Ana Miranda fundou o Arte Institute em 2011, uma organização sem fins lucrativos, sediada em Nova Iorque, com o objectivo de partilhar a cultura portuguesa com o mundo, sobretudo, através de artistas emergentes. O seu percurso foi distinguido com o “Prémio D. Antónia Ferreira”, em 2015, e o Prémio da PALCUS, na categoria de “Leadership for the Arts”, em 2017.

De 18 a 25 de Setembro de 2020, realizou-se a segunda edição da iniciativa RHI (Revolution, Hope, Imagination), promovida pelo Arte Institute, que traçou um circuito nacional, o qual passou por onze cidades portuguesas, levando palestras, workshops/webinars e espetáculos, com vista a promover novos modelos de negócio para as artes e cultura contemporânea e criar novas relações entre a Arte & Negócio, Cultura & Turismo, desconstruindo preconceitos.

Gerador (G.) - Numa entrevista à RTP, referindo-te à criação do Arte Institute, disseste: “Jamais teria conseguido pensar isto se vivesse em Portugal.” Porquê?

Ana Miranda (A.M.) - Bom, por várias razões. Primeiro porque, nós, em Portugal, às vezes, damos muito pouco valor aos nossos. Valorizamos sempre os estrangeiros e esquecemo-nos de olhar para o potencial que temos aqui. É realmente um problema cultural, que vai mudando, e, nestes últimos anos, já tem mudado um bocadinho. Mas ainda há um longo caminho. Quando morava em Portugal, tinha o mesmo tipo de mentalidade, também valorizava pouco o que era nosso, achava que o sistema de saúde era horrível e que a educação não era boa. E, realmente, depois, quando chegamos lá fora, percebemos que não estamos atrás em coisa nenhuma. Pelo contrário, muitas vezes, estamos à frente. Estamos habituados a que isto seja o normal. Então, quando não temos uma comparação, parece-nos que é pouco, porque é o que as pessoas pensam e dizem. Estão sempre a dizer “lá fora que é bom, lá fora é que é bom”, e nós crescemos com esta ideia. Mas, quando chegamos lá fora, e eu já estou há 14 anos em Nova Iorque, apercebemo-nos de que há muitas coisas em que não estamos, de todo, atrás.

Se tivesse ficado em Portugal, primeiro não teria percebido que havia tanto talento português espalhado pelo mundo e, portanto, também não sentia esta coisa: “mas porque não vamos dar valor ao que é nosso?”. Isso foi, no fundo, o início de tudo, porque havia, na altura, imensas pessoas portuguesas a trabalhar no Metropolitan Museum. Havia uma portuguesa, também, a trabalhar no MoMA, e ninguém falava destas pessoas, em Portugal. E eu pensava: “Mas porque é que não se dá visibilidade a esta gente, em posições importantes, que podem ajudar o país a projectar-se cá fora?”. Comecei a aperceber-me de que também não havia representação de Portugal no exterior. Obviamente que havia representação nos consulados, mas não havia nos Estados Unidos, já há dez anos, e não mudou muito. Nós é que temos colmatado essa falha. A única coisa que as pessoas conheciam era o Fado, quando conheciam. E eu pensava: “Mas há tanta coisa contemporânea sem ser o Fado. Porque é que isto não chega cá?” Na altura, até havia cinco salas vazias no consulado, que era na 5ª Avenida, e nunca se passava um filme português, não se recebia um escritor. Pensava: “Isto não pode ser assim tão complicado.” Todos os países, mais ou menos, Espanha, Alemanha, Itália, França tinham o seu instituto da língua, fosse o Goethe, o FIAF, o Cervantes. Havia uma representação, e só nós é que não tínhamos nada. Mas, com o pouco tínhamos, também não fazíamos nada, e aquilo começou a fazer-me confusão. Foi sair daqui, olhar para Portugal de fora, para o nosso talento, para aquilo que realmente temos, e que eu conhecia bem, que era o mundo das artes, onde já me movia, onde trabalhava, que me fez também perceber que o nosso potencial era diferente, que nos tínhamos de projectar de outra maneira. Mas isto é igual para todos. Não é só em Portugal, e até costumo dizer que os americanos não sabem que não são os melhores do mundo, porque não viajam. Só que, lá, é ao contrário. As pessoas dizem que aquilo é o melhor. Isso não lhes dá perspectiva para perceber. Nunca chegam a descobrir, porque não veem. Aqui, no nosso caso, é o contrário. Nós somos o excesso por negativo. Costumo dizer que, nos Estados Unidos, é o excesso por positivo. Mas mais vale o excesso por positivo do que por negativo, porque, no fundo, acabamos por nos limitar e puxar para baixo.

