Artista e cineasta. Com olhares e estórias, entre territórios franceses e portugueses, Ana Maria Gomes procura entender a construção das identidades pessoais e a forma como as mesmas podem ser influenciadas pela câmara.      
Formada na École Nationale Supérieure des Arts Decoratifs em Paris, continuou os seus estudos no Le Fresnoy, com especialização em vídeo-arte.

Por entre uma vasta bagagem de filmes, em 2014, realizou António, Lindo António, um filme sobre seu tio que deixou Portugal e foi para o Brasil há 50 anos, com o intuito de nunca mais voltar. O ano passado foi a vez de Bustarenga (2019), no qual apresenta o “espírito de uma aldeia tradicional, cujo património cultural está agora comprometido”.

A 28ª edição das Curtas de Vila do Conde não deixou que o seu olhar escapasse, ainda que não seja a primeira vez que participa no festival.

O Gerador esteve à conversa com a Ana para perceber um pouco mais da sua arte, da sua essência e das vivências que tanto procura expressar.

Gerador (G.) – O teu trabalho e olhar cinematográfico estão ligados à tradição, à família e à influência cultural, que se verifica direta, ou indiretamente, na construção de identidades pessoais. O que te levou a refletir sobre tal e, posteriormente, a construir o António, lindo António e, mais recentemente, a Bustarenga?  

Ana Gomes (A.G.) – A construção das identidades pessoais reflete um conflito interior que considero muito comovente e frágil: a própria essência de quem somos esbarra contra a ideia do que gostaríamos de ser e a imagem que outros nos enviam. Os meios e truques que utilizamos para tentar resolver estas tensões e reconciliar-nos connosco mesmos estão cheios de fantasias e engenhos. De alguma forma compensam as fendas e as arestas ásperas do nosso ser social. Estou muito interessada nesta dinâmica comportamental e tento colocá-la à prova nos meus filmes.

É claro que o ambiente social em que crescemos desempenha um papel importante nesta construção pessoal. Influencia-o necessariamente, razão pela qual os meus filmes estão fortemente ligados a um território e a um contexto sociocultural.

Assim, em António, Lindo António, há uma filigrana da questão de se reinventar longe do círculo familiar e, portanto, longe do papel que nos é atribuído por aqueles que sempre nos conheceram. O peso e a força da comunidade (representada através da família, numa versão minimal) são abordados em linhas pontilhadas ao longo do filme.

Em Bustarenga, quis brincar com o espírito de uma aldeia tradicional, cujo património cultural está agora comprometido pelo confronto de valores das nossas sociedades urbanas contemporâneas. 

Filme “António, lindo António” de Ana Gomes

G. – Partindo desses “princípios”, o que te faz construir estas narrativas a partir das estórias que te rodeiam?  

A.G. – Muitas vezes, recorro à minha história familiar e à minha experiência pessoal para escrever e desenvolver os meus projetos. Estas fontes são, então, mais ou menos, diretamente visíveis nos meus filmes. Talvez porque eu trabalho de uma forma bastante intuitiva e falamos mais sobre o que nos afeta diretamente.

O que os dois documentários apresentados em Vila do Conde têm em comum é que foram filmados na mesma montanha, no norte de Portugal, de onde a minha família é oriunda.

Como imigrante portuguesa de segunda geração, cresci em França, mas passo todos os Verões, desde criança, numa pequena aldeia desta montanha. Este lugar tem permanecido muito tradicional no seu pensamento e modo de vida. Longe da cidade, é como uma ilha que quase nunca vê estranhos. Quando criança, sentia-me completamente em desacordo com a minha vida quotidiana em França. O mais marcante foi a pressão social a que tive de me submeter durante o Verão (os meus movimentos foram verificados, o meu vestuário foi regulado, as minhas visitas foram controladas). 

A minha história permite-me estar tanto “fora” como “dentro” deste mundo. Os habitantes da aldeia consideram-me como um deles, porque partilhamos as mesmas raízes, mas eu estou no meio, observo-os do exterior, porque não vivo lá todos os dias. Posso ver as curiosidades que a aldeia guarda em si e que eles não veem. As situações banais e normais que constituem o quotidiano desta aldeia parecem-me, por vezes, extraordinárias e questionam-me. Assim, em algumas coisas, encontramo-nos completamente e, em outras, estamos a milhares de quilómetros de distância.  Estas sensações têm alimentado estes dois projetos.

Filme “António, lindo António” de Ana Gomes

G. – Comecemos com António, lindo António. A construção contínua, talvez revista como a “Saudade”, desde o início, levou-te a acreditar que “encontrarias o António”?  

