“Se é a minha vida, é a minha/ responsabilidade./ Imagina um deus que dorme/ enquanto um rio de lava/ destrói aldeias inocentes./ Eu sou deus, o vulcão e a aldeia.” Há quem diga que a poesia pode ser encarada como um exercício de libertação, outros até que se trata de uma forma de salvação. No caso de André Tecedeiro, a sua poesia contempla um exercício singular de revelação, de alguém que se apresenta ao leitor, despojado de tabus e preconceitos.

Em seis anos, desde 2014, o artista plástico e poeta publicou quatro livros de poesia, os primeiros dois assinados pelo nome de Ana [Tecedeiro]. Neste período mudou de género assumindo-se hoje como homem transgénero voltou a estudar e já este ano lançou um quinto livro, que é simultaneamente uma antologia poética de toda a sua obra, reunida pela Porto Editora, a que chamou A axila de Egon Schiele

Em entrevista ao Gerador, André fala-nos das mudanças que foi enfrentando nos últimos anos e de que forma é que isso impactou a sua própria poesia, que de forma indissociável aos tempos que vivemos, ganha um carácter de urgência. Os seus versos misturam-se com as suas palavras: “Estamos nus nisto.”, escreve. E embora a poesia não mude as pessoas, reconheça que a mesma ajuda a definir conceitos, a expor problemáticas, mostrando por vezes a necessidade de se mudar:

“O mundo, desde que foi criado até agora, não parou de mudar e mesmo que agora decidas que a tua vida vai ser sempre igual todos os dias, ela vai mudar à mesma, ou porque envelheces ou porque derrubaram uma árvore à frente da tua casa. A mudança ocorre naturalmente e não temos de ter medo de sermos nós os impulsionadores dessa mudança”, realça.

Gerador (G.) – Qual a sensação de passados seis anos desde a publicação do teu primeiro livro teres, agora, a tua obra reunida nesta antologia?
André Tecedeiro (A. T.) Por acaso não tinha pensado nisso assim (risos). Realmente, andou rápido. O primeiro livro foi uma surpresa, de certa forma, porque foi um convite que o Miguel Martins me fez para lhe mostrar o que estava a escrever e por isso nem sequer estava à espera de o editar. Portanto, editar este agora, o quinto, e ser uma antologia com a reunião de tudo o que escrevi é uma sensação espetacular, mas a verdade é que as coisas andaram sem grande plano.

G. – Não é segredo que estes seis anos foram de grandes mudanças na tua vida. Como é que te relacionas, agora, com alguns destes poemas escritos em 2014?
A. T. Não é uma situação fácil de gerir até porque o nome com que eu assinava os livros mudou. Neste livro eu fiz uma coisa, que não sabia se havia de fazer ou não, mas nalguns poemas mudei o género. Foi uma opção, porque nalguns não me senti confortável e noutros achei que tinha de ser, porque foram escritos por aquela pessoa e reportavam a uma experiência no feminino, que não fazia sentido alterar.

G. – Mas não deixa de ser um livro escrito por alguém que mudou bastante, como se tivesse tido até mais do que um autor.
A. T. – Na verdade, acho que é um privilégio ter escrito durante estas mudanças que me acompanharam e não estou a falar só na minha transição de género. No primeiro livro era uma pessoa que estava casada com um homem. Depois divorciei-me, voltei a estudar. Houve uma série de mudanças para além daquela que as pessoas geralmente conhecem. Então, acho que é um privilégio, para mim e para toda a gente que escreve mesmo que seja só para si, conseguir ter a sua história escrita e conseguir olhar para o seu caminho. Este livro é, na verdade, um percurso pessoal que assim ficou registado.

G. – Ainda que certos autores possam considerar que o momento das mudanças pode não ser o mais adequado para, in loco, se escrever sobre elas.
A. T. Acho que toda a gente que é minimamente honesta escreve sempre sobre a sua experiência e aquilo que está a sentir no momento. Se calhar, algumas coisas que eu escrevi no passado, agora não iria escrever, mas na altura fi-lo e ainda bem. Mas é claro que depois, passado algum tempo, olhamos para as coisas e elas já nos são um pouco estranhas. Num dos livros, no Deitar a Trazer (2016), os meus dias eram pesados e isso nota-se. Agora olho para ali e quase não me reconheço. A minha vida agora é muito mais leve, muito mais confortável, e o que está aí escrito já não é o que eu sinto, mas é aquilo que sentia. Estou contente por ter isso registado. De qualquer das formas, a partir do momento em que já escrevi, aquilo já não é para mim, mas sim para quem lê. E se há pessoas que se identificam, isso para mim é o mais importante. Trágico seria se as coisas me dissessem algo a mim e não comunicassem com mais ninguém.