G. - Consideras que o facto de serem uma organização sem fins lucrativos americana, e não portuguesa, criou uma imagem que facilita o financiamento?

A.M. – Acho que o facto de ser legalmente americana não é a diferença, até porque, em termos de financiamento, é mais complicado, pois, mesmo que queiram pôr alguma coisa em mecenato, não dá. Agora, o facto de estarmos nos Estados Unidos, da nossa sede ser em Nova Iorque, abre as portas, porque é um mercado a que pouca gente tem acesso, que as pessoas conhecem mal. Mesmo em termos de investimento, agora fora da cultura, para uma empresa que quer investir, é um mercado que todos almejam. Mas que é difícil e, portanto, o facto de estarmos lá e as pessoas perceberem que há uma outra projecção, um outro know how e que podemos ajudar na promoção... Ajudamos, também, as marcas das empresas a entrar no negócio, através dos nossos eventos, ou através daquelas mostras que fazemos, em que, no fundo, queremos dar uma visão global de Portugal e de Portugal contemporâneo. Portanto, arrastamos muita coisa connosco para além da cultura. Acho que isso é que é realmente a diferença e que, no início, terá aberto muitas portas, porque não havia mesmo nada. Então, estava uma organização portuguesa a escrever de Nova Iorque, a propor coisas que, normalmente, não chegam às mesas das pessoas e de quem decide. Fizemos uma coisa que foi, realmente, a pedra fundamental. Não ficámos à espera que o Estado nos viesse dar apoios para arrancar com o projecto. Nós arrancámos, construímos o trabalho e, depois, é que começámos a chegar a Portugal, a pedir investimento. Gosto de falar em investimento, porque o pacote de coisas que nós oferecemos é um bocadinho à modelo americano. Não é só um logotipo. Tem uma série de contrapartidas e, por isso, é que criámos o membership, em que as pessoas ganham mais coisas do que só o logótipo.

Quando falamos da iniciativa RHI, o que, no fundo, estamos a tentar passar é a mensagem de como fizemos, como estamos, há nove anos e meio, de pé, financiados, basicamente, pelas instituições privadas, pelas empresas, e não tanto pelo Estado, que temos. O Camões é o único que é constante. Estamos sempre a tentar diversificar, chegar a novas empresas, a levar o caminho, ou seja, não encontrámos uma fórmula e, durante nove anos, aquela fórmula foi a mesma. Não. Fomos percebendo o que é que funcionava, o que é que tínhamos que realmente fazia a diferença e que as pessoas tinham interesse. Isto é um work in progress. Dá muito trabalho, mas é como qualquer negócio. Em Portugal, as pessoas têm muitos problemas em olhar para o mundo do espetáculo como uma área de negócio da sociedade civil, mas é uma área de negócio igual às outras, como o turismo, a saúde, a educação. Por isso é que cada vez mais se começa a falar do turismo de saúde, de educação…. Há, cada vez mais, apostas das universidades em trazer, também, estrangeiros e vice-versa.

