Em Dia Internacional da Felicidade, nada melhor do que falar do que nos faz felizes: a cultura. Conversámos com Ana Zão, médica fisiatra especializada em Medicina das Artes Performativas e pianista, sobre a grande falta que a arte nos faz.

O bem-estar físico e psicológico dos artistas, diz a especialista, ficou afetado por este prolongado período de suspensão de atividades. Apesar de considerar que a nova fase de retoma pode gerar um acréscimo de ansiedade para os artistas, Ana Zão reconhece a importância do seu contributo para a felicidade de todos nós.

No seu caso particular, diz que a mistura invulgar de medicina e música é natural e se “complementa” no seu dia a dia, sendo por isso parte integrante da sua realização pessoal. 

Gerador (G.) - Este sábado, dia 20 de março, assinala-se o Dia Internacional da Felicidade. Sendo artista, esta próxima fase de reabertura da cultura é sinónimo de felicidade?

Ana Zão (A.Z.) - Sim, embora, como sabemos, ainda vai demorar um pouco para reabrir. Não será já das próximas a desconfinar, mas sim, obviamente que sim. É fundamental, porque uma sociedade sem cultura é uma sociedade muito menos rica. Portanto, é fundamental não só para quem pratica as diferentes artes e quem nos ajuda a aumentar o nosso nível cultural, mas também para toda a sociedade que, no fundo, tira partido da cultura e de tudo aquilo que ela pode trazer de bom para a formação do indivíduo e da própria sociedade. Portanto, é fundamental e é premente, porque, no fundo, ajuda-nos também a sermos mais felizes e a sermos mais saudáveis, inclusive do ponto de vista de saúde mental.

G. - De que forma esta suspensão das atividades culturais pode ter afetado o futuro desempenho dos artistas e, consequentemente, o seu bem-estar físico e psicológico?

A.Z. - No fundo, os artistas viram ser cancelados imensos concertos, imensos projetos que tinham em mãos e que tinham já preparado, alguns deles há bastante tempo. E, portanto, não é uma situação muito fácil para gerir, porque ficaram impossibilitados de desempenhar a sua atividade profissional da forma como desejariam e como seria desejável para todos. Isto obrigou a algumas adaptações, obrigou a uma grande capacidade de resiliência por parte dos artistas para não desanimar e procurarem outras formas de se reinventarem. No fundo, os meios que temos atualmente disponíveis em termos de comunicação vieram, de certa forma, facilitar para que conseguíssemos manter alguma divulgação da cultura e para que os artistas conseguissem manter alguma atividade e partilhá-la com o público. Mas não é a mesma coisa que fazer essa partilha de uma forma presencial. Além disso tudo, isto obviamente que tem um impacto do ponto de vista físico e do ponto de vista emocional também para os artistas, como é óbvio. Do ponto de vista físico, no fundo, os artistas perderam um bocadinho aquelas que eram as suas rotinas, que eram as suas dinâmicas de trabalho, os ensaios, os desafios sempre prementes. E do ponto de vista da realização profissional e pessoal, como é óbvio, isto tem também impacto, até porque gera alguma ansiedade importante relacionada com o desconhecimento do que será o futuro, de quando é que se poderá reprogramar o que estava previamente agendado e a gestão de projetos atuais e futuros. Portanto, obviamente que tem um impacto bastante importante e será fundamental que eles mantenham esta capacidade resiliência e de não desanimar, para que realmente isto não tenha um impacto tão dramático como eventualmente pode ter, para a vida dos artistas e para a vida da cultura na nossa sociedade.

G. - Este tipo de restrições e de suspensão das atividades gerou novos problemas? Há novas ansiedades?

A.Z. - Sim, é expectável que haja, porque é normal que surja uma certa frustração por não poderem desempenhar a sua atividade laboral como planeado, e [que surja] alguma ansiedade em relação ao futuro e em relação aos projetos que ficaram suspensos. Portanto, há aqui um impacto acrescido em termos de saúde mental, face aos desafios que os artistas já tinham previamente. Obviamente que, depois, do ponto de vista físico também, porque se o artista não for disciplinado e se não mantiver algum ritmo de estudo e de treino e mantiver a vontade de tocar mesmo não tendo objetivos a curto prazo, pode haver aqui um descondicionamento físico importante e alguma perda de tudo o que eles têm vindo a treinar e a preparar.

G. - Que recomendações daria aos artistas, nesta fase?

A.Z. - Nesta fase é fundamental que eles não desmotivem e é fundamental que encarem este período também como uma oportunidade de rever alguns aspetos da prática artística, tentarem planear um estudo mais regular, mais estruturado — o que muitas vezes até é difícil de se conseguir quando existe uma agenda muito mais preenchida em termos de ensaios e de concertos. Isto será fundamental, porque se eles suspenderem a atividade totalmente neste momento, mesmo em termos de estudo, quando houver uma retoma vai haver um aumento mais abrupto das exigências do ponto de vista físico, do ponto de vista psíquico e técnico e, portanto, um maior risco de desenvolver problemas nomeadamente do foro neuromuscular esquelético. Portanto, é fundamental que este momento seja encarado como uma fase de preparação e de planeamento futuro, mesmo não tendo timings concretos de como é que será feita esta retoma. Por outro lado, o que eu tenho constatado, também na minha prática clínica como médica especialista em medicina das artes performativas, é que muitos dos músicos também estão a aproveitar esta fase para recuperar de lesões e, portanto, isto pode ser também um momento de oportunidade para podermos fazer um programa de intervenção terapêutico sem grandes constrangimentos. Porque o músico, no fundo, nesta fase, tem uma agenda mais flexível e conseguimos fazer um programa sem a pressão de existir um concerto daqui a dois dias, por exemplo. No fundo, é tentarmos, dentro destas restrições que têm impacto negativo, aproveitar a janela de oportunidades que também nos dá para tratarmos os problemas de saúde quando eles já existem e para fazermos um programa também preventivo de lesões, que também pode ser uma fase muito pertinente de preparação para o que depois aí vem.