G. – Há sobretudo um livro, O Número de Strahler (2018), que marca muito o teu momento de transição de género. Sentes que a escrita ganhou mais preponderância a partir desse momento, passou a ter outro peso?
A. T. Para mim não. Ao escrever dei a mesma importância a tudo, até porque, às vezes, há experiências que as pessoas não reconhecem como uma experiência relevante para mim, mas que foi e está aí escrita de alguma forma. Agora é verdade que mais pessoas começaram a reparar que eu escrevia. Isso não posso negar.

G. – A escrita para ti funciona como um exercício de libertação, quiçá de salvação?
A. T. – Tenho a certeza que sim, mas eu não acho que isso seja o suficiente para escrever. Uma coisa é o que eu escrevo para mim e nessa altura é uma salvação. Quando eu decido que vou editar um livro, volto a olhar para tudo e passo ao trabalho de operário fabril em cima do livro. Portanto, não é só despejo. Tenho uma fase em que escrevo para mim e para despejar aquilo que estou a sentir, mas depois há uma fase de trabalho árduo em cima daquilo, que faz com que nasça um livro. São duas fases, com sensações diferentes. Por isso, por um lado sim, é uma salvação. Mas para isso não preciso de editar, basta escrever. Para editar há uma outra fase de trabalho mais sistemático. É claro que é também uma tarefa libertadora e dá-nos poder sobre aquilo que escrevemos, nomeadamente de reler, de tirar o que está a mais naquilo que se calhar servia para comunicar comigo mas que não serve para comunicar com os outros.

G. – Como é que a escrita surgiu na tua vida e como é que isso se interliga com as artes visuais?
A. T. Eu sempre gostei de escrever por prazer e a arte visual trabalha com outra linguagem que não é a linguagem das letras. Por isso tentei sempre separar um pouco as coisas, mas na verdade o que aconteceu foi que a forma como eu escrevo vai buscar algo ao visual. E reconheço, pelo menos no meu modo de trabalho, que há uma ligação entre os dois mundos.

G. – Que não são, portanto, intocáveis.
A. T. Não são, de facto. Eu não estudei literatura, estudei artes visuais e a forma como nos ensinam a trabalhar ou a estimular a criatividade nas artes visuais foi aproveitado por mim para escrever. O método se calhar está próximo também, mas sempre foram coisas paralelas pelo menos.

G. – Já referiste essa necessidade de se alterarem certos poemas por não te identificares com o género que tinhas na altura em que foi escrito. Essa dimensão continua a ter importância na tua escrita?
A. T. – Eu agora sinto que [a poesia] não tem género, mas na altura em que um género te é imposto tem, porque é um peso que tens em cima. Acho que uma pessoa que está bem na sua pele não tem género. É natural. Nem sequer pensas nisso, se és homem ou mulher. Na verdade, as pessoas têm género quando estão muito desconfortáveis. Aí notas perfeitamente que ele existe. Agora, a língua portuguesa exige que se acabe com “a” ou com “o” em certas palavras. Isso acontecia naturalmente, mas não penso que a questão de género esteja assim tão presente nos meus poemas.

G. – Mas concordas com a leitura de que algumas destas questões já estavam presentes nos primeiros livros?
A. T. O que estava presente era um mal-estar e isso noto perfeitamente que há uma diferença entre os livros antes e depois de O Número de Strahler. E até acho que esse livro vai caminhando de um certo peso para uma luz cada vez maior. Eu, pelo menos, arrumei os poemas um pouco nessa lógica. Portanto, acho que este livro, A axila de Egon Schiele, que tem a história toda, começa, se calhar, com poemas mais pesados até chegar a poemas mais leves ou mais confortáveis. Provavelmente essa leitura está lá, mas não tenho consciência de tudo o que acontece quando escrevo.