Isto é uma área de negócio, como outra qualquer, que, nos Estados Unidos, se chama show business. Mas a gente gosta de ir buscar os exemplos dos Estados Unidos quando é para mostrar que lá é que é bom e que lá é que era espectacular, e se faz grandes produções. Pois faz, mas a maneira como eles trabalham também é diferente. Gostava que as pessoas, em vez de olharem só para o lado que lhes interessa e convém, para diminuir Portugal, olhassem também para o outro lado, de como é que eles fazem e, por isso, é que o Arte Institute tem um modelo de negócio muito interessante e vários países já olharam para isto, e outras organizações estrangeiras, porque nós ficamos com um pé na Europa e outro nos Estados Unidos. Funcionamos muito com a mentalidade americana, mas os investidores são americanos, não se envolvem, não vão buscar dinheiro para nós. Muitas vezes, eles nem põem o dinheiro, mas vão buscar outras pessoas, que põem o dinheiro. Aqui, não. As empresas dão-nos aquele dinheiro, a gente tem de gerir aquilo, dar as contrapartidas que acordámos, mas ninguém se vai meter no caminho. Por isso é que acaba por ser inovador.

G. - A partir do site, os artistas candidatam-se com os seus projectos. Quais os critérios para a sua escolha? Como funciona todo o processo?

A.M. - Isto é um bocadinho de tudo. Portanto, não há uma única forma. Há projectos que vemos e gostamos e achamos que se enquadram, às vezes nem são para os Estados Unidos. Há muitos que levamos a África, porque estão mais vocacionados para ali. Outras vezes, são pessoas que escrevem e nós recebemos. Tentamos sempre acomodar o que nos chega. É muito difícil que sejamos nós a bancar o projecto todo, porque achamos que tem de haver outro tipo de apoios. Temos 120 mil dólares para trabalhar por ano. Isso tem de dar um bocadinho a todos. Se pagássemos os projectos de fio a pavio, fazíamos três ou quatro por ano. Queremos que este dinheiro chegue ao máximo de pessoas possível. Depois, há ainda uma outra vertente. Às vezes, crio os projectos e vou à procura de outras iniciativas, que encaixem connosco. Outras vezes, são parcerias. Eles propõem e, depois, acrescentamos. Outras vezes, vamos à procura da parceria e criamos o projecto com aquela organização, porque gostamos do espírito deles.

Não há uma fórmula. Tentamos, sempre, abraçar todos. Isto, para nos, é o fundamental. Obviamente, tem de estar em linha com o que fazemos. Às vezes, há projectos que nos chegam que não têm nada que ver connosco, mas tentamos direccionar para outras organizações, que os podem acolher. Mas, por norma, tentamos pôr o máximo possível, porque achamos que é fundamental que as pessoas tenham essa oportunidade e deixar o público americano, ou africano, ou o que seja, tomar a sua decisão. Podíamos ser óptimos a fazer produção, mas, se os projectos não tivessem qualidade, não era sustentável, ou seja, íamos uma vez para aquele país, mas depois mais ninguém queria ver, porque não gostou daquilo. Estou sempre a dizer que o mérito é muito dos artistas que levamos. Depois, há projectos que correm muito bem e continuamos a pedir-lhes mais. Desde que começámos a iniciativa RHI, estou também a usar um critério que é dar prioridade às pessoas que vêm à iniciativa, que falam connosco, tentam perceber o que estamos a fazer, porque acho que é justo. Acho que é justo que as pessoas que estão a tentar fazer de uma maneira diferente, que é a que nós estamos a tentar implementar, tenham prioridade. Já ajudámos muitas pessoas que nunca saíram de Portugal e muitas delas nunca vêm a um evento, apoiar outros artistas, e acho que isso faz parte de uma cultura que, em Portugal, se devia alterar. Acho que se deveriam apoiar mais uns aos outros. Já fui actriz…. Enquanto artistas, ao vermos os outros, também aprendemos, evoluímos.

G. - O Arte Institute tem sido responsável pela organização de diversos eventos culturais de arte contemporânea portuguesa, em Nova Iorque, incluindo o NY Portuguese Short Film Festival, a Semana José Saramago em NY, Pessoa in New York, Arte Institute Contemporary Dance at Alvin Ailey ou “Gaiola Dourada no MoMA”, entre outros. Como é que os autores portugueses são recebidos nesta cidade, em particular? Consegues identificar a criação gradual de um público para os eventos que promovem?