G. - Tendo duas profissões tão distintas – a de profissional de saúde e a de pianista – deve ter sentido de forma diferente os efeitos das restrições que nos foram impostas. Houve alguma coisa que a tivesse afetado mais, em cada uma dessas vertentes?

A.Z. - Como artista, tal como os outros artistas, vi também alguns dos meus projetos estagnados. Alguns concertos que tinha previsto também tiveram de ser cancelados e, portanto, em termos de planeamento de projetos teve de haver aqui um reagendamento. Portanto, de certa forma, sofri essas consequências das restrições no contexto da pandemia. Por outro lado, como médica, vi o meu trabalho cada vez mais sobrecarregado e, portanto, acabou por, digamos, a balança ficar algo equilibrada. E a verdade é que enquanto os artistas, infelizmente, não puderam exercer a sua atividade profissional, os profissionais de saúde acabaram por, se calhar, ter de exercer a sua atividade profissional de uma forma ainda mais exigente e talvez sobrecarregada. Como estou a iniciar também vários projetos na área médica, a verdade é que não tenho tido mãos a medir e tenho tido efetivamente bastante trabalho que é o que é muito bom e motivador, mas efetivamente concentro na mesma pessoa duas realidades completamente diferentes, estes meus dois papéis, de médica e artista, e que são bastante contrastantes neste momento.

G. - Num contexto normal, fora deste âmbito da pandemia, como é conciliar estes interesses tão diferentes?

A.Z. – Eles, no fundo, são bastante complementares. Pelo menos é assim que eu sinto, porque são duas das minhas paixões e, portanto, para ser feliz preciso de estar ativa em ambas e é isso que me ajuda a sentir uma pessoa muito realizada. Não só isso, mas também outras paixões que tenho. Efetivamente, procuro a cada momento tentar dar o melhor e tentar aperfeiçoar-me nessas duas áreas porque realmente me realizam. E acho que, apesar de tudo, não são assim tão diferentes no sentido em que ambas me complementam e julgo que até contribuem mutuamente para eu ser melhor em cada uma delas. Desde pequena que sempre as conciliei e, para mim, sempre foi algo muito natural, que não me soa como contraste, mas sim como um complemento até porque nós como pessoas somos um conjunto de vários contextos e de várias circunstâncias. Aqui estes meus dois contextos são bastante complementares.

G. - Nesta fase de desgaste e de cansaço em relação à pandemia, acha que a cultura pode dar um novo ânimo às pessoas? Impulsioná-las neste retorno à “normalidade” possível?

A.Z. – Sim, sem dúvida. Tanto na fase da retoma como previamente. A cultura é fundamental e nós somos pessoas mais ricas se pudermos usufruir da cultura por diferentes vias. Obviamente que quando estamos a falar de artes performativas, o palco e as atividades artísticas presenciais são a cereja no topo do bolo, portanto é isso que será o desejável e que esperemos que seja possível o quanto antes, obviamente com todos os cuidados que são necessários também para que não corramos riscos desnecessários. Mas é muito importante que uma sociedade seja culta e seja rica em educação para que também consiga tomar decisões adequadas e seja uma sociedade equilibrada de todos os pontos de vista.

G. -Pode talvez até ser um contraponto a esta incerteza com que nos deparamos?

A.Z. - Sim. A cultura aqui é fundamental. Nomeadamente a arte, ajuda-nos muito a lidar com os nossos receios, com as nossas ansiedades. Ajuda-nos a conseguir parar um pouco e refletir, não é? Claro que isto é algo também bastante pessoal porque o impacto da arte é diferente em cada pessoa, é algo único que tem que ver não só com a arte em si, mas também com a forma como a pessoa receciona e integra essa arte nos seus contextos. Mas obviamente que tem um impacto muito importante na forma como nós conseguimos lidar com as situações, nomeadamente com as atrocidades que são, no fundo, algo com que vivemos atualmente. E ajuda-nos a dar algum alento, ajuda-nos a dar alguns minutos de paz. Estou a falar em concreto de ouvirmos um concerto de música, por exemplo. Ajuda-nos a conseguir viajar para outro espaço, para outro momento e respirar um bocadinho. É disso que nós precisamos um pouco, de conseguir respirar e sair um bocadinho desta rotina. Sobretudo as pessoas que estiveram (ou estão) há demasiado tempo em casa e em teletrabalho e com bastantes dificuldades em conciliar até com as atividades dos próprios filhos, etc. Portanto, a arte acaba por ser aqui uma lufada de ar fresco. Estamos todos a precisar, para nos revitalizarmos um pouco.

Entrevista por Sofia Craveiro
Fotografia cedida por Ana Zão

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