G. – Escreveste: “Eu era um homem/ escondido em águas profundas/ conquistando o corpo ao mar”. Já falaste do dia em que mudaste oficialmente de nome, mas queria perguntar-te se a partir desse dia também a tua poesia mudou?
A. T. Não, não divido as coisas assim. Também não passei a ser tão diferente de um dia para o outro. Muda um bocadinho a forma como as pessoas me veem mas eu sou a mesma pessoa mais ou menos confortável. Mas não acredito que a minha relação com a escrita tenha mudado.

G. – E este homem escondido em águas profundas já saiu daí?
A. T. Tem de se conquistar. É mesmo essa sensação de conquistares algo terreno, de conquistar um território onde consigo ser, porque o corpo é aquilo que te permite relacionares com o mundo. Então teres domínio sobre o corpo ou conseguires estar confortável com ele é uma coisa extremamente importante, porque é com ele que vais criar coisas e estabeleceres ligações com pessoas. Convém que haja um bem-estar e às vezes há pessoas que têm de conquistar mais o seu corpo. Mesmo uma pessoa que esteja a fazer fisioterapia, também está a conquistar o seu corpo.

G. – E agora neste tempo de confinamento em que se fala da ideia de corpos confinados ou até mesmo desta ideia de que somos subservientes a uma certa ditadura do corpo, porque nos impõem uma série de concepções.
A. T. – Acho que é um caminho que cada pessoa tem de fazer. Cada pessoa precisa de conquistar o seu corpo de uma forma diferente e libertar-se de certas concepções que tem. Na verdade, cada um sabe o que é que precisa desta sua ferramenta que é o corpo e pode tentar aproximar-se do que o faz mais confortável. Mas claro, isso implica a tal luta contra essa ditadura social, do que deve ser uma mulher, do que deve ser um homem, de como te deves comportar, etc. Cada pessoa tem de fazer as contas à sua vida e tentar perceber até que ponto vai ceder a essa ditadura ou se vai libertar.

G. – Até porque algumas das grandes mudanças que ocorreram, em especial no século XX, têm precisamente que ver com o corpo. Sentes que já existe hoje uma abertura para se falar destas problemáticas e pôr em causa certos paradigmas?
A. T. Dentro de cada casa, por exemplo, em cada família há pessoas que ouvem todos os dias coisas como: «devias cortar esse cabelo», ou «devias emagrecer» e são pequenas coisas. Já nem estou a dizer coisas como «devias ser uma rapariga que se veste como uma rapariga» ou «devias casar e ter filhos». As pessoas tentam mandar nos nossos corpos diariamente, mesmo no nosso círculo mais doméstico, confortável e familiar, algo que acontece também na sociedade em geral. E não é por se falar mais à vontade de pessoas trans, de pessoas LGBT+ ou até mesmo de racismo que o corpo deixa de ser algo que nos é imposto. Isso vai acontecer sempre, de uma forma ou de outra, mas espero que cada vez mais as pessoas respeitem os outros e percebam que o corpo é de cada um e que não conseguem imaginar o que é sentir dor no corpo do outro. E então pelo menos se não conseguimos sentir exatamente o que o outro sente, ao menos devemos deixar que ele sinta e acreditarmos no que ele diz. É uma questão de empatia.

G. – O Cruzeiro Seixas, que faleceu recentemente, escreveu numa epígrafe que o “corpo é a obra de arte inacabada a que procuramos sempre acrescentar qualquer coisa. Essa coisa é o nosso amor.” O amor, na tua vida, vai completando essa obra inacabada que pode ser o corpo?
A. T. Sim, sem dúvida. Ainda há pouco tempo pensei nisso. No meu caso, a relação que tenho com a Laura [Falé] é um pouco como uma planta onde, ao seu lado, se coloca um tutor para que ela não tombe. Neste caso, é como se os dois fossemos plantas e os dois fossemos tutores. Estamos os dois a crescer ao lado um do outro e amparamo-nos. É mais do que completarmo-nos; é crescer lado a lado, amparando o crescimento um do outro.

