Nos tempos que correm são cada vez mais recorrentes os cruzamentos entre as diversas áreas artísticas. Não é por isso estranho ao universo da dança que o teatro ou artes plásticas possam influir nas propostas mais contemporâneas. Dessa forma encontramos hoje um espaço partilhado, de encontro entre diferentes universos artísticos, capaz de produzir programações mais ricas e variadas.

É nesta posição, que André Guedes, artista plástico português, se encontra ao ter sido escolhido como programador da secção nacional do Cumplicidades – Festival Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa, que decorre a partir de amanhã, dia 6 de março, até ao próximo dia 21 do mesmo mês.

Para falarmos sobre as suas escolhas e a sua visão sobre a dança, mas também as restantes áreas artísticas, o Gerador foi ao encontro do artista, no seu estúdio, localizado em Lisboa. Desta conversa surge uma reflexão sobre o impacto destas áreas no seu próprio trabalho que, em última instância, transportou para as opções que tomou no âmbito do festival. Trata-se, como refere, de uma escolha proveninente da sua condição de artista mas também de espectador e que por isso adquire também uma dimensão política.

O pensamento que se sustenta nas propostas que podemos ver a partir do festival, sublinham o papel da dança como sendo de vanguarda, que é disruptivo e que não se limita a um espaço territorial. “À sua escala, o festival tem essa capacidade de gerar esse coletivo e de lhe dar uma dimensão pública. São valores que estão no substrato dessa escolha”, sustenta.

Gerador (G.) – A cada edição, o Cumplicidades apresenta um programador diferente para que o festival ganhe “um olhar renovado sobre o panorama criativo na área da dança”. Como é que surgiu este convite? O Francisco Camacho, diretor artístico do festival deu-te algumas indicações sobre aquilo que se pretendia?
André Guedes (A. G.) – Sim, fez. Para utilizar uma palavra da publicidade, fez-me um briefing. Claro que me fez um historial do festival, que surge num período talvez mais agudo de austeridade. Portanto, numa altura em que há uma ausência ou uma redução de programação nas artes performativas e na cultura em geral. Foi aí que tiveram a ideia de conceber o festival como forma de assegurar que a dança continuava a ter uma expressão artística no espaço público, mas também de proporcionar momentos de apresentação em Lisboa de projetos que não ainda foram apresentados. Não só de projetos gerados em Lisboa, mas também de outros sítios do país. Essa é uma das premissas mais importantes, que é, por um lado, ser um festival de dança, ou seja, não pretende ser um evento transdisciplinar, embora o que se pode definir como dança seja hoje em dia mais aberto, e, por outro, ter também esta vontade de trazer novas criações. O convite surge porque, embora não seja programador ou curador, já estive em projetos ligados à dança. Pensaram em mim por já ter uma afinidade profissional ao colaborar com coreógrafos ou com encenadores. Por essas razões o espaço cénico não é, de todo, uma coisa que me é estranha. Também me disseram, e essa foi uma questão curiosa, que me viam a ver muitos espetáculos. Sou um espectador, embora não ache que seja mais do que outros colegas das artes visuais. Hoje, retrospetivamente, olhando para aquilo que concebemos, em boa medida, este olhar eclético é também inclusivo de várias linguagens porque isso representa a minha perceção daquilo que é a criação artística neste momento, que é rica e diversificada.

G. – No teu percurso, já tinhas tido contacto com este universo. Realizaste, a título de exemplo, a conceção espacial das diversas obras coreográficas. De que forma é que a dança e a performance têm estabelecido contacto com o teu percurso?
A. G. – Diretamente já integrei movimento e dança num projeto meu, realizado em colaboração com o coreógrafo Miguel Pereira. Mas mais do que a dança, existe no meu trabalho a presença, seja numa convenção cénica ou não, da figura humana numa duração de tempo. Em vários projetos meus de artes visuais existe essa caraterística. É um suporte ao qual eu recorro com frequência ou que eu complemento com dispositivos que integram também o caráter documental ou escultórico, naquilo que mais abrangentemente se poderá definir como instalação. É um aspeto que me interessa e daí eu pertencer a um tipo de público que segue a dança.

G. – Mas pegando nisso, sentes que é uma área que impacta no teu próprio trabalho?
A. G. – No meu trabalho, existe a presença da dança, através de determinadas gerações, sobretudo da dança pós-moderna, presente nos Estados Unidos. Há uma geração que segue ou que foram mesmo discípulos do Merce Cunningham e também o trabalho do John Cage, que me são fundamentais. Historicamente, sinto-me ligado a essa vanguarda que surge daí. O campo da dança, embora não o convoque diretamente, representa para mim uma  referência contínua porque é iminentemente uma zona expansiva e onde eu encontro um tipo de prática e de vocabulário que me é útil. Também vejo teatro e, na realidade, em termos de cenografia, muitas das colaborações que tenho feito são para teatro. O teatro recorre a dispositivos, normalmente, mais complexos, com mais recursos económicos do que na dança. A dança é, pelo contrário, a maior parte das vezes bastante mais sintética.