A.M. – Sim. Então, nós fizemos, só para ficares com os números, até à pandemia, claro, cerca de 125 eventos por ano, em 36 países, 86 cidades. Agora, com a pandemia, já temos até mais eventos, só que é muito online. Há essa diferença. Mas há uma identificação do público. Por exemplo, os americanos aderem às coisas de literatura, mas vêm porque também já conhecem. Têm pena é de não ter acesso a mais. Também tentamos levar às universidades, para estimular outros leitores e pôr o cinema também, para verem o que leram. Temos parcerias com várias universidades, nesse sentido. Com as curtas-metragens, é muito interessante ver o que aconteceu. É o único festival de curtas metragens portuguesas no mundo, que viaja para vinte e tal países todos os anos. São cinquenta e seis, acho. É muito interessante ver que as pessoas voltam, como é um evento anual, pois sabem que é, mais ou menos, naquela altura, e, por isso, é que tentamos, mesmo aqui, na Europa, não mudar muito as datas, para saberem. Isso tem muita adesão de outras comunidades, que não a portuguesa. Mas, em Nova Iorque, no festival das curtas, no início vinham só portugueses e perguntavam-me sempre: “Tens a certeza de que estes filmes são mesmo portugueses?” Como vão ver pouco cinema português, e alguns já estão fora há muito tempo, a ideia de cinema português que tinham era um bocado retrógrada. Acho que esse festival das curtas fez muito sentido, não só para mostrar novos realizadores, mas para passar aos portugueses a ideia de que o nosso cinema não é assim nada de se deitar fora. Estou a falar de há 14 anos. Mas, no Summer Night Series, que é nos parques de Nova Iorque, em que passamos cinema, ou há música, o público é, practicamente, todo estrangeiro, porque é no meio da cidade e as pessoas acabam por passar. Agora, há eventos que, pela quantidade que temos feito, as pessoas já sabem e estão na nossa mailing list.

Qualquer coisa que fale da marca de Portugal, que traga uma nova luz sobre o país…. As pessoas estavam cheias de interesse em conhecer Portugal, mesmo nos Estados Unidos, e o trabalho do Turismo de Portugal tem sido fundamental, nestes últimos anos. Temos sido, no fundo, a alavanca para isso. Começámos com um trabalho de formiguinha, mas, quando o país se consciencializou que tinha de fazer mais coisas, já estávamos lá, a garantir que as pessoas vêm a Portugal e, em Nova Iorque, podem ver um espectáculo português. Agora, os espectáculos ao vivo, em Nova Iorque, estão todos cancelados.

Mas, neste momento, está mais fácil trabalhar, aqui, em Portugal e na Europa, do que nos Estados Unidos, em termos das artes, porque aqui há regras. Fico super contente, porque fizemos o RHI. As pessoas estavam com muito medo que houvesse contágio. Fomos a onze cidades e não houve nenhum caso positivo. Ninguém se contagiou, porque, lá está, não é nas artes. Com a maneira como as regras estão estabelecidas, neste momento, é muito difícil que alguém vá a um espectáculo e se contagie. É isso que tem de se passar para o público. Vejo tanta conversa nos media e tudo mais, e vejo muito poucas pessoas a passar essa segurança. As pessoas estão sedentas de fazer coisas fora de casa, poder ir a um espectáculo. É importante que esta mensagem se vá passando. Não só promover o espectáculo, mas promover que isto, realmente, é seguro. E é. Andámos durante uma semana pelo país inteiro, para cima e para baixo, num autocarro. Acho que isso quer dizer alguma coisa. Claro que andámos sempre de máscara, a desinfectar as mãos. Tivemos todos os cuidados. É possível fazer, não é preciso parar tudo. Acho que é mais grave entrar num avião.

G. - Já levaste artistas portugueses a voar pelo mundo, aterrando em 36 países, 86 cidades, como referiste há pouco. Quais são os países que os acolhem melhor e procuram mais pela arte contemporânea portuguesa?