G. – É por isso que esta parte do livro, a que chamaste “Falar a Pé”, em que tu e a Laura entram em diálogo, também pode ser um exercício poético?
A. T. Já me perguntaram isso antes. Eu não tinha pensado se era poesia ou não, mas agora se calhar começo a achar que sim, uma vez que várias pessoas me falam nisso. Nunca tinha escrito nada deste género, foi um desafio que me fizeram na Porto Editora. Foi uma ideia do Valter Hugo Mãe – que dirige a coleção –, porque ele gostava de ter entrevistas com os poetas e neste caso achou que, em vez de fazer a entrevista com ele, ficaria interessante uma conversa com a Laura. Mas foi algo difícil de escrever. Não é o tipo de escrita a que estou habituado. Não sabia muito bem até onde é que se podia ir nesta conversa, mas sim, acho que ficou poético e, mais do que isso, ficou honesto.

G. – Neste conjunto de livros não se encontra de forma clara, e segundo os tais padrões de que falavas, um ponto de vista feminino nos primeiros livros, como também não vejo nestes mais recentes um ponto de vista masculino. Concordas com esta ideia de fluidez que te acompanha e que não te faz nem ser uma coisa nem querer necessariamente caber noutra, mas apenas de entrar “pela vida adentro”, como escreves?
A. T. – Sim, com certeza. Não me sinto nem uma coisa nem outra e esse é o ponto mais confortável para mim. É ter a parte boa que reconheço nos dois tipos de educação, por exemplo, que nos dão. Acho que ainda se educam, e vejo isso todos os dias, meninos e meninas de formas muito diferentes e as duas abordagens têm vantagens. Seria muito vantajoso se os pais começassem a juntar essas mesmas abordagens, tornando as meninas mais fortes e os meninos mais sensíveis (risos). Eu tento fazer isso a mim mesmo, de forma autodidata nessa forma de estar mais fluida.

G. – Nesta antologia cabe também um novo livro, que lhe dá título. O que é que muda na tua poesia neste livro, A axila de Egon Schiele? Já disseste que, de alguma maneira, ele vem do passado para o teu presente.
A. T. Acho que faz um balanço e onde, se calhar, o que o marca mais é o eu ter-me confrontado com a minha idade, o que é uma coisa estranha. Foi como fazer aquele balanço do tipo «cheguei a esta idade e agora quem é que eu sou? Como é que é o meu corpo agora nesta idade? Como é que é a minha relação familiar e com meu gato?».

G. – Como se a tua vida tivesse estado fixada em certos problemas e agora encontrasses um desprendimento que te dá uma visão mais ampla sobre outros aspetos do quotidiano.
A. T. Acho que sim, talvez. Não tinha pensado nisso mas sim, há um desprendimento. Trata-se de um balanço, realmente. Não quis pegar em poemas muito pesados. Há um em que falo sobre o meu azar ou a minha sorte, porque quando chegamos a um certo ponto as pessoas costumam fazer uma leitura muito simplista do nosso percurso.

G. – “A meio da vida despi/ três camadas de roupa/ Foi como se fosse/ novamente/ primavera.”
A. T. Sim há uma leveza, não é? Houve ali um ponto de mudança, algo que implicou esse despir, mas depois vive-se de novo.

G. – Ou “Os anos que passei/ perdido no medo./ Quem mos devolve./ Quem mos devora.” Sentes que perdeste anos de vida com esta decisão de mudares de género?
A. T. Eu perdi anos de vida não com o processo, mas em ter demorado tanto a conseguir fazê-lo. Nós ganhamos anos de vida de cada vez que mudamos uma situação, em vez de nos estarmos a queixar dela. Eu passei o tempo a queixar-me. Agora aplica isto ao que quiseres. Dá para tudo. O tempo que passas a não fazer mudanças na tua vida é tempo perdido, mas também pode ser ganho, se estiveres a ganhar força e a tomar balanço para depois se ir para a frente.

G. – Já agora, gostavas de explicar o porquê da referência ao Egon Schiele?
A. T. O Egon Schiele passou muito tempo a investigar-se, a olhar para o seu corpo, e os seus auto-retratos são bastante analíticos de toda a expressão que o corpo pode ter. Mas a referência a ele surge porque uma vez estava numa conferência sobre identidade e o cartaz que estava atrás dos conferencistas tinha uma imagem de um quadro seu em que o Schiele está com o braço levantado e eu estive, digamos, que um fim de semana todo, a olhar para a mesma imagem, especificamente para a sua axila. A certa altura achei que era um desafio, em que se estava a revelar e a mostrar o seu corpo como sinal de desafio. Achei que era uma provocação e foi por isso que depois acabei por escrever esse poema, que fala um bocado sobre um duelo entre mim e o meu corpo e esse corpo desafiante que é o do Egon Schiele.

