criar um festival de dança em Almada, não nos passava pela cabeça que este projeto se manteria tão vivo durante tantos anos. Estamos muito felizes por ter podido acompanhar a evolução da dança ao longo do tempo, bem como o desenvolvimento das estruturas culturais do concelho. Saltos muito importantes na nossa programação foram-se devendo à possibilidade de utilização de novos espaços que foram sendo construídos ou reabilitados, como o Auditório do Forum Romeu Correia, o Teatro Municipal e também a reabilitação do auditório do Cine-Teatro da Academia Almadense onde também funciona a Companhia de Dança de Almada. Creio que temos aproveitado muito bem os equipamentos e todas as potencialidades existentes em Almada, de modo a deixar a nossa marca.

G. – O festival foi criado em 1992 e afirma-se como um espaço para a apresentação e promoção do que melhor se faz na dança contemporânea. Qual a importância de ter um festival que aposta nesta área, em especial na criação artística mais contemporânea?
Q. D. A. – A criação artística contemporânea, que se caracteriza normalmente por entrar em vias de pesquisa não anteriormente exploradas, aparece ainda como algo de estranho, inabitual, fora dos principais circuitos de difusão, e temos grandes artistas e grandes obras que continuam desconhecidos do grande público. A experiência de assistir a espetáculos de dança contemporânea é muito diferente da de assistir, por exemplo, a um concerto de música popular, e o modo de o apreciar implica um envolvimento do espetador no espetáculo, uma imersão para a qual nem sempre estamos preparados. O artista contemporâneo é frequentemente provocador, desafia o padronizado, experimenta novas fórmulas, procura comunicar de uma forma profunda que nem sempre atrai o grande público. Acreditamos que a familiaridade com este tipo de trabalho é fundamental para poder apreciar e desfrutar. Por isso nos parece fundamental oferece-lo, e cada vez mais, a todo o público disponível para o aceitar.

G. – Como foi pensada a programação deste ano?
Q. D. A. – A programação deste ano segue a linha do que temos vindo a seguir nos últimos anos. Procuramos oferecer um programa que prima pela diversidade, marcado pelos percursos variados das companhias convidadas e criadores selecionados. Procuramos autores que tenham algo a dizer, peças que acrescentem algo de importante à nossa experiência. Como de costume temos várias companhias convidadas e uma Plataforma Coreográfica Internacional. Temos também uma grande mostra de videodança, submetida a 6 temáticas diferentes, que demonstra a grande vitalidade da videoart especificamente dedicada à dança. Mas vemos tudo isto como um grande espaço de encontro entre pessoas que gostam de dança e querem partilhar a sua experiência, e para isso criámos espaço também.

“Adorabilis” da dupla de coreógrafos e bailarinos Jonas & Lander será um dos espetáculos em destaque desta edição © Fabian Andres Cambero

G. – Em que consiste a Plataforma Coreográfica Internacional?
Q. D. A. – A Plataforma Coreográfica Internacional apresenta trabalhos selecionados de entre mais de trezentas propostas internacionais. O nosso festival já conseguiu um reconhecimento internacional que faz com tenhamos cada vez mais criadores interessados em utilizar o nosso festival como forma de mostrar o seu trabalho, com visibilidade internacional. Foram também convidados vários promotores de outros festivais, que irão por sua vez escolher alguns destes trabalhos para levar aos seus países. E teremos um programa complementar durante os quatro dias desta plataforma – 3 a 6 de outubro – de modo a potencializar ao máximo o encontro entre criadores que se encontram em Almada durante este período. No total, passarão por aqui, apenas nestes quatro dias, cerca de 80 artistas.

G. – Almada mantém uma ligação forte com a área da dança. Em que medida éque este festival ajudou a sedimentar essa conexão?
Q. D. A. – A professora Maria Franco, Diretora da Companhia de Dança de Almada e Coordenadora Geral deste Festival, dá aulas de dança nesta cidade desde os anos 80. Ensinou e motivou para a dança várias gerações de alunas. Muitas delas desenvolveram percursos profissionais nesta área, como as coreógrafas Cláudia Dias ou Filipa Francisco, ou várias das atuais professoras de dança do concelho. No nosso público temos sempre um grande número de atuais e antigas alunas, que aproveitam o Festival para se reencontrar e cimentar ou desenvolver a sua relação com a dança. Por outro lado, foi-se conquistando para a dança um público fiel que retorna ano após ano.

G. – Por outro lado o festival abarca hoje em dia extensões da sua programação que vão até Lisboa. No futuro pretendem que o festival chegue a mais localidades?
Q. D. A. – O transpor o Tejo parece continuar a ser uma dificuldade para o público de Lisboa. Por isso nos parece importante levar até lá pelo menos alguma coisa do que aqui se passa. Mas de momento ainda não temos meios que nos permitam estender muito mais o alcance do festival. Talvez no futuro.

G. – Acreditam que atualmente os públicos estão mais receptivos à criação contemporânea, nomeadamente no campo da dança?
Q. D. A. – Se compararmos com o que se passava há 40 anos atrás, temos sem dúvida um público muito mais educado. Sobretudo, alargou-se a dimensão do público das artes que continua, no entanto, a constituir, de certo modo, uma elite. São muito poucos os grandes nomes que chegam a um público mais alargado. Mas temos muito mais artistas que se interessam e estão muito ativos pela criação na área da dança.

G. – Existe hoje um maior entendimento sobre o papel da dança nas artes?
Q. D. A. – Existe hoje uma melhor percepção de que a dança não é uma arte menor que mostra apenas “o príncipe a correr atrás da princesa” como eu cheguei a ouvir descrever a dança clássica. A dança, a par com as artes performativas em geral, preocupa-se com temas reais da nossa sociedade, investiga novas e atuais formas de criação, é movida pela necessidade de pesquisa e experimentação e intervém ativamente na nossa vida cultural. E isso é compreendido hoje sobretudo pela comunidade artística, certamente mais do que pelo público em geral.

G. – Ao longo de 27 anos, a Quinzena de Dança de Almada manteve-se como um evento preponderante na promoção da dança, mas também como espaço deaprendizagem, nomeadamente pela aposta em diversos workshop. Qual a importância de ter esse tipo de programação paralela?
Q. D. A. – Um dos principais conseguimentos deste festival tem sido o desenvolver do interesse pela dança. E isso conseguiu também que haja hoje muito mais professores e escolas de dança neste concelho. Percebemos que temos um efeito reprodutor, e isso é muito gratificante para nós. Sentimos que hoje já não é tão importante a aposta em workshops durante a quinzena pois eles já vão acontecendo muito mais ao longo do ano e isso é o mais importante. No entanto, não poderíamos deixar de aproveitar a passagem entre nós de grandes artistas, que também são professores, para deixarem a sua marca entre os nossos bailarinos e alunos. Este tipo de contacto com grandes artistas é por vezes fundamental no desenvolvimento dos bons intérpretes.

G. – Pensando em futuras edições, quais os próximos desafios para este festival?
Q. D. A. – Tentar manter o nível do festival deste ano é já um grande desafio, pois sabemos que temos um grande festival este ano, tanto em qualidade como em quantidade. Não é fácil mantê-lo se não conseguirmos mais meios. E talvez necessitássemos de muito mais meios para que a sua divulgação fosse mais eficaz. O grande desafio parece-nos ser o conseguir fazer com que mais pessoas sejam atraídas por tudo quanto temos para oferecer.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia cedida pela organização da Quinzena de Dança de Almada

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