A.M. - Os PALOP, apesar da língua ser a mesma, recebem sempre toda a gente bem, embora haja um grande desconhecimento também do que nós fazemos, mais até no Brasil. Há muito intercâmbio, mas é mais de lá para cá, do que de cá para lá, apesar de ter avançado imenso nos últimos anos. Mas acho que todos acolhem bem, porque, muitas vezes, as pessoas até vêm por curiosidade, porque ouviram falar de Portugal e vêm ver qualquer coisa, só para terem uma ideia. Como não têm ideia nenhuma, acabam por ficar surpreendidas. Não sabiam que, em termos de riqueza cultural, o país também tinha tanta diversidade. Parece que é por acaso que levamos as coisas aos sítios, mas não é. À medida que entramos num país e ficamos a conhecê-lo, vamos percebendo também o que vai funcionar melhor ali. Temos acertado muito a curadoria, ao termos percebido o que o país quer. As parcerias são muito importantes, não só para nos acolher, mas também porque nos dizem o que as pessoas de lá gostam. Se as pessoas não gostassem, não conseguíamos continuar a manter esses países no circuito.

G. - Verificas uma transformação no percurso do artista, depois desta internacionalização? Geralmente, saem de um país, depois de terem partilhado o trabalho, com novas propostas? Notas, simultaneamente, um maior reconhecimento em Portugal?

A.M. - Cada caso é um caso, mas a norma, e atenção que já houve artistas que voltaram, depois, a ser convidados por outras organizações, que viram o espectáculo num sítio, num festival, e depois voltam, mas, a grande repercussão, normalmente, é em Portugal, porque ficam mais valorizados, principalmente com a história dos Estados Unidos, que é um mercado muito grande e difícil de entrar.  

É muito fácil perceber que as pessoas vão voltar a ver sempre que nós trouxermos. Por exemplo, quando pomos um artista no Central Park, e os últimos portugueses que lá foram, fomos nós que os colocámos, aliás, nem havia um dia de Portugal no SummerStage, o festival do Central Park, que é para cinco mil pessoas. Isso dá um impulso na carreira, mesmo até dos artistas portugueses que residem nos Estados Unidos, porque na primeira parte desses concertos ponho sempre um artista menos conhecido, mas que é lá residente. Isto dá-lhes uma projecção muito grande. É um show conhecido em todo o mundo. Qualquer programador, no mundo, percebe que se aquela pessoa já foi ali…. Abre muitas portas. E mesmo internamente, com próprios programadores de cá. Toda a gente me diz que, depois ter ido, tem mais espetáculos durante o Verão e que é contratado para mais coisas, porque acabámos por lhes ter dado visibilidade dentro do próprio país, no sentido em que nós fazemos produção dos espectáculos e as pessoas vão ver e, como são génios grandes, chama mais o olho e acabam por conhecer, às vezes, o trabalho de outra pessoa, que, de outra maneira, conheceriam menos. Estou, obviamente, a falar de nomes grandes, como os The Gift ou a Mariza, mas dos emergentes que, no fundo, são sempre a nossa grande aposta, que é tentar ajudar mais pessoas a dar o salto e a conseguir viver da sua profissão.

G. - Como tem sido a divulgação do RHI em Portugal?

A.M. - Acho que as pessoas demoraram um ano para compreender bem a iniciativa. Nós falávamos de arte e negócios, turismo e cultura, e isto são sempre aqueles palavrões, em relação aos quais as pessoas das artes têm aquele preconceito, destas coisas se misturarem. Só que estas coisas já estão misturadas. A partir do momento em que se vende um bilhete, é obvio que há um negócio por detrás. E o trabalho dos artistas tem de ter um valor e é muito importante que assumam isto, que deixe de haver esta vergonha. Temos de ultrapassar isto. É o primeiro passo. Acho que, no ano passado, muitos dos artistas não perceberam o que era. Perceberam que vinham uns programadores estrangeiros, mas também não se mexeram para conhecê-los. Mas, depois, acabava o evento e as pessoas escreviam a pedir concertos, quando os programadores tinham acabado de estar uma semana em Portugal e podiam ter ido falar pessoalmente. Não souberam aproveitar a oportunidade, porque, se calhar, não entenderam bem. É um projecto, realmente, com muitas vertentes, muito grande, e as pessoas, muitas vezes, não se dão ao trabalho de tentar compreender.