G. – Embora não exista uma dimensão transcendente na tua poesia, neste último livro referes Deus, de formas variadas. Escreves: Nos piores dias não peço a deus,/ peço a David Attenborough/ que dê um sentido a tudo isto”.
A. T. Nos dias maus não há um sentido para nada. Olha os tempos que estamos a viver. É muito fácil enlouquecermos e dizer «quantos dias mais é que eu vou aguentar este novo normal?». Neste caso, houve uma substituição de deus pelo David Attenborough… todos nós temos um deus qualquer num dia. Tem de haver alguém a quem tu pedes algo ou de quem esperas algo. Eu não acredito em deus, mas faz falta de vez em quando acreditarmos em algo.

G. – “Deus entra à frente/ e abre as janelas do mundo./ Fiquem à vontade, diz, isto é tudo novo./ A única coisa antiga,/ que está cá desde sempre/ é a mudança.”
A. T. Aí já estou a pôr a hipótese de ter havido um deus no primeiro dia, que nos deixou à larga e que depois foi à vida dele. Mas acho mesmo que tudo o que está cá desde sempre é a mudança. Tudo que aconteceu no mundo até agora foi pela mudança, disso tenho a certeza. O mundo, desde que foi criado até agora, não parou de mudar e mesmo que agora decidas que a tua vida vai ser sempre igual todos os dias, ela vai mudar à mesma, ou porque envelheces ou porque derrubaram uma árvore à frente da tua casa. A mudança ocorre naturalmente e não temos de ter medo de sermos nós os impulsionadores dessa mudança. Tudo o que acontece é mudança. É aquilo que está cá sempre, desde o primeiro dia. Essa mensagem, para mim, é verdadeira. Não tenho medo de mudar, porque nos adaptamos, mas melhor do que isso é sermos nós o motor da mudança.

G. – Mesmo que não se acredite na ideia de que a poesia pode servir para algo, acreditas que para quem esteja a enfrentar problemas semelhantes aos que enfrentaste a leitura dos teus poemas pode ajudar?
A. T. Também não acredito nessa ideia de utilidade. Não gosto de pensar que a arte ou a poesia são utilitárias, como fizeram os fascistas que se aproveitaram disso para fazer propaganda. Acho que a arte não deve ter uma utilidade, mas eu recebo muitas mensagens de pessoas que leram poemas meus e que se identificaram, portanto tenho de admitir que as pessoas, às vezes, ficam tocadas ou se relacionam com certas palavras ao sentirem que fala delas. Fico mesmo feliz se há pessoas que sentem que estes poemas falam da sua experiência pessoal ou que lhes mostra um caminho em que elas não tinham pensado. Eu não escrevi para mudar nada, mas fico mesmo muito feliz quando alguém tem uma leitura pessoal e única sobre as coisas, sobre um poema e me escreve a dizer — «olha isto fez-me imenso sentido, porque eu estou a passar por uma situação x e apesar deste poema não ter sido escrito por causa disso eu identifiquei-me na mesma». Acho isso fantástico.

G. – Sentes que este livro fecha um ciclo?
A. T. Sim, fecha. Não sei o que é que vou escrever a seguir, mas é como te digo: o último livro que aqui está, neste volume, é um balanço que fecha um ciclo, de certeza. E eu, aliás, gostava que o próximo livro nem sequer fosse de poesia.

G. – Como um fecho de ciclo sentes que esta poesia é também de revelação?
A. T. Sim, é bem visto. Acho que a poesia sabe inconscientemente o caminho e revela-me, no sentido em que parte de intuições. Ter olhado para as coisas daquela maneira e ter escrito estes poemas, se calhar, veio revelar um mal-estar que ainda existia. Mas acho que a poesia, no geral, tem esse efeito de mostrar coisas escondidas e revela segredos que todos temos dentro de nós. 

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia da cortesia de André Tecedeiro

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