André ViaMonte é cantor e compositor. Nasceu em Zurique, Suíça, em 1983, e cresceu e viveu em Singen, uma cidade do Sul da Alemanha. Aos cinco anos, entrou em aulas de canto, onde descobriu o gosto pela música. Desde então, encontrou inspiração em diferentes culturas musicais, como o folclore português, o fado, a ópera, o jazz, a bossa nova, as vozes búlgaras. É licenciado em Musicoterapia e tem dois discos lançados, VIA (2016) e Monte (2019), ambos com convidados especiais, tais como Eunice Muñoz, Beatriz Nunes, Fernando Girão, Teresa Lopes Alves ou Beatriz Nunes.

Fortemente motivado pelo contexto epidémico, de medo, André ViaMonte lança agora o single AQUI, porque estamos “numa fase em que é preciso mais compaixão do que nunca”. É uma canção que, musicalmente, não se afasta dos trabalhos apresentados, mas marca uma estreia: André a cantar em português. E este facto poderá ser o mote para um “lembrete” antigo.

Em 2019, o Gerador deixou-lhe a Pergunta da Sorte e, em 2020, deixa-lhe novas perguntas, para continuar a acompanhar o percurso do André ViaMonte e para saber como chegou até “aqui”. Vê mais na entrevista que se segue.

Gerador (G.) – “Levar a música a uma via de união pelo sentimento baseada na empatia gerando sentimentos de pertença, respeito e tolerância” é a tua missão como músico. Como chegaste até aqui?
André ViaMonte (A.V.) – Não foi consciente. Dei por mim a seguir um caminho. Inicialmente, caminhava-o por mim, cruzei-me “a meio do caminho” com pessoas cujas as histórias de facto resgataram o compositor e o músico adormecido para algo diferente… quanto “destino”. Dei por mim com uma obra de estreia nas mãos, que era fruto de algo tão colectivo quanto individual. 

G. – Em que aspetos artísticos e humanos te tocou a formação em Musicoterapia?
A.V. – A formação em Musicoterapia foi das melhores experiências que guardo, sobretudo o estágio do Mestrado na Quinta do Cabrinha. Já tinha esquecido a carreira de composição e de música fazia algum tempo. Na verdade, após a experiência em diversos géneros musicais, nada me fazia despertar um interesse de “pertença musical”Optei por fazer diferença onde poderia fazer. Após aquele estágio, vi, de facto, o que a música pode fazer. Arrisquei e levei os meus instrumentais para intervenção nos processos em que trabalhava na altura. Lembro-me de ficar com a nítida sensação: “É isto… e é isto que me faz sentido.

G. – Tens dois discos editados – VIA (2016) e Monte (2019) – cantados em inglês mas onde se ouve português noutras vozes, como a de Fernando Girão e a de Eunice Muñoz. Esta mistura representa a mistura de influências musicais que tiveste ao longo da tua construção como cantor e compositor?
A.V. – Sim, vozes como Fernando Girão, Teresa Lopes Alves, Beatriz Nunes, B-Leza, Eunice Muñoz, bem como outros temas que acabei por escrever integralmente em português. Por um lado, não deixa de ser uma representação do que vivi, porque falava em português em casa e inglês no jardim de infância. Por outro, a simbologia para onde quero regressar. Apesar de escrever em inglês, há sempre uma ponte para a nossa língua como uma forma de “lembrete”, para não me esquecer do meu desafio pessoal de querer escrever um trabalho totalmente na língua materna (risos).

G. – Em 2020, trabalhas num disco comemorativo dos 100 anos de Sophia de Mello Breyner Andresen, com poemas ditos por Ana Zanatti, e fazes uma banda sonora para um universo totalmente português. Como foi esta experiência?
A.V. – Sophia de Mello Breyner Andresen é das minhas escritoras que mais admiro. Ana Zanatti é actriz, autora, amiga, por quem tenho de facto um carinho enorme. Tudo junto é avassalador. Na composição, não faria sentido algo elaborado ou demasiado analítico, mas sim de regresso. Foi um voltar ao meu “experimentalismo”. De facto, conseguir ter liberdade de expressão e poder regressar aos velhos momentos, em que a voz emite os diversos sons do vento, do mar, foi nostálgico. Terei que agradecer o convite feito pela Ana Zanatti porque poder estar a partilhar a minha música neste momento foi arrebatador.

G. – Tendo em conta as várias propostas musicais que nos ofereces, da canção cantada às canções instrumentais, da poesia falada à poesia cantada, do design à ilustração, o novo single AQUI que estás a lançar é uma consequência natural dos teus trabalhos anteriores ou marca uma viragem na tua proposta musical?
A.V. – Grande questão, Gerador! Vocês de facto estão mesmo atentos! (Risos) É uma consequência natural dos meus trabalhos anteriores. Há uma certa viragem porque acompanha o contexto actual, contudo a identidade sonora continua muito presente. O single aborda a questão de, apesar de estarmos distantes, não podermos deixar que o medo nos domine numa fase em que é preciso mais compaixão do que nunca. 

G. – Existe um novo disco a caminho ou este single traz um lançamento livre de canções, na medida em que te for fazendo sentido?
A.V. – Ainda não. Estou em processo de promoção e divulgação do Monte. Este single, AQUI, foi uma necessidade devido ao contexto actual. A cultura está em risco. As pessoas lutam por se manterem sanas e outras por sobreviver. Famílias não se conseguem despedir dos seus entes queridos. Vivemos, de facto, num momento lamentável e dramático, mas também de grande solidariedade e de compaixão.

G. – Há alguma crítica ao teu trabalho que te deixe particularmente satisfeito? O que gostarias de ouvir sobre o single AQUI?
A.V. – De todas, terei que referenciar duas críticas ao álbum Monte: uma do Rodrigo Leão e outra vinda dos Estúdios de Abbey Road, pelo Alex Wharton. Deixaram-me extremamente satisfeito. No entanto, todas – sejam positivas ou menos – são simbólicas de movimento e de acção de que de facto estamos cá e estamos a fazer algo que realmente valha a pena! Gostaria que o single AQUI pudesse voar e chegar a quem, de facto, mais precise de o ouvir. Na verdade, tanto o single como o vídeo foram feitos coma a mesma intensidade. Recebemos de diferentes pontos do mundo e chegámos a receber desde o Brasil, Japão, Holanda, quer de profissionais ou não, momentos do dia gravados que pudessem transmitir mensagens de carinho, afeição. O resultado foi uma mensagem universal, dizendo em forma de imagem: “Estamos todos AQUI”. Tenho, de facto, de agradecer aos que acreditaram nesta iniciativa sobretudo ao Henrique Hirche (edição de vídeo), às imagens cedidas por Ricardo Capristano, Diogo Caramujo, Neide Martinho, e a todos os que contribuíram para esta iniciativa. Obrigado.

G. – Aproveitando um desafio que o Gerador te lançou em julho de 2019, deixo-te a pergunta de remate pelas tuas próprias palavras: “se tivesses a possibilidade de reencontrar a tua criança dos 5 anos, o que é que tu lhe perguntarias?”
A.V. – “Então! Já chegámos?” (Risos) 

Texto e entrevista de Rita Dias
Ilustração da cortesia de André ViaMonte

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