Neste ano, foi muito mais fácil, porque as pessoas já tinham uma ideia, já tinham visto o trabalho até Abril. Cada edição vai de Setembro a Setembro, só que arranca com uma semana em que estão onze/ doze cidades envolvidas, mas continua durante os outros meses com actividades, seja uma palestra, um espectáculo… Com a pandemia, criámos o RHI Stage. Tínhamos uma app, onde as pessoas podiam pagar os espectáculos. Isso deu um impulso muito grande, porque as pessoas perderam tempo para ver o que era e, através do RHI Stage, ficaram a conhecer mais. Foi fundamental, quanto a mim, esta preparação que se fez com os workshops de marketing digital, com as próprias empresas a dar formação, a parte dos fundos…. Foi uma adesão completamente diferente. Como não podíamos ter o público presente nos showcases dos artistas locais, porque em cada cidade pedimos para escolher quatro ou cinco artistas para se mostrar o que nela se faz, e normalmente são todos emergentes, que é a nossa preferência, a Antena 3 divulgou-os. Ficou-se a perceber que há, de facto, em Portugal, bons artistas emergentes. Estamos também a promover o turismo da região, porque uma pessoa que vá passar férias ao Algarve, se calhar, agora, já quer ir ver aquelas bandas e saber onde estão a tocar, e já marca, também, mais uma actividade ali. Estamos a impulsionar, simultaneamente, a própria carreira e a visibilidade destes artistas no país inteiro. Ou seja, nos shows tivemos mesmo os programadores lá, a verem, mas não tínhamos o público, em geral. Com a Antena 3, em dois dias, Loulé, por exemplo, tinha mais de duas mil visualizações de artistas que não estavam, de todo, no panorama nacional.

Isto tudo é muito importante, para além de estarmos a pôr os programadores num mesmo roteiro, as cidades numa mesma iniciativa, estamos a criar novos desenvolvimentos, para que se façam trocas de artistas, de projectos, no fundo, um networking nacional, que é o que quero, que as pessoas trabalhem em conjunto. A minha luta, com o RHI, é de capacitar o país a trabalhar de outra maneira. Isso, neste ano, correu lindamente. Isto faz com que os artistas comecem a rodar nacionalmente, que é importantíssimo, principalmente neste momento.

G. - Consideras que as câmaras municipais ainda estão longe de tomar a cultura como um impulso para o turismo e para a economia, que é precisamente o diálogo que esta iniciativa pretende?

A.M. - Acho que já estão mais despertas. Neste momento, as câmaras estão preocupadas com que não aumentem os focos de contágio.  Mas não deixaram de fazer. Algumas hesitaram muito, mas, no fim, perceberam que tinham de capacitar os artistas, pelo menos a formação era importantíssima. E já todas mandaram e-mail, a dizer que realmente foi importante e ainda bem que se fez. Isto, no fundo, mostra-nos um caminho. Se resultou agora, pode resultar para o resto do tempo e, portanto, acho fundamental que isso tenha acontecido, perceberem que não houve problema em termos de contágio, que se pode, na mesma, dar apoio às artes, abrir a porta para o turismo. Nós continuamos a falar do que é que os artistas podem fazer, em termos de turismo. Mesmo que não se consiga fazer agora, dá tempo para as pessoas se irem preparando, porque nalgum momento, o turismo vai voltar. Portanto, dá tempo para as pessoas pensarem, com calma, em novas maneiras de fazer e novas oportunidades para poderem gerir a sua profissão. Acho que, no ano passado, estavam muito abertos a isto. Aliás, uma das iniciativas que tínhamos já programado para este ano, era que houvesse agentes turísticos dos Estados Unidos, agentes de viagens, que já vendessem nos pacotes os espetáculos que íamos ter agora.