A.G. – A necessidade do filme não era a de encontrar António, mas de o procurar. Isso é diferente. Penso que realça algo que põe as coisas em movimento. Não tem o carácter imóvel do encontro.  

Filme “Bustarenga” de Ana Gomes

G. – No caso da Bustarenga, é possível verificar diversas perspetivas do amor e do príncipe encantado. Partilhando uma expressão que, curiosamente, poderá descrever essa ligação quase utópica — “Pensar ou Casar”—, entendes que, de alguma forma, a busca pelo amor perfeito, por entre o cavalo branco e a neblina, são a construção “romântica” e incontrolavelmente “procurada” pela sociedade? Independentemente da presença tradicional e cultural?  

A.G. – Não acredito que esta seja uma construção procurada pela sociedade em geral, porque existem muitas sociedades no Mundo e cada uma cultiva as suas crenças de acordo com a sua história. Como muitas pessoas da minha geração que foram embaladas nos contos de fadas adaptados por Walt Disney (cujas versões diluídas não refletem as nuances interessantes dos contos originais), fui influenciada pela imagem do Príncipe Encantado na minha visão de amor.  

Além disso, não sinto que esta fantasia exista na sociedade tradicional da aldeia em que estou a filmar. A minha avó de 94 anos, que está envolvida neste assunto, não está familiarizada com este conceito. Quando falo com ela sobre isso, ela pede-me para definir o Príncipe Encantado, o que a traz de volta a um mundo de terra-a-terra que desfaz toda a sua aura sobrenatural.

Relativamente à linha “Pensar ou Casar”, acho-a muito interessante, especialmente posta em perspetiva com a ideia da Princesa estática (muitas vezes adormecida, escondida ou fechada à chave) à espera de que ela aconteça. Esta reflexão refere-se à ideia de que a ação deve preceder o pensamento. Pois a ação põe à prova a realidade, o que não é o caso do pensamento. Como diretora, esta ideia intriga-me e agrada-me muito.

G. – Os teus filmes têm alguma raiz documental?  

A.G. – Os dois filmes em exibição em Vila do Conde neste momento são documentários — mas talvez não num sentido puramente convencional e esperado, pois a montagem, que é muito articulada sobre o verbo, traz uma forte dimensão narrativa à construção do filme. Contudo, nunca dou a resposta às pessoas que filmo, mesmo que, por vezes, use pequenos truques para as levar às perguntas que me interessam. Mas isso é outra questão.  

Filme “Bustarenga” de Ana Gomes

G. – A tua presença em ambos os filmes é uma particularidade informal? Sentes que pode envolver o público numa construção linguística mais pessoal e, de certa forma, se identificarem com a história?  

A.G. – O que também me interessa na minha prática documental é ver como a câmara pode ter um papel ativo na construção das identidades pessoais. Como o seu lugar se ajusta no momento da filmagem de acordo com as pessoas filmadas, para desenvolver um jogo de representação com elas. Isto, porque a mera presença da câmara perturba a realidade. Desencadeia coisas — mesmo pequenas coisas — dependendo de como é utilizada. É uma qualidade que estou a tentar explorar, e é por isso que a câmara está muito presente nos meus filmes e me leva a interagir ao vivo com as minhas personagens. Esta particularidade permite, sem dúvida, ao espectador sentir uma certa proximidade com as pessoas que estão a ser filmadas.

G. – De 2015 para 2019 sentiste que houve uma evolução no que toca ao teu trabalho? Se sim, de que forma se verificou?  

A.G. – Cada projeto é uma oportunidade para novas experiências. Assim, a configuração da filmagem pode variar de acordo com o assunto, especialmente em projetos mais experimentais. Mas não é realmente uma questão de evolução, prefiro falar de constante adaptação aos projetos por uma questão de relevância.

Se comparares o meu primeiro filme, Simomen, realizado em 2001, com o último, Bustarenga, concluído em 2019, encontrarás a mesma essência. Claro que os temas dos filmes são completamente diferentes e as personagens são diferentes, mas a minha relação com a câmara e as pessoas filmadas é muito próxima.

G. – Acreditas que a influência cinematográfica pode influenciar o olhar perante a tradição e a cultura?  

A.G. – Parece-me óbvio. Experimento filmes um pouco como os encontros: alguns são mais fortes e mais impactantes do que outros. É uma questão de afinidade, sensibilidade e atenção.

G. – Em resumo, quem é a Ana Gomes, a realizadora?  

A.G. – Digam-me vocês!

Texto de Patrícia Silva
Fotografia de Henry Roy e da cortesia do Festival de Curtas de Vila do Conde

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