G. – Embora o teatro recorra muito, hoje em dia, a dispositivos performativos.
A. G. – Sim, justamente. De facto, às vezes não é muito justo que se faça essa diferenciação entre as áreas. Há criadores de teatro que estão realmente numa zona ambígua e o mesmo acontece com os de dança, onde recorrem ao uso da palavra, por exemplo. A minha maior proximidade com o teatro talvez tenha a ver com facto de utilizar muito texto dito. No entanto, ligo-me com ambas as áreas por esta ideia de encenar uma presença no espaço.

G. – Esta edição tem o termo ‘Multiverso’ como conceito agregador das propostas nacionais e internacionais. Que tipo de ecos é que este mesmo conceito pretende provocar?
A. G. – O termo, na realidade surge a posteriori, para ilustrar ou tornar um pouco mais explícito a ideia em torno deste conjunto de artistas. O multiverso é o encontro de vários universos, sendo uma metáfora e uma analogia que podemos aplicar a esta ideia de coletivo diversificado e não uniforme. Isto porque no multiverso, enquanto termo utilizado na teoria científica e até mesmo na ficção científica, se propicia a ideia de encontros entre dimensões temporais, existências paralelas. E, pelo menos, mais do que esse encontro real, existe a consciência de que existe um paralelo em relação a nós, à nossa existência.

G. – ‘Multiverso’ remete para essa ideia de encontro e era por aí que te introduzia uma nova questão: no momento atual, talvez seja mais recorrente existirem cruzamento entre áreas, como as artes plásticas e a dança. Como é que olha para esta convergência e que tipo de impacto é que isso pode ter na relação que estabelecemos com as diferentes linguagens artísticas?
A. G. – O sítio onde nós nos encontramos atualmente não é mais do que um decorrer daquilo que já foi feito. Historicamente, já desde o início das vanguardas do modernismo no século XX, existia, talvez com convicções mais clássicas, esta colaboração de artistas visuais com encenadores e com coreógrafos. Sempre houve esta relação, que é, no fundo, um caminho que resulta de afinidades pessoais e artísticas e de uma necessidade de conceber uma visualidade para cena que complemente cada um dos aspectos criadores. Hoje em dia, com toda esta prática e esta insistência sobre estas mesmas relações, noto que estas acabam por se tornar mais expandidas. E depois do ponto de vista do público, podem chegar a mais pessoas, sendo estas um pouco contaminadas por expressões artísticas que estão numa zona já permeável de grande contaminação.

G. – Ficaste responsável pela secção nacional do festival. Como é que pensaste estas escolhas?
A. G. – Acho que a minha preocupação, juntamente com a restante equipa era pensar de que modo eram feitas estas escolhas. Por isso, logo à partida decidimos fazer uma convocatória, que acabou por se revelar muito importante e concreta porque foi a partir dela que acabamos por escolher, praticamente, toda a programação nacional.

G. – Tinha um modelo de open call. Surpreenderam-vos as propostas que chegaram?
A. G. – Sim, efetivamente, chegou tanta coisa que até houve um atraso na resposta. Chegaram cerca de 300 propostas. Depois desse momento entrou uma escolha pessoal, de afinidades, mas também uma das interrogações que eu tive foi justamente a questão «no papel de curador deve programar-se aquilo que se gosta ou programa-se para além disso?». Não tendo eu uma prática inscrita na área da dança, não tenho sequer uma linha estética que sigo e não é só uma que me interessa enquanto espectador, e isso acabou por me abrir às diversas propostas. Esta escolha de convocatória, que é uma metodologia que é comum, foi importante como forma de tornar o acesso ao festival mais livre e de não o pensar numa perspetiva elitista, fechado entre o grupo de organização. Por um lado, era isso, por outro, era olhar verdadeiramente para aquilo que está a ser feito em termos práticos e reais.

G. – Falaste nessa ideia de uma escolha que tivesse em conta aquilo que está a ser feito atualmente.
A. G. – Uma das questões mais interessantes é que aquilo a que chamamos secção nacional não pode ser apenas constituída pelo que tem nacionalidade portuguesa. É também sobre quem é que vive aqui. Esse é talvez um dos aspetos mais recentes, nomeadamente porque há muitos artistas brasileiros a virem para Portugal em função da situação política que estão a viver e da qual se sentem altamente limitados e censurados. Portanto, o nacional é também isso. É constituído pelas pessoas que estão cá. É um espaço de pertença e desse acolhimento.