Neste momento, não há condições. Portanto, não era o momento para lançarmos isto. Não vejo isto como uma coisa terrível. Este era o segundo objectivo do RHI. O primeiro era a internacionalização. O que estamos a fazer é olhar para este segundo objectivo, de voltarmos para nós, solidificar a nossa maneira de trabalhar cá dentro e uns com os outros. Portanto, vai-nos dar tempo para prepararmos e aplicarmos isto com mais pés e cabeça, com uma consolidação maior entre os agentes, mesmo os turísticos e de outras actividades, e a pandemia vai obrigar as pessoas a sair muito da sua zona de conforto. Acredito que vai haver um avanço.

G. - Terminou recentemente a segunda edição. O programa das talks teve em atenção o actual contexto mundial. Quais os novos desafios e que respostas surgiram para manter vivo o movimento cultural?

A.M. - Esta questão que falava, da Antena 3…. Foram, realmente, espectaculares os resultados.   Primeiro, porque mobilizaste as próprias populações a puxar pelos artistas delas, as próprias pessoas das regiões de Leiria, Torres Vedras, promoveram os espetáculos, porque, no fundo, sentiram como os artistas deles, e depois também ninguém queria ficar atrás. Isto criou uma ligação muito interessante entre o público, os artistas e a própria cidade, no contexto nacional. Depois, a visibilidade que estes artistas ganharam. Até me vinham as lágrimas aos olhos, porque quase todos diziam “esta é a primeira vez que ouço a tocar desde Março”.  Nós percebemos que estávamos ali, e estávamos a pagar às pessoas, com uma lufada de ar fresco e uma esperança e uma maneira de fazer e tentar dizer “olha, isto pode ser feito desta maneira”, porque, se nós conseguimos, toda a gente consegue replicar.

O online vai estar sempre presente. Nunca vai substituir um espectáculo. Não estou sequer a conjecturar isso, mas vamos ter mesmo de fazer outras coisas, saber usá-lo a nosso favor, porque vai ser a plataforma para muita gente durante muito tempo. As pessoas têm de perceber como conseguem ser pagas e mostrar o seu trabalho, através disto. Quando é numa sala, é mais fácil, tens o bilhete e sabes que aquilo vai acontecer daquela maneira. Tenho dito às pessoas — “chamem bilhetes, chamem o que quiserem, porque donativo é o que damos a algo que não é trabalho, mas caridade”.

G. - Tens sido procurada por entidades portuguesas, públicas ou privadas, para aconselhar na construção de novos modelos e estratégias culturais e de negócio?

A.M. - Não, infelizmente. Com estrangeiros, falo muitas vezes sobre isso e, aqui em Portugal, estou sempre falar sobre isto. Mas, em termos do Estado, acho que só uma vez é que nos procuraram, em 2016 ou 2017. Essa pessoa também não ficou muito tempo no cargo em que estava e nunca se avançou.

Às vezes, por acaso, procuram-me, um ministério ou outro, mas, informalmente. Nunca é nos gabinetes, é sempre num café ou algo assim. Mas não me importo nada, porque vou continuar a falar. Mesmo que não me procurem, continuo a dizer. Depois, se quiserem ter estas ideias, como se fosse uma coisa que nasceu da sua cabeça, não há problema nenhum, desde que o façam bem. O meu medo é que, normalmente, quem não tem a experiência ou o caminho feito, não consegue encontrá-lo, porque não o fez. Tenho muita pena, principalmente de Portugal. Agora, por organizações estrangeiras, já fui convidada muitas vezes.

G. - Este cenário pandémico está a ter um forte impacto na acção do Arte Institute, visto que há uma redução na circulação? Como lhe pretendem fazer face?

A.M. – Tem sido um grande exercício de imaginação para continuarmos a manter a actividade e tudo certinho. No SummerStage passou, não fizemos os shows todos que tínhamos programado, mas ainda tivemos o Moullinex.  Estamos a fazer muita coisa online, em África. Vamos fazer também, agora, um festival da CPLP, de cinema, em Angola, ao vivo, e, em Cabo Verde, o festival de curtas metragens, também o foi. O mais complicado é levar as outras coisas, sem ser o cinema, porque as salas de cinema estão a abrir. Mas estamos a começar a gravar espectáculos específicos, ou seja, não estamos a usar um show que o artista já tinha, que é uma maneira de continuar a levar o trabalho das pessoas aos sítios e o público começar a perceber que aquele espectáculo está a ser feito especialmente para ele, apesar de não ser ao vivo. Para os artistas, é uma maneira de continuar a trabalhar. Enquanto não pudermos viajar, vamos continuar neste modelo. É nos Estados Unidos que está mais complicado. É mesmo o sítio onde não há autorizações para fazer praticamente nada e, portanto, os parceiros também não querem programar. Também não conseguimos pôr lá os artistas. Se já era complicado antes, agora é mais. Por outro lado, está a dar-nos tempo para fazermos apostas em rádios e criar outro tipo de parcerias que levem as pessoas a viajar sem sair do sítio.

G. - Numa entrevista ao Empreendedor, em 2019, disseste que os teus próximos projectos serião “ampliar o RHI para os países da lusofonia e aumentar a sua rede de parceiros em Portugal” e integrar o Arte Institute “num espaço em Nova Iorque onde se possa também fazer a promoção da marca e das empresas portuguesas.” Como está o processo de concretização destes?

A.M. - Em termos de Portugal, acho que não podíamos ter conseguido fazer mais. Acabámos por investir muito tempo, neste ano, em Portugal, onde cimentámos e aumentámos as parcerias. Em termos de fazer o RHI lá fora, vamos ter de esperar, pelo menos até haver a vacina.  Neste ano, era em Julho, em Paris, não era aqui, em Setembro. Devemos retomar isso, assim que for possível, mas achamos mesmo que não há condições, agora, para as pessoas viajarem, e nos próprios locais ninguém está à vontade para receber alguém de fora.

No que diz respeito ao espaço em Nova Iorque, acho que não é de todo o momento, porque está tudo muito restringido e é um investimento brutal. É uma coisa um bocadinho “fora da caixa”, para Portugal, e, neste momento, ninguém investiria num projecto destes.

G. - Que perspectiva a distância geográfica te abre sobre o estado da cultura em Portugal, ao longo destes 14 anos em que vives em Nova Iorque?

Em Portugal, que é muito a cultura europeia, ainda se fica muito à espera dos fundos, ou dos apoios estatais, ou do mecenato, de que se fala muito. Parece que não há outras soluções. Enquanto classe artística temos de ter uma actualização. A pandemia veio mostrar isso. Não estávamos preparados, mas ninguém estava. O que não tínhamos era as ferramentas para nos agilizarmos para dar resposta mais rápido. Dou este exemplo do marketing digital. As pessoas não sabiam muito bem como capitalizar as redes sociais. O vocabulário usado, como os donativos, não nos mostra como profissionais e não nos ajuda a mostrar que o nosso trabalho tem um valor.

Não estou a dizer que o Estado não tem uma obrigação. Obviamente que tem, mas não é o único. Nunca vai chegar para todos. As pessoas têm de procurar outras maneiras de fazer, posicionar-se de outra maneira mais pró-activa.  Não estou, com isto, a dizer que os artistas não trabalham. Trabalham imenso. Obviamente, a nível artístico, evoluímos imenso, e só me dá orgulho ver o trabalho que fomos construindo. Mas, como profissionais e na forma de nos posicionarmos numa área de negócios da sociedade, temos de avançar. Estamos muito estagnados, e a pandemia está a obrigar-nos a procurar novas soluções. Nesse aspecto, acho que a pandemia pode ser bastante positiva.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia de Clara Pereira