G. – Dirias que acaba por existir uma certa dimensão política e social na programação?
A. G. – Sim, no fundo esta ideia de pensar o coletivo, que é o caso deste festival, acaba por ser também, não o sendo estrategicamente e de uma forma propositada, uma coisa que organicamente aconteceu. Porque quando se pensa um coletivo ou numa forma de se juntar pessoas, qualquer produção no momento atual pode ter uma forma política, seja mais explícita ou menos. E, portanto, é pensar com que valores é que podem enformar esse mesmo coletivo que estamos a gerar. À sua escala, o festival tem essa capacidade de gerar esse coletivo e de lhe dar uma dimensão pública. São valores que estão no substrato dessa escolha.

G. – O festival está a apostar num serviço educativo, em parceria com a Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, para abordar a História da dança a partir de conceitos como “património coreográfico”, “repertório”e “legado da dança”. Mas também na iniciativa do Passaporte da Dança, que promove aulas de dança gratuitas, abertas a todos. Consideras que este tipo de iniciativas pode ter um papel fundamental na sensibilização de públicos para a dança?
A. G. – Sim, sem dúvida. O Passaporte da Dança era uma iniciativa que já tinha surgido, e é uma ideia, a meu ver, excelente para falar desta prática e potência que é a dança, realçando a possibilidade de existir no quotidiano individual, social e urbano. Até a própria diversidade das escolas que estão associadas demonstram essa heterogeneidade. Outro dos aspetos que falaste, nomeadamente as atividades paralelas, têm de facto muito que ver com este pensar do festival para além de uma mera apresentação de espetáculos. Os workshops ou o projeto educativo são tudo modos de utilizar o festival como uma plataforma discursivo e de reflexão. E um festival pode ser isso.

G. – A dança é muitas vezes vista como parente pobre das artes em Portugal. Como olhas para isso?A. G. – Quanto à falta de apoios, acho que isso se estende a toda a cultura e sobretudo à criação contemporânea. Eu noto cada vez mais a existência nas artes performativas, de uma formatação, em virtude também das políticas de apoios e da falta definanciamentos, isto é, de uma normativização dos processos artísticos. Ou seja, parece que cada vez mais não há dinheiro, assim como tem de se cumprir um determinado perfil, passando por critérios e etapas, para se conseguirem viabilizar projetos. Sinto isso, e para aqueles que dependem dos financiamentos, tem de se entrar em lógicas por vezes perversas, que não são de todo boas para a própria criação.

G. – Como olhas atualmente para o panorama da dança em Portugal?
A. G. – É um panorama muito rico, apesar de tudo. Há uma grande resiliência por parte dos artistas que trabalham nesta área. Há uma enorme mobilidade também, com a vinda de artistas estrangeiros, mas também com a ida de artistas nacionais lá para fora para trabalharem. Eu vejo isso de uma forma muito positiva, apesar de todos os constrangimentos que ainda agora falava.

G. – Os festivais, que cada vez mais dedicam espaço da sua programação à dança, contribuem para uma desmistificação desta área artística?
A. G. – Todos estes festivais trabalham nesse sentido. No entanto, tenho uma perspetiva pessoal, na qual acho que a vanguarda será sempre vanguarda. Se retirarmos à vanguarda a sua capacidade de introduzir ruptura, por mais evidentes ou subtis que sejam, a mesma deixará de existir. Vejo isso porque a minha construção pessoal surge desse estranhamento ou desse confronto com o estranho e o inusitado. É daí que surgem as minhas primeiras experiências artísticas e estéticas. É preciso realmente haver uma comunidade artística, que apoiada ou não pelo Estado, continue a produzir objetos e propostas, em que se tenha sempre em conta que há sempre um espectador por vir. Haverá sempre alguém que irá ser tocado por esses objetos. Os festivais passaram a expandir-se, e com as suas valências educativas, trazem ao publico um vocabulário mais contemporâneo.

G. – Fazes um balanço positivo desta tua experiência como programador?
A. G. – Foi muito importante desde já pelo ponto de vista de ter de trabalhar em equipa. É óbvio que tivemos momentos de apreensão e de empolgamento, mas trabalhámos em equipa. Apesar de eu estar habituado ao coletivo, mas por momentos mais limitados, aqui houve essa experiência e serviu-me muito em termos pessoais. Foi uma experiência muito gratificante e que me permitiu também o estar mais próximo de alguns processos artísticos, acompanhá-los e ter uma ideia mais aprofundada sobre o que eles representam.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Susana Pomba

O Gerador é parceiro do Cumplicidades – Festival Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa


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